Resumo
- a guerra colonial foi também um instrumento de dominação, sustentado por um regime autoritário que negava direitos a povos inteiros e mantinha a censura e a polícia política na metópole.
- Caiu porque o mundo mudava, porque os povos colonizados exigiam autodeterminação e porque Portugal insistiu, tarde e a más horas, num caminho que multiplicava mortos e trauma — lá e cá.
- E um esforço pedagógico sério sobre a guerra e o colonialismo, para que a memória não seja sequestrada por quem vende certezas fáceis.
Há uma linha que a política portuguesa cruza vezes demais: invocar antigos combatentes como escudo moral para tudo — da guerra colonial à imigração, da descolonização ao “orgulho nacional” — sem lhes devolver o básico. Cuidados, verdade, respeito. O resto é ruído.
Quando André Ventura leva o tema para o centro do palco, fá-lo como alavanca identitária: os antigos combatentes aparecem como prova de que o país “foi traído” e de que a democracia nasceu contaminada. É uma narrativa com potência emocional, sim. E é precisamente por isso que é perigosa. Porque transforma sofrimento real em munição para reabilitar a lógica autoritária: a ideia de que “só uma mão dura” põe ordem na história.
Daquela promessa de “defesa dos nossos”, muitas vezes sobra apenas o eco.
A dívida é concreta, não é retórica
O debate raramente começa onde devia: na vida material de quem voltou. Há antigos combatentes com reformas baixas, com perturbação de stress pós-traumático, com dependências, com isolamento. A dor não tem cor partidária. E não precisa de palanque para existir.
Em Lisboa, a poucos minutos da Avenida da República, há instituições que conhecem este peso de perto: a Liga dos Combatentes e o Hospital das Forças Armadas recebem histórias que não cabem em slogans. Há nomes, datas, medicação, consultas adiadas, famílias exaustas. O país democrático mede-se aqui, na forma como trata quem carregou a guerra no corpo.
A concessão honesta: também houve abandono no regresso, desorientação administrativa, injustiças e humilhações. Ser anti-fascista não é pintar o pós-25 de Abril como postal. É recusar que esses erros sejam usados para branquear o Estado Novo ou para vender uma nostalgia imperial.
O truque da extrema-direita: misturar tudo numa só ferida
O discurso populista funciona por fusão: antigos combatentes, retornados, guerra colonial, descolonização, criminalidade, imigração. Um só enredo, um só culpado, uma só conclusão — “traíram-nos”. A nuance é tratada como fraqueza. O contexto, como “desculpa”.
Poderiam argumentar que esta crítica “desrespeita” quem combateu. Não. Pelo contrário: respeitar é não os reduzir a figurantes de um teatro político. Respeitar é aceitar que muitos lutaram por dever, por falta de escolha, por um país que lhes dizia que o império era destino. E, ao mesmo tempo, reconhecer o essencial, sem rodeios: a guerra colonial foi também um instrumento de dominação, sustentado por um regime autoritário que negava direitos a povos inteiros e mantinha a censura e a polícia política na metópole.
E aqui a frase que custa, mas é verdadeira: não há orgulho limpo num sistema que precisava de desigualdade para existir.
Anticolonialismo não é insulto; é responsabilização
Uma perspectiva anti-colonialista não apaga o sofrimento dos antigos combatentes. Coloca-o no sítio certo. O império não caiu por capricho de meia dúzia de “revolucionários”; caiu porque o mundo mudava, porque os povos colonizados exigiam autodeterminação e porque Portugal insistiu, tarde e a más horas, num caminho que multiplicava mortos e trauma — lá e cá.
O que a extrema-direita tenta fazer é outra coisa: usar o trauma como prova de que a democracia falhou desde o berço. Mas se o argumento é “houve violência depois”, então o passo seguinte é o mais grave: relativizar a ditadura como se fosse apenas uma versão anterior do mesmo caos. Daí ao autoritarismo vai um salto curto.
Uma frase de impacto, para não haver enganos: quem usa vítimas como arma, não está a defendê-las — está a explorá-las.
O que seria respeito, na prática
Se a política quer falar de antigos combatentes, comece por quatro medidas que não cabem num clipe mas mudam vidas: acesso real a cuidados de saúde e saúde mental; combate à burocracia que empurra pessoas para desistirem; reconhecimento público sem folclore; e um esforço pedagógico sério sobre a guerra e o colonialismo, para que a memória não seja sequestrada por quem vende certezas fáceis.
E, sobretudo, uma regra: nunca usar os antigos combatentes para reescrever a história a favor do autoritarismo.
Porque a democracia não é uma medalha na lapela. É o tratamento que damos aos vivos — e a verdade que não escondemos sobre os mortos.