Chega redes sociais: a cartilha comum com Milei vai da “casta” à perseguição - Sociedade Civil
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Resumo

  • Trata-se de criar um circuito em que crítica mediática vira prova de autenticidade, moderação passa a sinónimo de cumplicidade e cada polémica alimenta a ideia de perseguição organizada.
  • O dossiê refere, por exemplo, que episódios de “cancelamento” e críticas mediáticas são convertidos em capital político e em prova de autenticidade, tanto no universo de Milei como no do Chega.
  • O que os une não é uma identidade doutrinária perfeita, mas um “estilo populista, estridente e teatral”, apoiado numa comunicação digital agressiva e numa identidade de oposição ao sistema.

O apoio do Chega a Javier Milei não se esgota na economia, na reforma laboral ou na fotografia de convenção. Há um manual comum, mais fundo e mais eficaz, que passa pelas redes sociais, pela vitimização e pela criação de um inimigo difuso. Milei fala da “casta”. Ventura prefere “sistema”, “bloco central”, “pensamento único”. A tradução muda, o mecanismo mantém-se: construir uma elite omnipresente, acusá-la de capturar o país e apresentar as plataformas digitais como a última trincheira onde ainda se pode falar sem licença.

É essa a cartilha comum. E ela interessa em Portugal porque mexe menos com ideologia do que com técnica política. Não se trata só de dizer coisas duras; trata-se de criar um circuito em que crítica mediática vira prova de autenticidade, moderação passa a sinónimo de cumplicidade e cada polémica alimenta a ideia de perseguição organizada.

As redes como palco sem árbitro

No dossiê que sustenta esta análise, a estratégia surge descrita com nitidez: bypass aos órgãos de comunicação social tradicionais, retratados como instrumentos da “casta” ou “servos de Bruxelas”, e exaltação das redes sociais como o último reduto da liberdade de expressão. A fórmula é poderosa porque simplifica o mapa. Já não há jornalismo, escrutínio ou mediação; há apenas “eles” e “nós”.

Para Milei, essa lógica foi central na ascensão. Para o Chega, serve de multiplicador em Portugal. O partido não usa as redes só para difundir mensagens. Usa-as para deslegitimar qualquer filtro intermédio. Quando a televisão contraria, confirma a suspeita. Quando um jornal investiga, reforça o papel de vítima. Quando uma plataforma limita conteúdo ou quando se discute regulação do discurso de ódio, a narrativa já está pronta: querem calar-nos.

Numa carruagem da Linha de Sintra, entre vídeos curtos e notificações nervosas, um jovem desliza o polegar no ecrã e conclui em voz baixa: “Ao menos estes dizem o que os outros escondem.” Não é preciso que tenha lido um programa. Basta-lhe sentir que entrou num canal direto, sem porteiros.

A política, aqui, já não pede confiança. Pede adesão.

Da “casta” ao “bloco central”

A palavra argentina não cola por inteiro em Portugal. “Casta” tem peso próprio em Buenos Aires; em Lisboa, o Chega tropicaliza o conceito. Fala do “sistema instalado”, do “bloco central”, das elites que se protegem, dos comentadores que vigiam, dos tribunais e dos media como peças da mesma engrenagem. O dossiê mostra bem esse eco direto: a retórica de Milei contra a “casta” encontra correspondência na narrativa de Ventura contra o “sistema” português.

Esta adaptação não é um acaso linguístico. É uma operação de engenharia emocional. O inimigo precisa de ser vago o bastante para caber em tudo: governos, oposição, jornalistas, universidades, reguladores, ativistas. Quanto mais difuso for, mais fácil se torna atribuir-lhe culpas e mais difícil é desmontá-lo.

Daquela acusação, raramente nasce prova. Nasce ambiente.

A perseguição como capital político

Poderiam argumentar que todos os partidos se queixam de tratamento injusto e que as redes sociais são hoje ferramentas comuns a qualquer força política. É verdade, em parte. Nenhuma candidatura moderna vive fora delas. Mas aqui há um passo suplementar: a queixa deixa de ser episódica e torna-se método. O dossiê refere, por exemplo, que episódios de “cancelamento” e críticas mediáticas são convertidos em capital político e em prova de autenticidade, tanto no universo de Milei como no do Chega.

Isso explica porque razão Milei se torna tão útil para o Chega mesmo quando as diferenças programáticas são evidentes. O que os une não é uma identidade doutrinária perfeita, mas um “estilo populista, estridente e teatral”, apoiado numa comunicação digital agressiva e numa identidade de oposição ao sistema.

Há, ainda assim, uma zona cinzenta que convém reconhecer. Parte do desgaste com os media tradicionais não nasceu do nada; nasceu também de erros reais, bolhas sociais, linguagem autocentrada e perda de confiança. Ignorar isso seria preguiça. O problema começa quando a crítica ao jornalismo se converte numa licença para corroer qualquer espaço comum de verificação.

A máquina transatlântica

Esta cartilha não circula sozinha. O material analisado descreve uma rede transnacional — CPAC, Vox, Foro de Madrid, Disenso — que permite a circulação constante de quadros, táticas e conteúdos digitais. Milei, Ventura, Trump, Abascal: mais do que aliados ocasionais, funcionam como nós de uma infraestrutura que sabe que ideias radicais viajam pelas plataformas mais depressa do que por programas eleitorais.

Em Portugal, o efeito é claro. O Chega usa Milei como exemplo de resistência, como prova de que se pode vencer contra os media e contra as previsões, como “estímulo esperançoso” para a sua própria militância. Não precisa de importar tudo. Basta-lhe importar o método.

E esse método é simples, embora não seja inocente: criar inimigos totais, encurtar a distância entre líder e seguidor, transformar a suspeita em comunidade.

Quando isso resulta, a política deixa de disputar factos. Passa a disputar fidelidades.

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