Resumo
- A primeira semana de Junho de 2025 ficará para a história como um momento de infâmia — e de omissão internacional.
- A dor, a fome, a ausência de abrigo e a brutalidade sistemática que se abate sobre 2,1 milhões de pessoas têm rostos, nomes, famílias — e, sobretudo, uma dignidade que persiste apesar da barbárie.
- E com a chegada do verão, o risco de surtos de cólera e outras doenças de origem hídrica dispara.
Quase nove meses após o início da ofensiva militar mais devastadora deste século, a Faixa de Gaza atinge um ponto de ruptura total. A primeira semana de Junho de 2025 ficará para a história como um momento de infâmia — e de omissão internacional.
Com mais de 54 600 mortos e 125 000 feridos desde 7 de Outubro de 2023, os números falam por si. Mas não contam tudo. A dor, a fome, a ausência de abrigo e a brutalidade sistemática que se abate sobre 2,1 milhões de pessoas têm rostos, nomes, famílias — e, sobretudo, uma dignidade que persiste apesar da barbárie.
O silêncio das tréguas, o ruído das bombas
Desde Março de 2025, quase 4 300 civis perderam a vida. Muitos estavam em abrigos ou em filas de ajuda humanitária quando foram atingidos. A ausência de cessar-fogo torna qualquer iniciativa de socorro uma corrida absurda entre a vida e a morte. Sem tréguas credíveis, verificadas por mecanismos independentes, a acção humanitária continuará a ser um teatro de sombras. Onde está a responsabilidade colectiva da comunidade internacional?
O corredor humanitário que nunca chega
Segundo as Nações Unidas, seriam necessários entre 500 e 600 camiões por dia para responder minimamente às necessidades da população sitiada. Entram menos de 120. E muitos desses nem chegam ao destino. São retidos, saqueados, desviados. As rotas militarizadas de distribuição já provocaram pelo menos 82 mortos só em filas de acesso à ajuda alimentar.
Não é só a escassez que mata: é a estrutura que transforma pão em ameaça e água em alvo.
Fome como arma de guerra
O panorama é desolador. Todo o território está classificado em Emergência alimentar (IPC 4), com 470 000 pessoas já em situação de Catástrofe (IPC 5). São palavras técnicas para descrever a morte por inanição. Em Maio, pelo menos 2 700 crianças com menos de cinco anos apresentavam sinais de desnutrição aguda. É o colapso de uma geração. A trágica ironia? Navios com alimentos e fórmulas infantis continuam a ser interceptados — como o Madleen, detido pela Marinha israelita em 9 de Junho. Que crime se comete, ao tentar alimentar um recém-nascido?
Hospitais evacuados sob ameaça
Restam menos de 40 % das infraestruturas de saúde, e todas funcionam apenas parcialmente. No Norte, o último hospital foi evacuado à força a 29 de Maio. A interrupção total das evacuações médicas externas desde 20 de Maio resultou em pelo menos 477 mortes evitáveis. Quando um sistema de saúde colapsa, colapsa também a esperança.
Soluções existem: hospitais de campanha modulares, telemedicina, corredores médicos seguros. Mas nada avança sem segurança e vontade política.
Sem abrigo, sem água, sem futuro
Mais de 90 % da população já foi forçada a deslocar-se ao menos uma vez. Só nos últimos três meses, 640 000 pessoas foram novamente expulsas. Não há tendas. Não há lonas. Não há água potável. E com a chegada do verão, o risco de surtos de cólera e outras doenças de origem hídrica dispara. Faltam microestações de tratamento, dessalinizadores móveis, abrigo digno. A resposta não pode ser ignorar.
A linha vermelha da dignidade
Desde Outubro de 2023, morreram 196 trabalhadores de agências da ONU. Assistimos a ataques a pescadores, destruição de plantações e bombardeamentos de escolas e centros de ajuda. As convenções de Genebra não são sugestões — são obrigações legais. A impunidade prolonga-se e, com ela, o desprezo pela vida civil.
Não bastam sanções simbólicas. A responsabilização de actos contra civis e trabalhadores humanitários tem de ser eficaz, rápida e exemplar. Sem ela, qualquer “regra” internacional é apenas papel molhado.
E agora, que fazemos nós, cidadãos do mundo?
Será possível olhar para Gaza e não ver um espelho da nossa humanidade em colapso? Será razoável discutir “geopolítica” enquanto morrem bebés por falta de leite? Que neutralidade é essa que se abstém da compaixão?
Este não é apenas um conflito. É uma emergência humanitária de proporções catastróficas, que exige uma mobilização ética de todos os sectores da sociedade civil — jornalistas, juristas, académicos, cidadãos comuns. A solidariedade não pode ser selectiva. E o silêncio, esse, é sempre cúmplice.