Resumo
- João Cotrim de Figueiredo lançou o Movimento 2031 a 25 de janeiro de 2026, sete dias depois de ficar em terceiro lugar nas eleições presidenciais.
- Apresenta-se como espaço para "trazer de volta o debate saudável, a partilha de ideias e a coragem de discordar sem medo".
- A população portuguesa entre os 15 e os 29 anos representa 15,69% do total, segundo a Pordata, em estudo da Universidade de Aveiro tornado público….
Movimento Bora e Movimento 2031: a nova guerra organizada pelo voto jovem em Portugal
Três estruturas paralelas competem por enquadrar a geração que vai decidir as legislativas de 2029. Uma cresceu dentro do partido, outra nasceu de uma derrota presidencial, a terceira foi montada com agência de comunicação. Mapa de quem manda, quem paga e o que querem.
Em maio de 2026, três estruturas distintas reclamam o direito de mobilizar o eleitor português entre os 18 e os 34 anos. Uma é uma juventude partidária consolidada. A outra é um movimento cívico recém-criado por um candidato presidencial derrotado. A terceira é um movimento associativo construído com apoio de uma agência que representa uma das maiores apresentadoras de televisão do país.
Esta investigação reuniu informação pública sobre as três e enviou pedidos formais de esclarecimento aos seus responsáveis.
Juventude Chega: estrutura partidária com história
A Juventude Chega tem mais de 6.000 inscritos, segundo o site do grupo parlamentar do Chega, e é coordenada por Rita Matias, deputada eleita por Setúbal e vice-presidente do grupo parlamentar. A estrutura existe desde 2021, depois de uma primeira tentativa falhada por entrismo de grupos neonazis, episódio reconhecido pela própria coordenadora em entrevista ao Observador em 2021.
Tem deputados sub-30 — Madalena Cordeiro, Daniel Teixeira, Ricardo Reis. Tem uma Academia anual de formação que junta, na sua quarta edição, cerca de 80 quadros em São Pedro do Sul. Convidou nomes como o comentador Vasco Rato, ligado historicamente ao PSD, em sinal de transversalidade ideológica que o líder André Ventura tem cultivado.
Os deputados sub-30 da Juventude Chega têm também controvérsias documentadas: Ricardo Reis ficou conhecido em 2024 por um comentário nas redes sociais sobre a morte de Odair Moniz; Pedro Tavares dos Santos por posições antivacinas durante a pandemia.
Pedido de entrevista a Rita Matias enviado, sem resposta até ao fecho.
Movimento 2031: a institucionalização de uma derrota
João Cotrim de Figueiredo lançou o Movimento 2031 a 25 de janeiro de 2026, sete dias depois de ficar em terceiro lugar nas eleições presidenciais. A estrutura é apresentada como movimento cívico, não como filial partidária. A presidente da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, descreveu-o como "iniciativa necessária" para "agregar pessoas com uma visão reformista para o país".
A governance, o financiamento e o modelo organizacional do Movimento 2031 não estão publicamente disponíveis. Não há, à data de fecho desta peça, comissão executiva anunciada, relatório de contas inaugural ou estrutura formal divulgada.
Pedido de informação ao Movimento 2031 e a João Cotrim de Figueiredo enviado, sem resposta até ao fecho.
Movimento Bora: a infraestrutura mediática
O Movimento Bora foi lançado pelo eurodeputado socialista Bruno Gonçalves. Apresenta-se como espaço para "trazer de volta o debate saudável, a partilha de ideias e a coragem de discordar sem medo".
O detalhe relevante: o movimento conta com apoio operacional da agência Notable, que representa figuras como Cristina Ferreira. A informação foi tornada pública pelo próprio Diário de Notícias na cobertura do Barómetro DN/Aximage de abril.
A entrada de uma agência de comunicação especializada em representação de figuras públicas mediáticas num movimento associado a um partido político português é, em si, novidade. Levanta questões legítimas sobre a fronteira entre mobilização cívica e produção mediática profissional. Não é, à partida, irregular — agências têm trabalhado para campanhas eleitorais há décadas. É, no entanto, modelo distinto do que tradicionalmente caracteriza a mobilização juvenil de esquerda em Portugal.
Pedido de comentário a Bruno Gonçalves e à agência Notable enviado, sem resposta até ao fecho.
Três modelos, três apostas
A juventude da Juventude Chega é a do partido tradicional: militância, formação, presença orgânica nas escolas e universidades. O movimento 2031 é a tentativa de reciclar capital político individual em estrutura de futuro. O Bora é a aplicação ao campo cívico de modelos que vinham da indústria mediática.
São três caminhos a competir pelos mesmos eleitores. Nenhum garante mobilização durável. Nenhum, neste momento, tem números públicos de adesão verificáveis.
O dado que enquadra tudo
Em 2024, dos 230 deputados eleitos para a Assembleia da República, apenas nove tinham menos de 30 anos. Representam 3,91% do Parlamento. A população portuguesa entre os 15 e os 29 anos representa 15,69% do total, segundo a Pordata, em estudo da Universidade de Aveiro tornado público em 2025.
Quase quatro vezes menos representação do que a demografia justifica.
A guerra entre as três estruturas é, no fundo, a guerra por colmatar este desencontro. Uma geração que será maioritariamente decisiva nas legislativas de 2029 — sem candidatos da sua idade. Mobilizar este eleitorado sem o representar é exercício antigo. Quem o conseguir fazer melhor, durante mais tempo, ganha mais do que jovens. Ganha tempo.