Resumo
- O relatório identifica o momento desequilibrador na transição 2022–2023, com inflação e subida de juros, tornando a compra de casa particularmente difícil na maioria dos municípios.
- O relatório chega a apontar, dentro do próprio Funchal, a freguesia da Sé com valores medianos superiores a 3.
- Fala de capital externo (nacional e internacional) e de um modelo económico insular vulnerável a choques e a ondas de procura.
Nos arquipélagos, a crise da habitação não chega com a mesma coreografia do continente. Não há um “centro histórico” único a expulsar gente. Há ilhas, mercados pequenos, estatísticas incompletas e um efeito de maré: quando a procura sobe, o preço não sobe — dispara. O relatório “Acesso à Habitação em Portugal: evolução recente e retrato atual” sublinha que tanto Açores como Madeira têm dinâmicas próprias, mas com um ponto comum: a acessibilidade deteriorou-se de forma clara no último decénio.
Nos Açores, o valor mediano na compra de habitação passou de 611 €/m² (início de 2016) para 1.105 €/m² (final de 2023). No arrendamento, o valor mediano subiu de 3,48 €/m² (final de 2017) para 4,83 €/m² (final de 2023).
Na Madeira, a escalada é mais agressiva: compra de habitação de 974 €/m² (início de 2016) para 1.889 €/m² (final de 2023); arrendamento de 5,15 €/m² (final de 2017) para 8,33 €/m² (final de 2023).
Açores: nove mercados dentro de um só arquipélago
O relatório avisa: falar de “mercado açoriano” é arriscar simplificação. As nove ilhas funcionam como cenários quase independentes, com diferenças sociais e económicas marcadas. Ainda assim, há um padrão: o Grupo Oriental (São Miguel e Santa Maria) concentra os preços mais elevados; o Grupo Central surge num patamar intermédio; o Grupo Ocidental (Flores e Corvo) mantém valores mais reduzidos — e, crucialmente, tem lacunas estatísticas significativas.
A acessibilidade à propriedade agravou-se “seriamente” entre 2016 e 2023, passando de uma situação de normalidade para condicionamento elevado no acesso à habitação. O relatório identifica o momento desequilibrador na transição 2022–2023, com inflação e subida de juros, tornando a compra de casa particularmente difícil na maioria dos municípios.
E há um detalhe que não é pequeno: nos Açores, como noutros pontos do país, ocorreu uma inversão — em 2016 o arrendamento era menos acessível, mas tornou-se relativamente mais competitivo quando a compra foi esmagada pela crise dos juros.
Madeira: pressão alta num território curto
Na Madeira, o relatório é mais direto: a região está entre as áreas com preços mais altos do país, tanto na compra como no arrendamento. No final de 2023, na compra, a Madeira tinha os terceiros valores mais elevados (atrás de Algarve e AML). No arrendamento, os valores eram superados apenas pela AML e coincidiam com o Algarve.
O epicentro tem nome e morada: Funchal. É aí que a valorização se concentra e depois “puxa” concelhos limítrofes. O relatório chega a apontar, dentro do próprio Funchal, a freguesia da Sé com valores medianos superiores a 3.000 €/m² no final de 2023.
No arrendamento, a acessibilidade é descrita como “bastante crítica”, com IAH elevado já em 2017 e agravamento até 2023, sobretudo no Funchal e Santa Cruz.
A dúvida do leitor é legítima: “mas isto não é só turismo?” O relatório sugere que o turismo pesa, sim — mas não sozinho. Fala de capital externo (nacional e internacional) e de um modelo económico insular vulnerável a choques e a ondas de procura.
Concessão honesta: há benefícios na valorização (dinamismo, reabilitação, receita). O problema surge quando o preço ultrapassa a economia local. E aí, o arquipélago torna-se um lugar onde se vive… mas onde já não se consegue morar.
Numa ilha, o mercado tem menos espaço para errar.