Resumo
- Enquanto isso, a ajuda é deliberadamente cortada à Cidade de Gaza e redireccionada para o sul, criando um mecanismo de expulsão interna.
- Organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional acrescentam peso à denúncia, apontando o uso da fome como arma de guerra, uma prática proibida pelo direito internacional humanitário.
- O plano E1, que visa expandir os colonatos entre Jerusalém e o vale do Jordão, ameaça cortar a Cisjordânia….
No meio dos escombros de uma cidade sitiada, o choro de uma criança faminta já não comove. A fome, antes inimiga invisível, tornou-se visível em Gaza. Ossos proeminentes, olhos fundos, peles secas e corpos exaustos tornaram-se a nova paisagem da Faixa. Não por falta de recursos globais. Mas por um cerco prolongado que transformou o pão em privilégio e a água potável em relíquia. Gaza vive a Fase 5 da classificação IPC — o mais alto grau de insegurança alimentar, onde a fome mata.
A ONU não tem dúvidas: “Estamos perante uma fome provocada pelo homem”. As palavras do Secretário-Geral, António Guterres, são claras: trata-se de “uma acusação moral ao mundo inteiro”. É um alerta que não pode ser ignorado. Mas parece sê-lo.
A Fome Tem Dono: Decisões Políticas Como Armas
A entrada de ajuda humanitária em Gaza é intermitente, arbitrária e controlada ao milímetro. Em certos dias, apenas camiões vazios atravessam Rafah. Noutras ocasiões, os comboios que entram são alvos de bombardeamentos ou de ataques nos pontos de distribuição. Há registos confirmados de palestinianos mortos ao tentar recolher farinha ou comida.
Segundo o Programa Alimentar Mundial, mais de 50 mil crianças sofrem de desnutrição aguda. Muitas correm risco de vida imediato. As equipas médicas relatam episódios dramáticos: bebés alimentados com água de arroz ou farinha dissolvida em água contaminada. Hospitais sem leite, sem vitaminas, sem energia. Em muitos casos, sem esperança.
O colapso dos sistemas de abastecimento — água, saneamento, agricultura e comércio local — não é colateral. É estrutural e, cada vez mais, intencional. Quase todas as zonas agrícolas foram destruídas ou tornadas inacessíveis. Os poucos alimentos disponíveis chegam a preços astronómicos — inacessíveis à maioria.
Que nome se dá a isto, senão uma política de privação sistemática?
Israel Redesenha Gaza: Do Cerco à Ocupação Total
Com a aprovação dos planos para o controlo total da Faixa, Israel não esconde os objectivos. O fim das “pausas táticas” marca uma viragem. A Cidade de Gaza, agora oficialmente considerada “zona de combate perigosa”, é alvo de bombardeamentos intensificados, inclusive nas chamadas “zonas humanitárias”.
Al-Mawasi, tida como zona segura, foi atingida várias vezes, provocando dezenas de mortos e a destruição de tendas de deslocados. Organizações humanitárias denunciam o uso de falsas promessas de segurança para concentrar civis em áreas vulneráveis.
Netanyahu justifica as operações como parte da luta contra o Hamas. Contudo, críticos israelitas e internacionais sugerem que a intensificação da guerra serve também propósitos políticos internos: desviar atenções de investigações judiciais e consolidar o apoio de fações mais radicais.
Enquanto isso, a ajuda é deliberadamente cortada à Cidade de Gaza e redireccionada para o sul, criando um mecanismo de expulsão interna. A deslocação forçada transforma-se em rotina. A população civil, sem alternativas, é empurrada para o desespero.
A Guerra no Tribunal: Genocídio ou Defesa?
O caso apresentado pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) avança. A acusação é grave: genocídio. A base? Práticas sistemáticas de extermínio indirecto e directo de civis palestinianos, através de bombardeamentos, bloqueios e privação de bens essenciais.
Mais de 500 funcionários da ONU assinaram uma carta apelando à nomeação clara daquilo que está em curso: genocídio. Organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional acrescentam peso à denúncia, apontando o uso da fome como arma de guerra, uma prática proibida pelo direito internacional humanitário.
Israel nega todas as acusações e alega autodefesa. Mas como se defende um Estado, destruindo hospitais, escolas, campos de refugiados e silenciando toda uma população?
A jurisprudência internacional está a ser testada. E com ela, a credibilidade do sistema multilateral.
Cisjordânia: A Outra Ferida a Sangrar
Enquanto os olhos do mundo se fixam em Gaza, a Cisjordânia afunda-se num processo silencioso de desintegração. Os dados são alarmantes: mais de 32 mil palestinianos deslocados, demolições sistemáticas de casas, ampliação de colonatos ilegais e violência diária de colonos armados.
O plano E1, que visa expandir os colonatos entre Jerusalém e o vale do Jordão, ameaça cortar a Cisjordânia em dois, inviabilizando qualquer hipótese de Estado palestiniano viável e contíguo. A solução de dois Estados, tantas vezes proclamada como única saída, perde consistência a cada novo edifício construído ilegalmente.
A ONU já falou em “limpeza étnica por etapas”. Outros falam de “apartheid institucionalizado”. A terminologia é forte. Mas a realidade no terreno parece justificá-la.
Um Apelo Que Ecoa no Vazio
O que resta à população palestiniana? Um apelo à consciência global. Um apelo que parece ressoar apenas nas margens — entre ativistas, algumas vozes independentes e tribunais internacionais sobrecarregados.
Gaza grita. A Cisjordânia sangra. E o mundo, entre comunicados e condenações, hesita. Mas a história não hesita. E a pergunta persiste:
Quando tudo isto acabar — e vai acabar — quem terá a coragem de dizer que não sabia?