Memória do 25 de Abril: como a extrema-direita tenta reescrever o país - Sociedade Civil
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Resumo

  • A seguir, José Pacheco Pereira respondeu e desafiou-o para um debate “baseado em factos e documentos”, precisamente porque percebeu o que estava em jogo.
  • se a ditadura e o período revolucionário forem apresentados como “equivalentes”, então a diferença entre um regime de décadas e uma transição turbulenta perde nitidez.
  • Um período revolucionário, por mais duro, é um intervalo de disputa num país que estava a desmontar um aparelho autoritário e a tentar construir regras novas.

No Palácio de São Bento, na sessão dos 50 anos da Constituição, André Ventura deixou cair a frase como quem larga um fósforo num corredor com gasolina: que “pouco tempo depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que antes”. Não foi um lapso. Foi uma escolha. A seguir, José Pacheco Pereira respondeu e desafiou-o para um debate “baseado em factos e documentos”, precisamente porque percebeu o que estava em jogo: não um número, mas a memória do 25 de Abril e o centro moral da democracia.

O impacto é imediato e prático: se a ditadura e o período revolucionário forem apresentados como “equivalentes”, então a diferença entre um regime de décadas e uma transição turbulenta perde nitidez. E quando a nitidez se perde, a porta do cinismo abre-se: “foram todos iguais”, “nada vale a pena”, “qualquer mão forte serve”.

A técnica: trocar escala por indignação

A extrema-direita não precisa de convencer historiadores; precisa de semear dúvida suficiente no público para que a comparação pareça aceitável. O método repete-se: compressão temporal (48 anos contra “meses”), troca de escalas (metrópole num momento, “império” noutro), e uma palavra elástica — “preso político” — que encolhe e cresce conforme o minuto.

Depois vem o golpe final: “tortura é tortura”. É verdade. E é aqui que a armadilha funciona, porque transforma um princípio moral correcto numa equivalência histórica falsa. Daquela frase, resta a sombra: se tudo é o mesmo, então nada foi o que foi.

Poderiam argumentar que isto é só “debate” e que um país adulto aguenta versões diferentes da história. Aguenta, claro. O que não aguenta é a fraude de método: pegar em abusos reais do pós-25 de Abril para insinuar que a ditadura era apenas “mais um lado” de uma balança.

O alvo não é o PREC; é a democracia

Há uma concessão que se impõe, sem rodeios: no pós-25 de Abril houve violência, arbitrariedade e pessoas esmagadas por engrenagens que não deviam existir. Negar isso seria desonesto e até ofensivo para vítimas que continuam com nomes e famílias.

Mas a diferença de natureza conta. Uma ditadura é um sistema com polícia política, censura, perseguição prolongada e punição organizada. Um período revolucionário, por mais duro, é um intervalo de disputa num país que estava a desmontar um aparelho autoritário e a tentar construir regras novas. Inverter isto — e chamar “igual” ao que não é — não é rigor; é política.

E política com um destino: deslocar a conversa de “ditadura vs. democracia” para “violência de esquerda vs. violência de direita”, como se o Estado Novo fosse apenas um actor a mais no teatro da brutalidade. Não é. Foi a estrutura.

A descolonização como combustível para ressentimento

O segundo motor da reescrita é a descolonização. Ventura mistura guerra colonial, retornados, antigos combatentes e imigração actual num só enredo de “traição nacional”. É uma fusão emocional potente: dá raiva, dá pertença, dá um culpado.

A perspectiva anti-colonialista obriga a uma frase desconfortável: o império não foi uma extensão inocente do país, foi dominação. Houve violência, hierarquias raciais e negação de autodeterminação. Isto não apaga a dor de quem regressou, nem ridiculariza quem combateu. Pelo contrário: impede que o sofrimento seja transformado em arma para reabilitar o autoritarismo.

E aqui cabe a inversão sintáctica que a história exige: da descolonização não se faz álibi; faz-se aprendizagem.

O que está em jogo, afinal

A memória do 25 de Abril não é um altar. É um mecanismo de defesa. Quando se aceita a falsa equivalência, perde-se duas vezes: apaga-se a singularidade da ditadura e transforma-se a transição democrática num pecado original eterno.

A frase de impacto cabe numa linha: um país que não distingue ditadura de democracia fica pronto para repetir a primeira.

O antifascismo, hoje, começa assim: recusar a simetria fácil, defender escala, exigir definições, pedir documentos. E lembrar — com a paciência que irrita os propagandistas — que a liberdade não nasceu limpa, mas nasceu para permitir que se limpe.

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