Resumo
- A flora nativa, como o estorno-marítimo ou a sabina-das-praias, está a ser substituída por.
- O relatório aponta ainda o problema da impermeabilização do solo e da redução da infiltração.
- natural de águas pluviais, o que contribui para o assoreamento das lagoas e aumenta o risco.
O crescimento acelerado de empreendimentos de luxo entre Tróia e Melides está a
alterar dunas, secar lagoas e acelerar a erosão da costa. Especialistas alertam: estamos
a comprometer o equilíbrio ambiental do litoral alentejano.
As águas calmas da lagoa da Comporta escondem um problema crescente. As zonas húmidas
estão mais rasas, os trilhos de fauna foram cortados por estradas privadas, e a vegetação
típica das dunas foi substituída por relvados exóticos. Este não é um caso isolado: ao longo de
quase 60 quilómetros de costa, entre Tróia e Melides, o turismo de luxo está a deixar uma
pegada pesada e, em muitos casos, irreversível.
Um litoral sob pressão
Nos últimos 15 anos, a região tornou-se um dos destinos mais apetecíveis para o investimento
imobiliário de alta gama. Projectos como o Troiaresort, os loteamentos da Comporta e os
futuros complexos de Melides redefiniram o uso do solo: pinhais deram lugar a campos de
golfe, caminhos rurais a acessos exclusivos, e áreas classificadas a extensões urbanas
dispersas.
Para muitos, esta transformação representa “progresso”
. Para os ecólogos e ambientalistas, é
um caso clássico de desenvolvimento insustentável.
“A faixa costeira entre Tróia e Melides é extremamente vulnerável à erosão e às
alterações climáticas. Qualquer interferência desregulada pode acelerar processos
já em curso”
, alerta o biólogo João Rego, da Universidade de Aveiro.
Segundo dados do relatório agora divulgado, as áreas mais intervencionadas coincidem comzonas de recuo do litoral até 0,5 metros por ano – um valor preocupante num contexto de
subida do nível do mar.
Dunas artificializadas e habitats interrompidos
As dunas, principais barreiras naturais contra a erosão, estão a ser destruídas ou
profundamente alteradas. O uso de maquinaria pesada para preparar terrenos, a construção de
caminhos impermeabilizados e o uso de espécies vegetais não autóctones enfraquecem a sua
função ecológica.
A flora nativa, como o estorno-marítimo ou a sabina-das-praias, está a ser substituída por
espécies ornamentais importadas. A fauna local, incluindo aves migratórias que nidificam nos
caniçais da Lagoa Formosa, vê os seus habitats interrompidos por plataformas de madeira,
muros e iluminação artificial.
“Estamos a transformar um ecossistema resiliente numa maqueta frágil de
paisagem costeira”
, afirma Rita Valente, especialista em ecologia costeira.
Impactos que o marketing esconde
Os promotores imobiliários falam em integração na natureza, sustentabilidade e respeito pelo
território. Mas as imagens de satélite contradizem a narrativa: zonas classificadas como
sensíveis no POOC (Plano de Ordenamento da Orla Costeira) foram artificializadas; habitats
prioritários da Rede Natura 2000 encontram-se ladeados por empreendimentos murados.
Além do impacto direto da construção, há pressões indiretas: aumento do tráfego automóvel,
uso intensivo de água doce para regas, produção de resíduos e perturbação de ciclos naturais.
O relatório aponta ainda o problema da impermeabilização do solo e da redução da infiltração
natural de águas pluviais, o que contribui para o assoreamento das lagoas e aumenta o risco
de cheias nas zonas húmidas interiores.
Quando a erosão encontra o luxo
A erosão costeira é um fenómeno natural, mas está a ser potenciado pelas alterações no uso
do solo. Zonas onde antes existiam dunas ou vegetação estabilizadora são agora planas,
niveladas para parques de estacionamento, ou transformadas em plataformas urbanas. Os
sedimentos que alimentavam as praias deixam de chegar ao mar.
“O litoral funciona como um sistema vivo. Quando se quebra a sua lógica, perde-se
a sua capacidade de regeneração”
, explica o geógrafo Manuel Faria.
A somar-se à erosão natural, a subida do nível médio do mar prevista para as próximas
décadas poderá tornar obsoletos vários empreendimentos à beira-mar. Sem uma estratégia
integrada de ordenamento e adaptação, os impactos poderão ser não só ambientais, mas
também económicos.
Há alternativas?Os especialistas são unânimes: é possível desenvolver turismo de qualidade sem destruir o
equilíbrio ecológico. Mas isso exige:
●
Avaliações de impacto ambiental rigorosas e independentes;
●
Limitação clara de construção em zonas sensíveis;
●
Reforço dos mecanismos de compensação ecológica;
●
Monitorização contínua por universidades e centros de investigação;
●
Participação pública nas decisões sobre o território.
Alguns municípios já ponderam planos mais restritivos. Mas para muitos projetos em curso, as
decisões chegam tarde.