Partilha

Resumo

  • ” A voz firme e tranquila é de Margarita Martínez, dirigente da FUCVAM, a poderosa federação de cooperativas de habitação do Uruguai.
  • Os moradores desenharam colectivamente o projecto, decidiram as regras de convivência e partilham uma lavandaria, uma horta urbana e um espaço de trabalho comum.
  • Com o apoio de uma ONG de habitação e de um fundo de impacto social, o grupo já iniciou negociações com a Câmara Municipal de Lisboa para a cedência de um lote em Marvila.

Face à falência dos modelos tradicionais de habitação, um velho conceito volta a ganhar força: cooperativas habitacionais baseadas no direito de uso e na propriedade coletiva. Do Uruguai à Suíça, o que podemos aprender — e replicar — em Portugal?

“Durante décadas disseram-nos que era impossível. Que os pobres não sabiam construir. Que a casa era para quem podia pagar. Mas nós construímos bairros inteiros com as nossas mãos, e com democracia.” A voz firme e tranquila é de Margarita Martínez, dirigente da FUCVAM, a poderosa federação de cooperativas de habitação do Uruguai. Em 40 anos, o modelo cresceu de forma impressionante: mais de 600 cooperativas, 30 mil casas construídas, bairros inteiros geridos por quem lá vive — sem senhorios nem especulação.

O modelo é simples e revolucionário: os cooperantes não são proprietários individuais, mas sim usufrutuários de uma casa pertencente à cooperativa. Pagam uma mensalidade acessível, participam na gestão colectiva do edifício ou do bairro e garantem que as casas não podem ser vendidas no mercado.

“O que se constrói aqui não são apenas paredes, são comunidades. O direito à habitação é também o direito à participação e ao enraizamento”, explica Martínez, numa visita ao bairro COVIAM, nos arredores de Montevideu.

Europa em alerta: o retorno das cooperativas

O fenómeno não é exclusivo do sul global. Nos últimos 20 anos, cidades como Zurique, Viena ou Barcelona assistiram ao renascimento do modelo cooperativo, adaptado a contextos urbanos, climáticos e legais muito distintos. O fio condutor é sempre o mesmo: tirar a habitação da lógica de mercado.

Em Zurique, o bairro Mehr als Wohnen é um dos exemplos mais citados. Resultado de uma união entre 30 cooperativas, acolhe mais de 1000 residentes, com tipologias flexíveis, serviços partilhados e uma forte pegada ambiental. A casa como bem comum, não como activo financeiro.

Em Barcelona, a cooperativa La Borda ergueu um edifício de seis andares num terreno municipal cedido em regime de direito de superfície. Os moradores desenharam colectivamente o projecto, decidiram as regras de convivência e partilham uma lavandaria, uma horta urbana e um espaço de trabalho comum.

Segundo dados da Housing Europe, as cooperativas representam já 10 a 15% do parque habitacional de alguns países nórdicos e centro-europeus. Em Portugal, não chegam a 1%.

Portugal: a exceção que pode deixar de o ser

Por cá, o modelo é ainda marginal e mal compreendido. Historicamente associado a experiências autogestionárias do pós-25 de Abril, o cooperativismo habitacional foi sendo absorvido por promotores privados ou abandonado pela política pública.

“Faltou enquadramento legal, apoio técnico e sobretudo vontade política”, critica Duarte Fernandes, investigador do CES (Centro de Estudos Sociais) da Universidade de Coimbra. “Mas isso está a mudar. Há novos grupos a emergir, ligados à economia solidária, ao urbanismo participativo e à crise da habitação.”

O relatório “Proposta de Política de Habitação – Eixos Estratégicos e Recomendações” propõe um novo quadro legal e fiscal para as cooperativas habitacionais, incluindo:

  • acesso a terrenos públicos em direito de superfície;
  • linhas de crédito bonificadas;
  • isenção de IMT e IMI para cooperativas sem fins lucrativos;
  • apoio técnico à constituição e gestão democrática dos empreendimentos.

