Resumo
- Relatório V-Dem 2026 conclui que o cidadão global médio vive hoje com o nível de liberdade política de 1978 — e a contagem decrescente começou em Lisboa.
- O mundo fechou 2025 com 92 autocracias e 87 democracias, e o cidadão global médio vive hoje com o nível de democracia de 1978, conclui o relatório anual do instituto V-Dem, publicado em março.
- O regresso a 1978 vale para a média ponderada pela população — a experiência do cidadão estatístico, em que a Índia pesa mais do que Timor-Leste.
92 autocracias contra 87 democracias: meio século de progresso apagado
Relatório V-Dem 2026 conclui que o cidadão global médio vive hoje com o nível de liberdade política de 1978 — e a contagem decrescente começou em Lisboa.
O mundo fechou 2025 com 92 autocracias e 87 democracias, e o cidadão global médio vive hoje com o nível de democracia de 1978, conclui o relatório anual do instituto V-Dem, publicado em março.
A data não é inocente. A "terceira vaga de democratização" que o relatório dá por quase apagada começou a 25 de Abril de 1974, no Largo do Carmo, em Lisboa. Cinquenta anos depois, os investigadores da Universidade de Gotemburgo medem o retrocesso a partir do ponto onde tudo começou: Portugal.
Os números do maior banco de dados sobre democracia no mundo — mais de 600 indicadores, 202 países, 4200 peritos — são secos. Três em cada quatro pessoas (74%, seis mil milhões) vivem em autocracias. Apenas 7% da população mundial, 600 milhões, vive em democracias liberais — o valor mais baixo em mais de meio século. Há hoje mais gente em autocracias fechadas, como a China ou a Arábia Saudita, do que em todas as democracias somadas.
O número depende da balança
A pergunta óbvia é: recuar a 1978 segundo que conta? A resposta exige honestidade metodológica. O regresso a 1978 vale para a média ponderada pela população — a experiência do cidadão estatístico, em que a Índia pesa mais do que Timor-Leste. Pela média simples por país, o recuo é a 1995. Trinta anos perdidos numa medição; quase cinquenta na outra. Nenhuma das duas é animadora.
O motor da queda está nos gigantes: quatro dos cinco países mais populosos do mundo — Índia, China, Indonésia e Paquistão — são hoje autocracias, e os Estados Unidos atravessam o processo de autocratização mais rápido alguma vez registado numa democracia consolidada.
Mais países a descer do que a subir
A assimetria é o dado que melhor resume a década: 44 países estão em episódios de autocratização e apenas 18 em democratização. Em 2005, a relação era inversa — 12 contra 27. A liberdade de expressão, primeira peça do dominó, deteriora-se em 44 países; melhorava em 25 há vinte anos.
Uma concessão é devida: nem todos os termómetros marcam a mesma febre. O Democracy Index da Economist Intelligence Unit, publicado semanas antes, fala em estabilização após oito anos de queda — quase 75% dos países melhoraram ou mantiveram a pontuação em 2025. A SociedadeCivil.pt analisa essa divergência em peça própria.
Numa esplanada de Gotemburgo ou num café do Chiado, o leitor pode encolher os ombros: os índices sobem e descem. Mas há um detalhe que não desce: dos 28 países que eram democracias quando os atuais episódios de autocratização começaram, 15 já colapsaram. Daquela vaga que partiu de Lisboa, resta cada vez menos do que a memória.
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