Resumo
- De acordo com um relatório da Agência Portuguesa do Ambiente, entre 2019 e 2024, o número de veículos ligeiros associados a serviços de entrega aumentou 36 % em Lisboa e 29 % no Porto.
- Embora muitas entregas sejam feitas por bicicleta, o número crescente de motociclos e viaturas a circular em zonas já saturadas agravou os problemas de tráfego e emissões.
- A ascensão das plataformas encurtou drasticamente o tempo entre a encomenda e a entrega, mas também esvaziou cafés, mercearias e restaurantes que não aderem ao sistema — ou que, ao fazê-lo, entregam parte significativa da margem de lucro à plataforma (chegando a 30 % por encomenda).
Às oito da noite, o cruzamento entre a Avenida Almirante Reis e a Rua Morais Soares transforma-se num formigueiro: bicicletas e scooters com mochilas térmicas percorrem as ruas a toda a velocidade. A cidade, já congestionada por natureza, parece ter-se rendido a um novo actor urbano — o estafeta de plataforma.
Mas este novo normal tem custos ocultos. O boom das entregas ao domicílio transformou os hábitos de consumo, o tecido comercial e a vida urbana. Lisboa, à semelhança de tantas outras capitais europeias, tornou-se uma cidade refém da conveniência e colonizada pela lógica algorítmica das apps.
Trânsito, poluição e conflitos
De acordo com um relatório da Agência Portuguesa do Ambiente, entre 2019 e 2024, o número de veículos ligeiros associados a serviços de entrega aumentou 36 % em Lisboa e 29 % no Porto. Embora muitas entregas sejam feitas por bicicleta, o número crescente de motociclos e viaturas a circular em zonas já saturadas agravou os problemas de tráfego e emissões.
Rui Machado, engenheiro do trânsito na Câmara Municipal de Lisboa, não tem dúvidas:
“O crescimento desregulado destas actividades complicou enormemente a gestão do espaço urbano. Temos relatos de entregadores a circular em sentido contrário, a subir passeios ou a estacionar de forma caótica para cumprir os prazos impostos pela aplicação.”
Além disso, multiplicam-se os acidentes rodoviários envolvendo estafetas. Segundo dados da PSP, só em 2024 registaram-se 289 acidentes com estafetas de plataformas na área metropolitana de Lisboa, dos quais 7 com gravidade. A pressão para entregar rapidamente, somada à ausência de formação e protecção adequada, aumenta o risco.
Espaço público em disputa
A cidade é um campo de tensão entre diferentes modos de vida. Com a proliferação de estafetas, surgem conflitos com moradores, comerciantes e utilizadores do espaço público. Em bairros como Arroios, Cais do Sodré ou Campo de Ourique, os relatos de ruído noturno, ajuntamentos informais e ocupação indevida de zonas pedonais são cada vez mais frequentes.
Carla Rosado, moradora em Arroios, lamenta:
“Não tenho nada contra os estafetas, muitos são jovens que só querem trabalhar. Mas há noites em que parece que estamos numa estação de comboios. Motores, gritos, entregas a toda a hora. Falta regulação, não é culpa deles.”
A ausência de locais específicos para paragens, descanso ou acesso a casas de banho agrava a situação. Os estafetas ficam relegados a zonas neutras: esquinas, escadarias, degraus de prédios, jardins públicos — uma ocupação que resulta da invisibilidade institucional a que estão sujeitos.
Cidades pensadas para apps?
O urbanista Nuno Portela, investigador da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, levanta uma questão inquietante:
“Estamos a adaptar a cidade às plataformas ou a defender o espaço público enquanto bem comum? A lógica da entrega instantânea favorece uma cidade fragmentada, onde a circulação vale mais do que a convivência.”
A falta de planeamento urbano face à economia de plataformas cria zonas de exclusão e de hipermobilidade desregulada. Os centros históricos, saturados de turismo e serviços, tornam-se epicentros logísticos, ao passo que as periferias são deixadas para segundo plano.
Além disso, o comércio local sofre. A ascensão das plataformas encurtou drasticamente o tempo entre a encomenda e a entrega, mas também esvaziou cafés, mercearias e restaurantes que não aderem ao sistema — ou que, ao fazê-lo, entregam parte significativa da margem de lucro à plataforma (chegando a 30 % por encomenda).
A resposta institucional: silêncio e improviso
Até ao momento, nenhuma autarquia portuguesa criou um plano estruturado para a integração dos estafetas no espaço urbano. A Câmara Municipal de Lisboa avançou, em 2023, com um projecto-piloto de “zonas de paragem” em cinco pontos da cidade, mas o plano nunca foi expandido.
A ausência de regulamentação leva a soluções improvisadas — como a instalação de sinalética informal por parte de moradores ou comerciantes. A associação ambientalista ZERO alerta para o risco de “transformar a cidade num território funcional, ao serviço de um modelo económico que não foi democraticamente escolhido”.
Repensar o modelo
Não se trata de criminalizar os estafetas — muitas vezes jovens, imigrantes e trabalhadores vulneráveis. Trata-se de questionar o modelo urbano e social que estamos a aceitar sem debate. Um modelo que transforma o espaço público em corredor de trânsito, o trabalhador em peça descartável e a cidade em entreposto logístico.
Que cidade queremos? Uma Lisboa viva, inclusiva, que protege os seus habitantes e os seus trabalhadores — ou uma cidade moldada à imagem de um ecrã de smartphone, onde tudo deve chegar em 15 minutos, mesmo à custa do tecido social e ambiental?
A resposta não cabe só à tecnologia, mas à política. Urge uma regulação urbana do trabalho digital. Urge devolver a cidade a quem a vive — e não apenas a quem a serve.