Toda a Europa trava a Palantir. Portugal não fala? - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • O parlamento britânico recomendou esta semana o fim do contrato entre a Palantir e o serviço nacional de saúde, no mesmo momento em que outros governos europeus aceleraram a fuga à empresa.
  • Os deputados querem que o governo use a cláusula de rescisão de 2027 para acabar com o contrato de 330 milhões de libras com o NHS e construir uma alternativa britânica ou nacionalmente controlada.
  • Os parlamentares falam de dependência, de concentração de fornecedores e de vendor lock-in — o aprisionamento a um fornecedor de quem se torna caro, lento ou impossível sair.

Reino Unido, Países Baixos e Alemanha recuam da tecnológica norte-americana por razões de soberania digital. Em Portugal, o debate não começou — e há já parceiros da empresa a operar no mercado ibérico.

O parlamento britânico recomendou esta semana o fim do contrato entre a Palantir e o serviço nacional de saúde, no mesmo momento em que outros governos europeus aceleraram a fuga à empresa. Portugal não disse uma palavra pública com a mesma clareza.

De Londres a Haia, o recado é o mesmo: depender de uma só empresa norte-americana para tratar dados sensíveis do Estado deixou de ser assunto de informáticos e passou a ser problema de segurança nacional.

Três países, uma decisão

A 3 de junho de 2026, a Comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia da Câmara dos Comuns publicou um relatório duro. A conclusão está logo no título da comunicação parlamentar: a presença crescente da Palantir no setor público britânico é um “ponto de fraqueza inaceitável”. Os deputados querem que o governo use a cláusula de rescisão de 2027 para acabar com o contrato de 330 milhões de libras com o NHS e construir uma alternativa britânica ou nacionalmente controlada.

O motivo não é apenas a qualidade do produto. É o medo de ficar preso. Os parlamentares falam de dependência, de concentração de fornecedores e de vendor lock-in — o aprisionamento a um fornecedor de quem se torna caro, lento ou impossível sair.

No mesmo ciclo noticioso, a Euronews deu conta de movimentos paralelos. Nos Países Baixos, o governo admitiu procurar uma alternativa completa à Palantir. Na Alemanha, a defesa procura reduzir dependências de fornecedores norte-americanos e olha para alternativas europeias, incluindo a francesa ChapsVision.

E em São Bento?

A comparação aperta. Há um relatório parlamentar britânico sobre os perigos de entregar dados de saúde a uma empresa de Silicon Valley. Sobre o mesmo tema, em São Bento, não há debate público conhecido com a mesma densidade: nenhuma posição política estruturada, nenhum inventário público de risco, nenhuma explicação sobre que plataformas de fusão de dados podem entrar no Estado português.

O silêncio não significa ausência. A Palantir vende a sua plataforma de dados, a Foundry, e nem sempre entra num país pela porta da frente. Pode entrar por integradores — consultoras que instalam, formam e mantêm software. A existência de parceiros ou integradores não prova contrato público. Prova apenas que há mercado, canal de venda e capacidade técnica para vender.

Aqui é preciso ser honesto: não há prova pública de que o Estado português tenha comprado Palantir. Quem afirmar mais do que isto está a inventar. Mas também seria ingénuo tratar a ausência do nome “Palantir” num contrato como prova de ausência estrutural. A contratação pública passa por consórcios, subcontratações, pacotes de serviços e anexos técnicos onde a marca nem sempre aparece no título.

“Isto é só mais uma ferramenta”

Dirá quem está habituado a estas comparações que uma plataforma de dados é uma ferramenta como tantas, e que o que interessa é pôr os serviços a funcionar. O argumento tem fundo. Também tem um limite.

O problema não é o logótipo. É a arquitetura. Quando uma única plataforma passa a ligar dados de impostos, saúde, segurança social e defesa, cria-se uma dependência técnica e contratual que tende a durar décadas. E há a questão de quem está do outro lado. A Palantir trabalha com defesa, segurança, imigração e operações militares. O relatório britânico fala de desalinhamento com valores públicos e de risco de dependência.

Portugal não está parado em matéria de dados. A Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026 aprovou o Plano Nacional de Centros de Dados e enquadrou estas infraestruturas como matéria de soberania digital. A pergunta que falta é simples: que plataformas vão tratar os dados sensíveis do Estado português, com que fornecedores, que auditorias e que controlo democrático?

O aviso que quase não teve eco

Houve um aviso em maio, em Lisboa. O contra-almirante António Gameiro Marques, antigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança, disse que a Europa depende de infraestruturas, plataformas, algoritmos, semicondutores e serviços cloud que não controla. E rematou: essa dependência não é só económica — é um risco de segurança.

A soberania não se perde num golpe. Perde-se por distração: um piloto aqui, uma integração ali, um fornecedor que segura o conhecimento e uma equipa interna sem meios para o questionar.

Enquanto Londres conta as páginas do relatório e Haia marca o relógio, em Lisboa a pergunta ainda mal entrou no debate público. E a primeira forma de perder o controlo é não dar por ele.

Fontes

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like