Sentimento de insegurança: porque cresce quando o crime não dispara - Sociedade Civil
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Resumo

  • O que os números dizem — e o que não dizemO Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 confirma dois pontos que costumam ser omitidos nas discussões mais inflamadas.
  • A criminalidade geral registada subiu 3,1%, com o próprio Governo a associar parte desse aumento a maior fiscalização e proatividade policial em tipologias como crimes rodoviários, armas proibidas e desobediência.
  • o Inquérito do INE sobre segurança no espaço público e privado (divulgado pela CIG) aponta para dois quintos da população a relatar pelo menos uma situação de violência ao longo da vida e para uma perceção social forte da violência contra as mulheres.

Na audição de 21 de abril, em São Bento, a discussão sobre segurança saiu depressa do território das medidas e entrou no terreno mais escorregadio: o sentimento de insegurança. Isabel Moreira contrapôs números a perceções; Luís Neves respondeu com um compromisso identitário — “não sou como um camaleão” — e prometeu não alinhar em atalhos que confundam imigração com criminalidade. O palco estava montado: dados contra medo, governação contra deriva populista.

O problema é que o sentimento de insegurança raramente nasce de uma tabela. Nasce de relatos repetidos, de vídeos recortados, de comentários que parecem testemunhos e são propaganda. E, quando se instala, condiciona escolhas políticas, patrulhamento, prioridades e até leis.

O que os números dizem — e o que não dizem
O Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 confirma dois pontos que costumam ser omitidos nas discussões mais inflamadas: a criminalidade violenta e grave participada desceu 1,6% e representa cerca de 4% do total; a criminalidade geral registada subiu 3,1%, com o próprio Governo a associar parte desse aumento a maior fiscalização e proatividade policial em tipologias como crimes rodoviários, armas proibidas e desobediência.

Há ainda um dado que raramente cabe num “soundbite” de 15 segundos: a série longa conta outra história. Um documento técnico com base em INE/DGPJ/RASI mostra que a criminalidade violenta e grave participada teve valores mais elevados em anos anteriores (por exemplo, 25.000 em 2011) e aparece bem mais baixa em 2023 (15.023). Isto não resolve tudo — mas impede o truque de fingir que estamos num precipício permanente.

Daquela certeza, fica a inversão: não é o crime que manda na perceção; é a perceção que passa a mandar no debate.

Como se fabrica o medo em tempo real
Poderiam argumentar que “as pessoas não inventam o que sentem” — e têm razão. O sentimento de insegurança é real na vida de quem evita uma rua, muda de paragem, apressa o passo ao fim da tarde. Negá-lo seria arrogância. A concessão honesta é esta: nem toda a insegurança se mede em participações, e há crimes que ficam por denunciar.

Mas uma coisa é reconhecer o medo; outra é transformá-lo em programa político. A engrenagem tem peças conhecidas: crime contado como entretenimento, redes sociais a premiar indignação, e uma retórica que cola “estrangeiro” a “ameaça” sem precisar de prova — basta repetição. A consequência chega depressa: o sentimento de insegurança torna-se argumento para políticas de exceção.

Aqui, os números não servem para “acalmar” ninguém. Servem para separar fenómenos. Porque uma subida em certos registos pode refletir mais fiscalização, mais denúncia, mais confiança em reportar — não, necessariamente, mais violência nas ruas.

Violência que existe, mas não encaixa na narrativa fácil
O mesmo RASI que indica descida na criminalidade violenta e grave assinala indicadores que exigem atenção, incluindo violações no valor mais elevado da última década e violência doméstica ainda em patamares altos (29.644 participações, apesar de uma descida de 1,9%, com 69% de vítimas mulheres).

E há outro retrato que raramente entra no debate “imigração e crime”, mas devia: o Inquérito do INE sobre segurança no espaço público e privado (divulgado pela CIG) aponta para dois quintos da população a relatar pelo menos uma situação de violência ao longo da vida e para uma perceção social forte da violência contra as mulheres. É um choque silencioso, sem sirenes mediáticas diárias, mas com impacto profundo.

Uma frase curta, sem ornamentos: o medo é fácil; a proteção dá trabalho.
Se Luís Neves quer que a promessa de “não mudar de pele” sobreviva ao ciclo noticioso, terá de fazer o mais difícil: governar com dados sem desprezar pessoas, e combater o sentimento de insegurança sem o explorar. Em política, essa diferença vê-se sempre no fim — nas medidas, não nas frases.

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