O que é a Palantir? Guia para perceber a empresa que está em quase todo o lado - Sociedade Civil
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Resumo

  • Pouca gente sabe quem a fundou, o que vende, como ganha dinheiro e por que aparece em controvérsias da imigração americana, dos dados clínicos britânicos e da guerra de Gaza.
  • Em janeiro de 2026, a investigação da publicação The Nerve estimou em pelo menos 670 milhões de libras o total de contratos com o Estado britânico.
  • Quando o mesmo fornecedor instala a mesma plataforma em saúde, fisco, segurança social e migração, abre caminho — voluntária ou involuntariamente — a cruzamentos de dados que escapam ao escrutínio público.

A maioria ouve falar dela em rodapé de notícia. Pouca gente sabe quem a fundou, o que vende, como ganha dinheiro e por que aparece em controvérsias da imigração americana, dos dados clínicos britânicos e da guerra de Gaza. Dez perguntas para resolver isso.

O que faz a Palantir?

Vende software que ingere grandes volumes de informação dispersa — bases de dados, documentos, sensores, comunicações — e os organiza para serem analisados em conjunto. A tecnologia identifica padrões, tendências e ligações que escapam ao olho humano. É uma camada de integração e visualização sobre dados que já existem nos clientes.

Quem fundou e quando?

Foi criada em 2003, em Palo Alto, na Califórnia. Os fundadores são Peter Thiel — co-fundador do PayPal e investidor de Silicon Valley — e Alex Karp, hoje director executivo. Stephen Cohen, Joe Lonsdale e Nathan Gettings completam o núcleo inicial. Karp é doutorado em filosofia, formado em Frankfurt, com um perfil incomum no Silicon Valley.

Qual foi o papel da CIA?

Determinante. A In-Q-Tel, braço de capital de risco da CIA, foi investidora inicial. A empresa nasceu com o objectivo declarado de apoiar o governo dos Estados Unidos na guerra ao terrorismo, no pós-11 de Setembro. É, desde o primeiro dia, uma empresa simultaneamente privada e ligada ao aparelho de segurança nacional.

Que produtos tem?

Três principais. **Gotham** foi o primeiro — pensado para clientes de defesa, segurança e intelligence; agrega dados operacionais e ajuda em decisões em tempo real, incluindo militares. **Foundry** é mais recente — destinado a clientes civis e governamentais; integra dados de várias fontes em ontologias unificadas. **AIP**, plataforma de IA, sobrepõe-se aos dois e introduz modelos de linguagem em fluxos operacionais.

Quem são os clientes?

Serviços de informação ocidentais, incluindo o Mossad; o exército norte-americano; dezenas de agências federais dos Estados Unidos; corporações como a Airbus e a BP. Em 2024, a Palantir assinou parceria estratégica com Israel. Em 2025-2026, expandiu fortemente a presença no Department of Homeland Security e no ICE. No Reino Unido, fornece o NHS, o Ministério da Defesa e a agência nuclear AWE.

Quanto vale?

Vale, hoje, várias centenas de milhares de milhões de dólares em capitalização bolsista. No primeiro trimestre de 2026 reportou receita de 1,63 mil milhões de dólares, com crescimento homólogo de 85% — o maior na sua história como empresa cotada. A receita do governo norte-americano cresceu 84% e a receita comercial nos Estados Unidos cresceu 133%. Terminou o trimestre com 8 mil milhões em caixa e sem dívida.

Que controvérsias enfrenta?

Muitas. Trabalho com a ICE em deportações nos Estados Unidos. Trabalho com as forças israelitas durante a guerra em Gaza. Contratos com o NHS britânico em troca de acesso a dados clínicos. Adjudicações sem concurso em vários países. Manifesto político publicado em abril de 2026, que críticos classificam como tecnofascismo. Posicionamento próximo da administração Trump e ligações pessoais de Peter Thiel a figuras como JD Vance e Elon Musk.

Como ganha dinheiro?

Por contratos plurianuais de licenciamento de software, frequentemente acompanhados de serviços de implementação, integração e suporte. Os contratos com governos são, em regra, mais longos e maiores; os comerciais cresceram com força nos últimos dois anos. A empresa é, por estes critérios, uma das software houses mais rentáveis do mundo — com margens operativas raras no sector.

Que ligações tem a Portugal e à Europa?

Não há, até hoje, evidência pública de contrato directo com o Estado português. Em Espanha, esteve em conversas com a defesa. Em França, vendeu à seguradora AXA e a serviços de segurança. No Reino Unido, é dos maiores fornecedores de software a serviços públicos. Em janeiro de 2026, a investigação da publicação The Nerve estimou em pelo menos 670 milhões de libras o total de contratos com o Estado britânico.

Por que é que isto interessa ao cidadão?

Porque o software de integração de dados não é neutro. Quando o mesmo fornecedor instala a mesma plataforma em saúde, fisco, segurança social e migração, abre caminho — voluntária ou involuntariamente — a cruzamentos de dados que escapam ao escrutínio público. Porque a empresa é também fornecedora militar, com posição política expressa. E porque, ao contrário do que sugere o nome em código tirado do Senhor dos Anéis, os palantíri não são neutros: viam o mundo todo, mas a quem viam pertencia o poder.

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