Resumo
- Num momento em que milhares de vidas palestinianas são destruídas perante os olhos do mundo, cresce o debate sobre a responsabilidade da comunicação social na produção, omissão ou manipulação da informação.
- Reportagens que ocultam o número de mortos civis, que não identificam as vítimas, que omitem a destruição de hospitais e escolas, contribuem para a desumanização do povo palestiniano.
- A regra de “dar voz aos dois lados” aplica-se de forma assimétrica — como se o ocupante e o ocupado partilhassem as mesmas condições de poder, acesso e legitimidade.
Num momento em que milhares de vidas palestinianas são destruídas perante os olhos do mundo, cresce o debate sobre a responsabilidade da comunicação social na produção, omissão ou manipulação da informação. Jornalistas, editores e órgãos de comunicação enfrentam uma escolha ética incontornável: relatar com verdade ou perpetuar a impunidade.
Ao longo do último ano, várias redacções foram criticadas por minimizar crimes de guerra, repetir versões oficiais sem verificação e silenciar vozes palestinianas. Em paralelo, profissionais da informação que denunciam a parcialidade mediática enfrentam represálias, desde censura editorial a despedimentos. Perante este cenário, o jornalismo deixa de ser apenas um observador: torna-se parte activa da história — para o bem ou para o mal.
A linguagem que mata (ou resgata)
O modo como se nomeiam os factos determina a forma como o público os compreende. Expressões como “conflito”, “tensão”, “resposta de Israel” ou “danos colaterais” têm sido usadas sistematicamente para diluir responsabilidades. A palavra “genocídio” é evitada, mesmo quando descreve com rigor jurídico o que ocorre em Gaza.
Reportagens que ocultam o número de mortos civis, que não identificam as vítimas, que omitem a destruição de hospitais e escolas, contribuem para a desumanização do povo palestiniano. Como afirmou a escritora Susan Sontag, “não existe fotografia sem enquadramento. Também não existe reportagem sem escolha.”
Jornalistas silenciados, fontes ignoradas
Vários jornalistas foram suspensos ou despedidos por expressarem solidariedade com a Palestina ou por denunciarem o enviesamento noticioso. Na Alemanha, a correspondente Nora Warrach foi afastada da ARD após ter questionado, em directo, o apoio militar a Israel. Em França, Thomas Deltombe, autor de investigações sobre o lobby sionista, foi alvo de processos judiciais.
Nos grandes meios internacionais, fontes palestinianas são desvalorizadas ou omitidas, enquanto representantes israelitas têm espaço privilegiado para justificar os ataques. A regra de “dar voz aos dois lados” aplica-se de forma assimétrica — como se o ocupante e o ocupado partilhassem as mesmas condições de poder, acesso e legitimidade.
Jornalismo de resistência: o que está a ser feito?
Apesar das limitações, surgem ilhas de resistência jornalística. Plataformas independentes como o Democracy Now!, Al Jazeera, +972 Magazine, The Intercept, Middle East Eye ou Mondoweiss têm publicado investigações detalhadas sobre os crimes cometidos por Israel e as suas redes de apoio internacional.
Na Palestina, jornalistas locais como Wael Al-Dahdouh, Bisan Owda e Motaz Azaiza tornaram-se símbolos de coragem, relatando o horror em tempo real, mesmo após perderem familiares ou ficarem feridos. O seu trabalho, muitas vezes ignorado pela grande imprensa, tem chegado a milhões através das redes sociais.
O jornalismo como escolha ética
Ser jornalista é assumir responsabilidade sobre o impacto das palavras. Perante um crime de dimensões históricas, não é aceitável a indiferença. O silêncio, a omissão, a linguagem ambígua — tudo isso contribui para a perpetuação da impunidade. Como afirmou o jornalista John Pilger, “a função do jornalismo é dar voz aos silenciados, não aos que já têm megafones.”
A cobertura da Palestina é um teste à integridade do jornalismo global. Teste que, até agora, muitos órgãos de comunicação têm falhado.
O que podemos fazer?
A responsabilidade não é só das redacções. Leitores, ouvintes e espectadores também têm um papel. Questionar as fontes, recusar a neutralidade cúmplice, apoiar o jornalismo independente, amplificar vozes palestinianas — são gestos concretos de resistência informada.
O genocídio em Gaza não é apenas um drama distante. É uma medida da nossa humanidade colectiva. E a forma como o noticiamos, ou não, definirá como seremos julgados pelas gerações futuras.