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Resumo

  • Quando um partido que flerta com a xenofobia, cita Salazar com reverência e tolera a presença de neonazis nas suas manifestações se torna a segunda maior força política nacional, a pergunta já não é se o extremismo chegou.
  • Como é que uma parte significativa do eleitorado português passou a ver como “normal” um partido cujos membros juvenis partilham símbolos supremacistas, cujos deputados acumulam processos por discurso de ódio e cujo líder agradece publicamente a um condenado por crimes de racismo.
  • E exige que deixemos de tratar a ascensão do Chega como fenómeno estatístico e passemos a tratá-la como o que é.


Quando um partido que flerta com a xenofobia, cita Salazar com reverência e tolera a presença de neonazis nas suas manifestações se torna a segunda maior força política nacional, a pergunta já não é se o extremismo chegou. A pergunta é: o que é que fizemos para o normalizar?


Durante décadas, Portugal foi citado como exceção europeia. Uma espécie de ilha moral onde a extrema-direita não conseguia fazer eco. A nossa história recente — marcada pela ditadura de Salazar — parecia funcionar como vacina. Mas a ascensão do Chega, de um deputado solitário em 2019 a 60 assentos em 2025, rompeu essa ilusão com estrondo.

O que aconteceu? Como é que uma parte significativa do eleitorado português passou a ver como “normal” um partido cujos membros juvenis partilham símbolos supremacistas, cujos deputados acumulam processos por discurso de ódio e cujo líder agradece publicamente a um condenado por crimes de racismo?


A estratégia da “janela de Overton”

O Chega não se impôs com tanques nem megafones. Entrou pela porta da frente, com gravata e promessas de “justiça social” e “fim dos privilégios”. Usou a estratégia da janela de Overton: deslocar, pouco a pouco, os limites do que é socialmente aceitável. Hoje, o que antes seria considerado radical — deportações sumárias, elogios ao colonialismo, insultos raciais em tribunas parlamentares — é discutido como “opinião política”.

“A tolerância a discursos radicais nasce da sua repetição impune,”
alerta o constitucionalista Jorge Capelo, que vê na complacência institucional um fator acelerador.


O silêncio das instituições

Há algo de inquietante na passividade das instituições. O parlamento permite intervenções ofensivas em nome da “liberdade de expressão”. Os media dão palco sob o pretexto do “pluralismo”. O sistema judicial, salvo raras exceções, arrasta os pés. E os partidos democráticos hesitam em traçar linhas vermelhas — com medo de parecer elitistas ou moralistas.

“Estamos a assistir a uma corrosão lenta da repulsa ética,”
diz a ativista Sílvia Mendonça, da ONG Frente pela Igualdade.


A cultura da indiferença

A ascensão do Chega é também sintoma de um mal maior: a banalização do discurso de exclusão. Não é apenas um partido. É um espelho social onde muitos se veem autorizados a desprezar, ridicularizar ou culpar o outro. A imigração, o feminismo, os pobres, os ciganos — tudo se tornou alvo sem consequências.

Quando as franjas ideológicas encontram legitimidade no centro do debate público, não estamos perante democracia saudável. Estamos perante uma normalização do inaceitável.


Não se trata de opinião — trata-se de limites

Há quem diga que tudo isto é “opinião política” e que o Chega deve ser combatido nas urnas. Mas quando a opinião põe em causa a dignidade de seres humanos, deixa de ser opinião e passa a ser agressão simbólica. A democracia não é uma arena neutra: tem valores fundadores — igualdade, liberdade, direitos humanos — que devem ser defendidos.


O que está em causa

Portugal não está apenas a viver um ciclo eleitoral peculiar. Está a viver um teste moral e civilizacional. A cada manifestação em que neonazis marcham ao lado de políticos, a cada post xenófobo não sancionado, a cada silêncio cúmplice, recuamos um metro no caminho democrático.

A pergunta não é se o Chega é legal. É se queremos viver num país onde o inaceitável se torna hábito. Onde a violência simbólica se disfarça de patriotismo. Onde o extremismo se acomoda no centro da casa.


Conclusão: ainda há tempo

Ainda é possível recuar. Mas isso exige coragem — política, institucional, cívica. E exige que deixemos de tratar a ascensão do Chega como fenómeno estatístico e passemos a tratá-la como o que é: um alerta vermelho democrático.

Porque, como escreveu Primo Levi, “Aconteceu. Pode voltar a acontecer.”
E, se acontecer com o nosso consentimento passivo, seremos cúmplices — não vítimas.


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