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Resumo

  • Ao confundir de forma deliberada o judaísmo, uma fé plural e global, com o sionismo, uma ideologia nacionalista, cria-se uma falsa equivalência entre criticar Israel e odiar judeus.
  • A Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo e o Documento Nexus lembram que a crítica a Israel, mesmo dura e sistemática, não é antissemitismo.
  • É preciso ouvir as vozes judaicas que recusam ser usadas como álibi para a opressão e restaurar a discussão política sobre o direito internacional e os direitos humanos.

Ao longo dos últimos anos, Israel tem recorrido a uma estratégia discursiva sofisticada para se proteger de críticas às suas acções no território palestiniano. Quando actua militarmente ou aprova leis discriminatórias, apela aos argumentos de razão de Estado; quando é responsabilizado por crimes de guerra ou apartheid, apresenta-se como representante do judaísmo mundial e invoca a identidade religiosa como escudo.

Esta duplicidade – atacar como Estado e defender‑se como religião – impede um debate honesto sobre direitos humanos e ocupação. Ao confundir de forma deliberada o judaísmo, uma fé plural e global, com o sionismo, uma ideologia nacionalista, cria-se uma falsa equivalência entre criticar Israel e odiar judeus. A Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo e o Documento Nexus lembram que a crítica a Israel, mesmo dura e sistemática, não é antissemitismo.

O resultado desta retórica é a censura de vozes dissidentes, incluindo de judeus progressistas que denunciam a opressão dos palestinianos. Em vários países europeus, protestos pró‑Palestina são reprimidos com o argumento de incitamento ao ódio, enquanto figuras como Judith Butler ou Ilan Pappé são impedidas de falar. Ao mesmo tempo, dirigentes israelitas cultivam alianças com a extrema‑direita, demonstrando que a preocupação com o antissemitismo é selectiva.

Desmontar este escudo simbólico exige separar claramente religião e Estado. O judaísmo não é propriedade de nenhum governo e não pode ser instrumentalizado para justificar colonatos ou ataques a civis. É preciso ouvir as vozes judaicas que recusam ser usadas como álibi para a opressão e restaurar a discussão política sobre o direito internacional e os direitos humanos.

A crítica a Israel deve continuar a ser feita com coragem e rigor, sem ceder à chantagem moral. Defender o povo palestiniano não é antissemitismo. Combater o verdadeiro antissemitismo passa também por recusar a sua instrumentalização política.

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