Casos piloto já em marcha

O Cooperativa Bairro C é um desses projectos emergentes. Nascido da união de 14 famílias em Lisboa, o grupo quer construir um edifício cooperativo com habitação acessível, propriedade coletiva e decisões por assembleia.

“É um processo lento, com obstáculos jurídicos e financeiros, mas estamos determinados”, conta Carla Nunes, uma das fundadoras. “Queremos provar que outra forma de viver — e de construir cidade — é possível.”

Com o apoio de uma ONG de habitação e de um fundo de impacto social, o grupo já iniciou negociações com a Câmara Municipal de Lisboa para a cedência de um lote em Marvila. O objectivo é iniciar a construção em 2026.

“Não queremos caridade, queremos autonomia com solidariedade”, resume Carla.

O que está (ainda) por fazer?

Apesar dos sinais positivos, os desafios são consideráveis: o crédito cooperativo é inexistente, o direito de superfície é pouco usado e os instrumentos de planeamento ignoram o modelo.

Para o arquitecto e urbanista Gonçalo Seixas, a resposta exige “coragem institucional”. “É preciso integrar as cooperativas no Plano Nacional de Habitação, abrir concursos públicos para terrenos e garantir financiamento estável. Sem isso, continuaremos a falar de exceções e não de alternativa.”

A reabilitação urbana também poderia ser feita sob gestão cooperativa. Edifícios devolutos do Estado ou das autarquias poderiam ser entregues a grupos organizados, com contratos de longo prazo, regras de não-especulação e apoio à gestão.

A Comissão Europeia, por seu lado, já anunciou um apoio de 100 milhões de euros ao cooperativismo habitacional no âmbito da Nova Bauhaus Europeia. Portugal, até agora, não apresentou qualquer candidatura.

A casa como bem comum, não como negócio

No momento em que o acesso à habitação se torna uma das maiores crises sociais em Portugal, as cooperativas representam mais do que uma resposta arquitectónica — são uma proposta de reorganização económica e cívica da cidade.

“Quando a casa é tratada como um activo, o inquilino é um cliente. Quando é tratada como um bem comum, o morador é um cidadão”, diz Margarita Martínez. “E isso muda tudo.”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Guerra no Irão sobe combustíveis em Portugal 25 cêntimos

Partilha
O conflito no Médio Oriente disparou o preço do petróleo para mais de 100 dólares por barril. Em Portugal, o impacto já chegou às bombas — e o governo estuda medidas de emergência.

Praias em Risco: Como o Turismo de Luxo Está a Fragilizar o Ecossistema Costeiro

Partilha
O crescimento acelerado de empreendimentos de luxo entre Tróia e Melides está a alterar dunas, secar lagoas e acelerar a erosão da costa. Especialistas alertam: estamos

Os Sobreviventes Esquecidos: Quem São as Vítimas da PIDE em Moçambique?

Partilha
O corpo tremia, mesmo meio século depois. À porta da sua casa nos arredores de Maputo, Adelino Tivane, hoje com 84 anos, segura uma fotografia amarrotada de juventude. “Foi antes de me levarem. Só porque me viram numa reunião da cooperativa”, murmura. Durante três meses em 1973, esteve preso sem julgamento numa cela da PIDE em Nampula. Saiu com ossos partidos, dois dentes a menos e o silêncio como única herança. Nunca teve indemnização, pedido de desculpa ou reconhecimento.

Justiça Adiada – O Tribunal Penal Internacional e a Cumplicidade Silenciosa em Gaza

Partilha
Diante da catástrofe humanitária em Gaza, uma pergunta ecoa por todo o mundo: onde está o Tribunal Penal Internacional (TPI)? Enquanto bairros inteiros são arrasados, civis massacrados e a infraestrutura de uma sociedade é deliberadamente reduzida a escombros, a instância suprema da justiça internacional mantém um silêncio ensurdecedor. Ou, pior ainda, uma lentidão institucional que roça a cumplicidade.