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Resumo

  • A retórica do partido Chega, com particular incidência nas redes sociais e nos grandes palcos mediáticos, está a transformar o comportamento cívico de crianças e jovens – muitos dos quais já reproduzem sem filtro as mensagens que ouvem de políticos e figuras públicas.
  • Na Escola Básica de Alhandra, a professora Ana Lemos conta que “nos últimos dois anos, ouvimos alunos dizerem frases como ‘vai para o teu país’ ou ‘és um peso para o Estado’, replicando quase palavra por palavra o discurso de figuras do Chega no Parlamento”.
  • Um inquérito recente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa revelou que mais de metade dos jovens entre os 16 e os 24 anos considera “impossível mudar o país pela via política”.

Lisboa, 28 de Julho de 2025
Cresce em Portugal uma geração exposta, desde a infância, a discursos de exclusão, ódio e divisão. A retórica do partido Chega, com particular incidência nas redes sociais e nos grandes palcos mediáticos, está a transformar o comportamento cívico de crianças e jovens – muitos dos quais já reproduzem sem filtro as mensagens que ouvem de políticos e figuras públicas.

“Estamos a assistir a uma normalização preocupante da xenofobia entre adolescentes”, afirma a psicóloga do desenvolvimento Catarina Morais, que trabalha com escolas na zona de Setúbal. “Quando um líder político reforça preconceitos raciais ou promove a ideia de que uns cidadãos valem mais do que outros, está a abrir espaço para que esses conceitos se enraízem nas cabeças mais vulneráveis.”

Um discurso que desce até ao recreio
A proliferação do discurso político de exclusão — com particular ênfase em migrantes, minorias étnicas e pessoas em situação de vulnerabilidade social — tem efeitos palpáveis nas escolas portuguesas. Professores do 2.º e 3.º ciclos relatam um aumento significativo de comentários racistas, piadas discriminatórias e, em alguns casos, episódios de bullying motivados por diferenças culturais ou religiosas.

Na Escola Básica de Alhandra, a professora Ana Lemos conta que “nos últimos dois anos, ouvimos alunos dizerem frases como ‘vai para o teu país’ ou ‘és um peso para o Estado’, replicando quase palavra por palavra o discurso de figuras do Chega no Parlamento”.

Segundo dados do Observatório da Juventude em Lisboa, 68% dos adolescentes entrevistados em 2024 afirmaram já ter ouvido comentários xenófobos na escola. Em 2019, esse número era de 41%.

Psicologia política em casa e nas redes
A influência não se limita ao recreio. Em muitos lares, o discurso político agressivo penetrou pela televisão e pelas redes sociais, tornando-se parte da linguagem quotidiana.

“A exposição repetida à linguagem de desvalorização e ao apelo à autoridade agressiva cria uma dessensibilização emocional”, explica João Carvalho, psicólogo clínico e investigador em psicologia política na Universidade do Minho. “Isto faz com que os jovens deixem de ver a empatia como um valor e passem a associar força a intolerância.”

Estudos internacionais confirmam: a exposição prolongada a lideranças populistas de direita está associada a maior apatia cívica, aceitação de soluções autoritárias e desvalorização dos mecanismos democráticos.

Apatia política ou radicalização?
Mas o impacto não é apenas emocional ou moral. A erosão da confiança na política democrática também se faz sentir. Um inquérito recente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa revelou que mais de metade dos jovens entre os 16 e os 24 anos considera “impossível mudar o país pela via política”. Muitos sentem-se desencantados com todos os partidos, mas são especialmente atraídos por discursos simplistas e punitivistas.

“Estamos perante uma geração que, em vez de se mobilizar, está a desistir”, alerta Teresa Valente, coordenadora da ONG Educar para a Democracia. “E onde não há participação, há espaço para o autoritarismo.”

A responsabilidade das lideranças
Para os especialistas, a questão central é clara: a linguagem dos líderes importa — e muito. A repetição de mensagens racistas e divisionistas por políticos com visibilidade nacional não é apenas irresponsável, é perigosa.

“Os políticos estão a educar pela negativa”, afirma João Carvalho. “Mesmo quando não são levados a sério por todos os adultos, há jovens que os vêem como modelos. Se alguém no Parlamento pode dizer aquilo sem consequências, por que não posso eu?”

O silêncio institucional ou o laxismo mediático em relação a estas declarações amplifica o problema. A ausência de contraditório firme reforça a ideia de que esse discurso faz parte do novo “normal”.

Como travar esta erosão?
As respostas passam, inevitavelmente, por mais educação cívica, mais literacia mediática e mais intervenção precoce. Iniciativas como o projecto “Escola sem Ódio”, que promove debates sobre diversidade e democracia nas escolas do distrito do Porto, têm mostrado impacto positivo. Mas os recursos continuam escassos.

“A sociedade portuguesa tem de decidir se quer continuar a fechar os olhos ao veneno que está a ser injectado nos mais jovens”, conclui Catarina Morais. “Ou se prefere agir agora — antes que se torne irreversível.”

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