Resumo
- Lisboa, 6 de Julho de 2025 — O novo relatório da relatora especial da ONU para os Territórios Palestinianos Ocupados, Francesca Albanese, acusa dezenas de multinacionais de “alimentarem e beneficiarem de uma economia do genocídio” resultante da guerra em Gaza, iniciada após o ataque do Hamas em Outubro de 2023.
- A jurista italiana recordou que “para alguns, o genocídio é rentável” e concluiu que, sem cortar o fluxo de capital e tecnologia, o massacre dificilmente cessará.
- Enquanto o número de mortos ultrapassa 56 000, o índice principal da Bolsa de Tel Aviv (TASE) regista lucros recorde — receitas trimestrais cresceram 21 % face a 2024 — e analistas falam em “refúgio de ocasião” para investidores que apostam na indústria de defesa.
Francesca Albanese pede embargo e punição das empresas que lucram com a ofensiva israelita
Lisboa, 6 de Julho de 2025 — O novo relatório da relatora especial da ONU para os Territórios Palestinianos Ocupados, Francesca Albanese, acusa dezenas de multinacionais de “alimentarem e beneficiarem de uma economia do genocídio” resultante da guerra em Gaza, iniciada após o ataque do Hamas em Outubro de 2023. O documento, entregue ao Conselho dos Direitos Humanos em Genebra, exige embargo de armas, suspensão de trocas comerciais e responsabilização criminal de gestores que continuem a fornecer bens ou serviços ao aparelho militar israelita.
Embargo já: um apelo sem precedentes
Perante delegados surpreendidos, Albanese descreveu uma situação “apocalíptica” e comparou a cumplicidade empresarial actual com casos históricos como o de IG Farben na Alemanha nazi. A jurista italiana recordou que “para alguns, o genocídio é rentável” e concluiu que, sem cortar o fluxo de capital e tecnologia, o massacre dificilmente cessará.
Sessenta nomes sob os holofotes
O relatório identifica mais de 60 empresas envolvidas em fornecimentos de armamento, financiamento ou vigilância: Lockheed Martin, Leonardo, Caterpillar, Volvo, Alphabet, Amazon, Microsoft, IBM, Barclays e Vanguard são apenas alguns exemplos. Estas firmas, segundo a ONU, integram projectos tão diversos como o programa dos caças F-35, o software de rastreamento Palantir ou o reforço do muro electrónico em torno de Gaza. Que fronteira separa o negócio legítimo da cumplicidade em crimes de guerra?
Bombas, dados e betão: três motores de lucro
Complexo militar-industrial: Mais de 1 600 subcontratadas suportam o ciclo global de peças do F-35, permitindo que a força aérea israelita mantenha ritmo elevado de bombardeamentos. Tecnologia & cloud: Desde Outubro de 2023, Israel adjudicou infra-estruturas críticas de computação em nuvem à Google e à Amazon. Para Albanese, estas plataformas “potenciam a continuidade do genocídio” ao fornecer análise de grandes volumes de dados sobre alvos em Gaza. Construção & demolição: Escavadoras Caterpillar D9 e maquinaria Volvo continuam a rasgar túneis e arrasar bairros, mesmo após múltiplas resoluções que classificam tais acções como destruição ilegal de propriedade civil.
“Não pedimos caridade, pedimos que parem de lucrar com a nossa morte”, resume Albanese no relatório.
Energia de guerra
O sector energético garante 17,5 % da electricidade israelita através do consórcio Chevron no campo de gás Tamar, a 24 km da costa de Ashkelon. Para a relatora, o fornecimento “sustém o cerco”, pois mantém Gaza dependente e fornece receitas fiscais que financiam as Forças de Defesa de Israel.
Bolsa e turismo coloniais
Enquanto o número de mortos ultrapassa 56 000, o índice principal da Bolsa de Tel Aviv (TASE) regista lucros recorde — receitas trimestrais cresceram 21 % face a 2024 — e analistas falam em “refúgio de ocasião” para investidores que apostam na indústria de defesa. Simultaneamente, listagens de Airbnb em colonatos ilegais aumentaram 152 % entre 2016 e 2025, segundo o colectivo Let’s Talk Palestine, convertendo a ocupação num negócio de curta-duração altamente rentável. Até quando o lazer substituirá o direito internacional?
Negação oficial e silêncio corporativo
Israel rejeita as acusações de genocídio e classifica o relatório como “demagógico e legalmente infundado”. A maioria das empresas visadas não comentou; algumas alegam cumprir a legislação dos países-sede. No entanto, juristas recordam que estatutos de Roma e Londres já permitiram processar executivos por auxílio a crimes de guerra.
Próximos passos: do tribunal à carteira
Albanese apela a parlamentos nacionais para bloquearem contratos públicos com entidades listadas, tal como sucedeu com o apartheid sul-africano. Movimentos de desinvestimento planeiam campanhas contra fundos de pensões que detêm acções em grupos de defesa. Haverá vontade política para cortar o circuito do lucro?