Palantir nas pensões: o dinheiro que foge ao Estado - Sociedade Civil
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Resumo

  • Os fundos de pensões e os grandes bancos da Europa compraram ações da Palantir como nunca em 2025, no preciso momento em que vários Estados do continente tentavam livrar-se da empresa.
  • Quem reuniu esses números foi a Follow the Money, plataforma neerlandesa de jornalismo de investigação, num trabalho com o El País e outros parceiros europeus a partir de registos depositados nos reguladores norte-americanos.
  • no final de 2025, mais de 100 bancos, gestoras de ativos, seguradoras e fundos de pensões europeus tinham aumentado a posição conjunta na Palantir em mais de 60% face ao ano anterior.

Mais de 100 instituições financeiras europeias aumentaram fortemente a aposta na tecnológica no último ano. É o capital privado a entrar pela porta que o setor público tenta fechar — e ninguém sabe quanto desse dinheiro é português.

Os fundos de pensões e os grandes bancos da Europa compraram ações da Palantir como nunca em 2025, no preciso momento em que vários Estados do continente tentavam livrar-se da empresa. A contradição tem nome e tem números.

Quem reuniu esses números foi a Follow the Money, plataforma neerlandesa de jornalismo de investigação, num trabalho com o El País e outros parceiros europeus a partir de registos depositados nos reguladores norte-americanos.

Mais de 60% num ano

O dado central é este: no final de 2025, mais de 100 bancos, gestoras de ativos, seguradoras e fundos de pensões europeus tinham aumentado a posição conjunta na Palantir em mais de 60% face ao ano anterior. Somadas, as posições das instituições analisadas valiam pelo menos 27 mil milhões de dólares.

O salto não veio só de comprar mais. Veio também do preço: a investigação sublinha que o valor económico das participações quase quadruplicou num ano, puxado pela subida da cotação. É um retrato conservador, porque depende das entidades que reportam posições à SEC norte-americana.

A geografia do investimento diz alguma coisa. A análise identifica grandes investidores europeus, incluindo Norges Bank, Amundi, Legal & General, Barclays, Deutsche Bank, BNP Paribas, Swiss National Bank, Cardano, Santander e BBVA. Alguns investimentos resultam de fundos que seguem índices e compram automaticamente empresas incluídas nesses cabazes.

A pergunta que falta em Portugal

E Portugal? Não aparece como caso mapeado com a mesma nitidez na investigação publicada. O que não quer dizer que esteja de fora — quer dizer que não foi ainda apurado publicamente. A exposição portuguesa à Palantir é, neste momento, uma caixa fechada.

Há aqui uma micro-história que não aparece em nenhuma folha de cálculo. Um trabalhador que desconta todos os meses para a reforma não escolhe ação a ação onde o seu dinheiro é aplicado. Confia no fundo. O fundo confia no gestor. O gestor segue o mercado. E o mercado, em 2025, apontou com força para a Palantir.

Comprar ações não é usar o software

Convém separar duas coisas que andam coladas neste debate. Ter ações da Palantir não é o mesmo que usar a plataforma da Palantir. Um banco que detém o título está a fazer uma aposta financeira sobre o futuro da empresa. Um Estado que instala o software está a entregar-lhe o tratamento operacional dos seus dados. São níveis de exposição diferentes, com riscos diferentes.

Dito isto, a fronteira nem sempre conforta. A Amnistia Internacional denunciou em 2020 falhas de diligência de direitos humanos da empresa nos contratos ligados ao ICE. O El País, citando a investigação coordenada pela Follow the Money, recorda ainda a avaliação negativa da MSCI em liberdades civis e direitos humanos.

Para um fundo que declara critérios ambientais, sociais e de governação, são perguntas desconfortáveis: que riscos aceita financiar, que diligência faz e que informação presta aos beneficiários?

Quem já saiu

Nem todos ficaram. A gestora norueguesa Storebrand excluiu a Palantir dos seus investimentos em 2024, invocando riscos ligados à venda de produtos e serviços a Israel para uso nos territórios palestinianos ocupados. No Parlamento Europeu, uma pergunta formal já interrogou a Comissão sobre o uso e o investimento crescentes na empresa.

Em Portugal, a assembleia ainda não foi convocada. E há uma ironia a registar: o mesmo continente que, ao nível dos governos, descobriu que depender da Palantir é arriscado financia-a, ao nível das suas poupanças, como se fosse o investimento da década.

Se tem um plano de reforma, há uma hipótese real de uma parte indireta do seu futuro estar exposta ao presente de uma empresa que metade da Europa começou agora a questionar.

Fontes

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