Portugal pós-25 de Abril: o que 52 anos de democracia mudaram no país - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • A Constituição de 1976, o poder local democrático, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde e a liberdade sindical reescreveram o mapa do país.
  • As mulheres e a democracia realAntes de Abril, o marido era o “chefe de família” por imposição legal.
  • A revisão do Código Civil, a legalização do divórcio, o acesso ao planeamento familiar e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho alteraram o país por dentro.

Em 1974, Portugal tinha 38 mortes infantis por cada mil nados-vivos, uma taxa de analfabetismo de 25,7% e largas zonas do país sem água canalizada, saneamento ou cuidados médicos regulares. Em 2026, apresenta esperança média de vida acima dos 81 anos, analfabetismo residual nas gerações mais velhas e um sistema democrático consolidado. A distância entre estas duas fotografias não cabe na retórica. Mede-se.

O país que saiu do medo

O Estado Novo deixou um país fechado, colonial, desigual e policiado. A censura cortava jornais, livros e canções. A PIDE/DGS vigiava, prendia e torturava. A guerra colonial sugava recursos, vidas e futuro. Nas casas, a precariedade era banal: em 1970, 53% não tinham água canalizada e 68% não tinham duche ou banheira. Na escola, a exclusão era a regra. Menos de 1% da população tinha curso superior.

Depois do 25 de Abril, não mudou só o regime. Mudou a ideia de cidadania. A Constituição de 1976, o poder local democrático, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde e a liberdade sindical reescreveram o mapa do país. Pela primeira vez em muitas décadas, o Estado passou a ser cobrado por aquilo que devia garantir.

Os números que travam a nostalgia

Há dados que desmontam a conversa mole sobre a “ordem” do antigamente. A mortalidade infantil caiu de 38 por mil em 1974 para 2,6 em 2022. A esperança média de vida subiu de 67 para 81,8 anos. O analfabetismo desceu de 25,7% em 1970 para 3,1% em 2021. A população com ensino superior passou de uma minoria ínfima para 20%.

Também a condição material das casas mudou. Água canalizada, saneamento e eletricidade tornaram-se quase universais. Os bairros de barracas que marcavam periferias urbanas recuaram. O país físico modernizou-se, e isso não é adereço: muda saúde, tempo, mobilidade e dignidade.

As mulheres e a democracia real

Antes de Abril, o marido era o “chefe de família” por imposição legal. Muitas mulheres precisavam da sua autorização para trabalhar, viajar ou abrir conta bancária. A revisão do Código Civil, a legalização do divórcio, o acesso ao planeamento familiar e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho alteraram o país por dentro. Foi uma revolução silenciosa, mas não discreta nos efeitos.

Poderiam argumentar que estes avanços são automáticos, que teriam chegado de qualquer maneira. Não é assim tão simples. A história não anda sozinha. Sem democratização, sem escola pública, sem Constituição, sem pressão cívica e sem integração europeia, Portugal não teria convergido desta forma em saúde, educação e direitos.

O que continua por cumprir

Convém não dourar a fotografia. O país de 2026 traz feridas abertas. A habitação tornou-se um bloqueio geracional. Os salários médios continuam curtos. O SNS, uma das maiores criações da democracia, vive sob tensão. O interior perde população. A abstenção mina confiança e abre espaço ao ressentimento político.

Uma concessão honesta impõe-se: a democracia portuguesa produziu progresso, mas não distribuiu esse progresso com a mesma justiça em todo o território e em todas as gerações. Esse desequilíbrio pesa.

Abril não entregou um paraíso. Entregou um campo de disputa. A diferença é decisiva. Antes, a pobreza e o medo eram tratados como destino. Hoje, são problemas políticos que os cidadãos podem denunciar, discutir e tentar resolver. A liberdade não paga renda. Mas sem liberdade paga-se mais caro.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Ameaça Extremista em Portugal

Resumo A 17 de junho de 2025, a Unidade Nacional Contra Terrorismo…

Financiamento do CHEGA: Estado canaliza milhões para partido sob escrutínio

Partilha
O CHEGA recebeu mais de 6,5 milhões de euros em subvenções públicas desde 2019, beneficiando directamente da sua ascensão eleitoral, apesar de manter lacunas graves na prestação de contas sobre donativos privados. Especialistas alertam para um sistema legal que, embora transparente nos princípios, permanece vulnerável à opacidade e ao abuso.

Do Ódio ao Voto: Quem Financia a Extrema-Direita em Portugal?

Partilha
Num contexto de ascensão populista, onde o discurso do medo e do ressentimento se converte em votos, impõe-se uma pergunta essencial: quem financia a extrema-direita portuguesa? Esta investigação segue o rasto do dinheiro, da contabilidade partidária às redes de apoio internacional, expondo os vínculos institucionais, empresariais e ideológicos que sustentam o crescimento do Chega e de grupos afins.