Ataque a jornalistas: 41,2% da desinformção nas presidenciais apontou à imprensa - Sociedade Civil
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Resumo

  • O relatório do LabCom/UBI (ODEPOL) identifica os ataques a jornalistas e órgãos de comunicação como a tipologia mais frequente, representando 41,2% dos casos analisados.
  • a desinformção ganha terreno ao minar a confiança e ao empurrar o público para bolhas onde a correção é recebida como agressão.
  • o “levar” não vinha de uma resposta política, vinha de comentários em cima do vídeo, legendas e um recorte que transformava uma pergunta normal num ataque pessoal.

Nas presidenciais de 2026, a desinformção não se limitou a inventar factos. Escolheu um alvo prioritário: quem ainda tenta confirmá-los. O relatório do LabCom/UBI (ODEPOL) identifica os ataques a jornalistas e órgãos de comunicação como a tipologia mais frequente, representando 41,2% dos casos analisados. Numa campanha onde conteúdos desinformativos somaram milhões de visualizações, este dado não é folclore digital — é uma peça estrutural do modo como se constrói impunidade narrativa.

A lógica é brutalmente simples: se desacreditar o mensageiro for mais fácil do que responder ao conteúdo, a verificação perde tração antes de começar. E, sem verificação, a política transforma-se numa competição de versões, não numa disputa de ideias.

Porque funciona: a erosão do árbitro

Um ataque à imprensa não precisa de ser sofisticado. Basta repetir “vendidos”, “cartel”, “sistema”, até a suspeita soar a senso comum. O relatório descreve precisamente essa dinâmica: a desinformção ganha terreno ao minar a confiança e ao empurrar o público para bolhas onde a correção é recebida como agressão.

Daquela promessa, restou apenas o eco: “não acredites em ninguém”.

Micro-história: a pergunta que vira insulto

Na Rua de São Lázaro, à porta de um café com televisão ligada sem som, um homem mostrava um vídeo no telemóvel e ria-se: “Olha o jornalista a levar.” O detalhe era quase invisível: o “levar” não vinha de uma resposta política, vinha de comentários em cima do vídeo, legendas e um recorte que transformava uma pergunta normal num ataque pessoal. A pergunta deixou de ser pergunta; virou pretexto para humilhação. E humilhar é mais partilhável do que esclarecer.

Invertida fica a ordem do espaço público: primeiro a suspeita, depois a conversa.

A mecânica emocional: raiva como atalho cognitivo

Poderiam argumentar que isto é apenas “crítica aos media”, saudável numa democracia. Em parte, sim. A concessão honesta é esta: há erros jornalísticos, há títulos apressados, há comentariado que confunde opinião com reportagem, e isso alimenta desconfiança legítima. Ninguém deve pedir fé cega.

Mas o fenómeno descrito no relatório vai além da crítica concreta: é um ataque sistemático ao próprio direito do público a ter referências comuns de realidade. Quando um jornalista é apresentado como inimigo por definição, a correção factual passa a ser impossível — porque o facto já chega contaminado.

O efeito colateral que não é colateral

O ataque à imprensa não fica no ecrã. Produz silêncio, autocensura e desgaste. Quem é visado passa a trabalhar com a sensação de estar sempre a pisar vidro: qualquer formulação vira munição, qualquer nuance vira “prova” de agenda. E o público, exausto, abandona o esforço de distinguir: escolhe pertença.

A frase de impacto é curta, quase seca: quando o jornalista vira alvo, a mentira ganha proteção.

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