Resumo
- E muitas foram já reduzidas a comer areia, folhas secas e pedaços de papel para calar a dor.
- perda de contacto com a realidade, apatia e regressão cognitiva”, explicou a psicóloga Dr.
- Os relatórios apresentados sugerem que a fome infantil está a ser usada como arma de guerra, calibrada para pressionar deslocamentos e enfraquecer a resistência social.
Numa tenda improvisada em Rafah, uma menina de seis anos desenha um prato de arroz na areia. Depois, pega num punhado de terra, leva-o à boca e mastiga. “É para enganar o estômago”, explicou a mãe, que assistiu em silêncio ao testemunho transmitido no Gaza Tribunal, em Londres.
Esta cena não é isolada. É o retrato de uma infância destruída pela fome extrema. De acordo com a UNICEF, mais de 90% das crianças palestinianas em Gaza vivem em desnutrição grave. E muitas foram já reduzidas a comer areia, folhas secas e pedaços de papel para calar a dor.
A infância sequestrada pela fome
A activista palestiniana Hala Shabbah, cofundadora do Samir Project, descreveu no tribunal os relatos recolhidos em abrigos e campos de deslocados: “As crianças desenham comida na areia. Fingem cozinhar pedras. Fazem sopas de plástico e folhas. É a pedagogia do desespero.”
Segundo psicólogos infantis, este comportamento não é apenas sinal de fome. É sintoma de trauma psicológico profundo. “A criança aprende a transformar a imaginação em sobrevivência. Mas o preço é alto: perda de contacto com a realidade, apatia e regressão cognitiva”, explicou a psicóloga Dr. Rania El-Halabi.
Comer para não morrer… ou para não sonhar
Num testemunho recolhido pela UNICEF, um menino de quatro anos disse à mãe: “Prefiro dormir com fome, assim não sonho com comida.”
Este tipo de frases, apresentadas no Gaza Tribunal, evidencia uma catástrofe de saúde mental infantil. Segundo a OMS, mais de metade das crianças de Gaza apresentam sinais de mutismo selectivo, ataques de pânico ou dissociação emocional.
“Já não choram. Já não pedem. Apenas olham para o vazio”, relatou El-Halabi.
O ciclo da humilhação
O bloqueio não se limita a alimentos. Impede também brinquedos, livros e materiais escolares. “As crianças cresceram em tendas sem pão, mas também sem lápis. O cerco não mata só o corpo. Mata a imaginação”, denunciou Shabbah.
Sem escolas, sem brinquedos, sem nutrição, a infância palestiniana vive um colapso total. O trauma combina-se com fome crónica, criando uma geração que pode carregar cicatrizes físicas e psicológicas durante décadas.
Um crime contra a infância
Juristas no Gaza Tribunal foram claros: o uso da fome contra crianças viola frontalmente a Convenção dos Direitos da Criança. “É um crime internacional, não apenas moral. E deve ser julgado como tal”, afirmou o advogado Michael Mansfield KC.
Os relatórios apresentados sugerem que a fome infantil está a ser usada como arma de guerra, calibrada para pressionar deslocamentos e enfraquecer a resistência social.
Propostas do tribunal: salvar a infância já
Entre as medidas recomendadas estão:
- Criação de corredores humanitários exclusivos para crianças e lactentes;
- Distribuição massiva de suplementos alimentares sob supervisão internacional;
- Abertura de programas de evacuação médica infantil em países europeus;
- Protecção psicológica de emergência, com envio de terapeutas especializados.
Crianças a comer areia
A imagem é brutal e simbólica: crianças palestinianas reduzem-se a comer areia. Não porque não saibam distinguir comida de terra, mas porque a fome transformou a imaginação em último refúgio.É uma realidade que envergonha o século XXI. E que coloca uma pergunta impossível de ignorar: quantas infâncias mais terão de ser devoradas pela areia antes que o mundo actue?