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Resumo

  • Ao ostentar o terço como arma de combate “contra os inimigos da pátria e da tradição cristã”, o líder do Chega inscreveu-se numa longa e controversa linhagem de políticos que procuram revestir os seus projectos ideológicos com a solenidade do sagrado.
  • Tolentino Mendonça, actual cardeal e prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, afirmou em entrevista à Revista Brotéria que “o uso político da religião é uma forma de idolatria”.
  • Durante o Estado Novo, o regime de Salazar instrumentalizou a Igreja para legitimar a repressão e o colonialismo.

Extrema-direita tenta apropriar-se da simbologia cristã, mas o Vaticano e os católicos conscientes reagem: a fé não é instrumento de propaganda.

O rosário que André Ventura ergueu ao céu, durante um comício recente em Braga, não era só um gesto simbólico — era uma declaração política. Ao ostentar o terço como arma de combate “contra os inimigos da pátria e da tradição cristã”, o líder do Chega inscreveu-se numa longa e controversa linhagem de políticos que procuram revestir os seus projectos ideológicos com a solenidade do sagrado. Mas, do Vaticano às paróquias portuguesas, a resposta tem sido clara: o cristianismo não se deixa sequestrar.

O rosário como totem político

Este não foi o primeiro episódio. Ventura tem recorrido sistematicamente à simbologia católica para legitimar posições políticas que colidem com a doutrina social da Igreja. Discursos contra migrantes, defesa da “etnia portuguesa”, propostas de criminalização de pessoas em situação de sem-abrigo — tudo embrulhado em invocações à moral cristã e à “civilização ocidental” baseada em raízes judaico-cristãs.

A apropriação do rosário, especificamente, remete para estratégias usadas por líderes da extrema-direita europeia, como Matteo Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França. Em comum, uma retórica nacionalista, anti-imigração e anti-muçulmana, frequentemente mascarada por uma suposta defesa da identidade religiosa.

Contudo, a Igreja Católica não partilha dessa visão. O Papa Francisco tem sido um crítico veemente do uso político da fé. Em 2019, numa alusão directa a Salvini, advertiu que “Deus não é um amuleto” e que “a cruz não é uma bandeira para levantar contra os outros”.

Fact-check teológico

A doutrina oficial da Igreja é clara e está acessível a qualquer católico: “A política não deve instrumentalizar a religião” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, §50). Mais ainda, o Papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti, denuncia “o populismo demagógico que instrumentaliza os sentimentos religiosos” como uma das pragas contemporâneas que corroem a democracia e a coesão social.

D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), já havia alertado, em 2022, para “os riscos de deturpar a fé cristã ao serviço de projectos que dividem, discriminam e excluem”. D. Tolentino Mendonça, actual cardeal e prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, afirmou em entrevista à Revista Brotéria que “o uso político da religião é uma forma de idolatria”.

A Igreja, insistem os teólogos, não pertence a nenhum partido. “Jesus nunca se aliou ao poder político para impor a sua mensagem. O que vemos hoje é uma tentativa de substituir o evangelho pelo moralismo punitivo”, explica o teólogo Mário Linhares, professor da Universidade Católica Portuguesa.

Contexto histórico e semelhanças inquietantes

A tentação de usar o catolicismo como veículo de mobilização política não é nova. Durante o Estado Novo, o regime de Salazar instrumentalizou a Igreja para legitimar a repressão e o colonialismo. Mas também aí surgiram vozes dissidentes dentro da própria instituição, como D. António Ferreira Gomes ou os padres operários dos anos 60.

Hoje, essa memória é recuperada por muitos católicos que não se revêem na retórica do Chega. “Fomos uma Igreja cúmplice do poder durante demasiado tempo. Não podemos voltar a esse erro histórico”, diz Maria da Conceição Bento, activista católica e autora de Cristianismo e Direitos Humanos em Portugal.

A reacção dos fiéis

Nas redes sociais, a exibição do rosário por Ventura gerou uma onda de indignação entre católicos. “Não em meu nome”, “O terço é oração, não arma de campanha” ou “Jesus era refugiado, não militante identitário” foram algumas das mensagens que circularam.

Movimentos como “Cristãos por Justiça Social” e “Fé e Política” têm promovido vigílias e debates públicos sobre o papel da fé no espaço público. “Não somos contra o envolvimento político dos cristãos”, afirma Sofia Campos, coordenadora do grupo Fé e Política. “Mas somos contra a farsa de usar o nome de Deus para justificar exclusão, medo e ressentimento.”

A Igreja responde

Perante esta realidade, a hierarquia eclesiástica portuguesa tem procurado marcar posições. A CEP reafirmou recentemente que “o cristianismo não pode ser usado como escudo ideológico por quem propaga o ódio”. E várias dioceses, incluindo Braga e Porto, recusaram ceder espaços paroquiais para eventos políticos ligados ao Chega.

Mais do que um conflito entre Ventura e o Vaticano, o que está em causa é a defesa da integridade da fé cristã. Um terço na mão não basta — é preciso coerência com o evangelho.

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