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Resumo

  • A HRW, a ONU e várias ONGs documentaram amplamente a deslocação forçada de cerca de 1,9 milhões de palestinianos — mais de 90% da população de Gaza — como resultado de ordens sistemáticas de evacuação israelitas.
  • Como explicar o silêncio sobre o colapso do sistema de saúde, a destruição de 95% das escolas e universidades, o surto de doenças como hepatite A e a devastação de mais de 63% das estruturas habitacionais.
  • O uso da fome, a deslocação forçada e a destruição sistemática da infraestrutura civil configuram — segundo os peritos citados pela organização — atos que podem ser enquadrados como genocídio ao abrigo da Convenção da ONU e do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional.

O mais recente Relatório de Direitos Humanos do Departamento de Estado dos EUA, publicado em abril de 2025, está a ser duramente criticado por omitir — de forma deliberada, segundo várias organizações — graves violações cometidas por Israel na Faixa de Gaza durante 2024. A Human Rights Watch (HRW) lidera a condenação internacional, classificando o documento como um “exercício de branqueamento e engano” e acusando a Administração Trump de manipular o relatório para fins políticos.
A denúncia ganhou eco global. A Amnistia Internacional, o Council on American-Islamic Relations (CAIR) e a Democracy for the Arab World Now (DAWN) alinharam-se com a HRW, acusando os EUA de transformar um instrumento outrora essencial na defesa dos direitos humanos numa ferramenta de propaganda geopolítica.

Instrumento de manipulação
O documento em causa, parte dos tradicionais Country Reports on Human Rights Practices, deveria refletir de forma exaustiva a situação dos direitos humanos em todo o mundo. No entanto, a edição de 2025 marca uma quebra radical com esse histórico. A HRW acusa diretamente a Administração Trump de “politizar o relatório para proteger aliados e demonizar adversários”, apontando o caso de Israel como o mais flagrante exemplo.
Em comparação com os relatórios anteriores — sobretudo os de 2023 e 2024, publicados sob a Administração Biden — a secção dedicada a Israel foi drasticamente reduzida: de mais de 22.000 palavras para menos de 1.500. Além da dimensão, foi eliminada toda a referência à crise humanitária em Gaza, à violência de colonos na Cisjordânia e às violações dos direitos de mulheres e pessoas LGBTQ+, anteriormente apresentadas como secções autónomas.
A reestruturação interna, sustentada por uma diretiva que eliminou categorias não “explicitamente exigidas por lei”, substituiu análises específicas por termos vagos como “Vida”, “Liberdade” e “Segurança da Pessoa”. A mudança, segundo os críticos, foi desenhada para permitir omissões seletivas que alinhem o conteúdo do relatório com a política externa da Casa Branca.

Omissões gritantes: Gaza fora do mapa
O epicentro da controvérsia reside na omissão das atrocidades cometidas em Gaza. A HRW, a ONU e várias ONGs documentaram amplamente a deslocação forçada de cerca de 1,9 milhões de palestinianos — mais de 90% da população de Gaza — como resultado de ordens sistemáticas de evacuação israelitas. A UNRWA relata que muitas destas pessoas foram deslocadas múltiplas vezes, com ataques a “zonas seguras” previamente indicadas pelo exército israelita.
Ao mesmo tempo, organizações como a Amnistia Internacional, a Oxfam e o Programa Alimentar Mundial da ONU denunciaram o uso planeado da fome como arma de guerra. Segundo estas fontes, Israel bloqueou intencionalmente a entrada de alimentos e destruiu infraestruturas essenciais, levando um terço da população de Gaza a passar dias sem comer. O próprio sistema de distribuição de ajuda, agora militarizado, foi descrito como uma “armadilha mortal”, tendo resultado em centenas de mortos nos pontos de distribuição.
Como ignorar esta realidade? Como explicar o silêncio sobre o colapso do sistema de saúde, a destruição de 95% das escolas e universidades, o surto de doenças como hepatite A e a devastação de mais de 63% das estruturas habitacionais? A resposta, segundo a HRW, está numa decisão política que escolheu apagar Gaza do mapa da dor humana.

“Crimes de guerra e contra a humanidade”, afirma HRW
A HRW vai mais longe: considera que as ações de Israel em Gaza não são apenas violações do direito internacional humanitário, mas sim crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O uso da fome, a deslocação forçada e a destruição sistemática da infraestrutura civil configuram — segundo os peritos citados pela organização — atos que podem ser enquadrados como genocídio ao abrigo da Convenção da ONU e do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional.
A Amnistia Internacional corrobora. Num relatório publicado em maio de 2025, afirma que existe uma “intenção demonstrável de infligir condições de vida insustentáveis ao povo palestiniano, com o objectivo de provocar a sua destruição física”. A relatora especial da ONU para os Territórios Palestinianos, Francesca Albanese, classificou a situação como um processo de “apagamento colonial”.
Nada disto, porém, é mencionado no relatório norte-americano. Nem como possibilidade. Nem como acusação. Nem como refutação.

Duplo padrão e branqueamento selectivo
O relatório não só omite as violações israelitas, como amplifica os abusos atribuídos a países considerados adversários geopolíticos da Administração Trump. Exemplo disso são as referências ao Brasil, criticado pela atuação dos tribunais em processos contra bolsonaristas, e à África do Sul, por alegadas políticas de expropriação de terras.
A HRW acusa o Departamento de Estado de aplicar um claro duplo padrão: “Enquanto crimes bem documentados cometidos por aliados são apagados, alegações pouco fundamentadas contra rivais são promovidas.” O desaparecimento das fontes da ONU e das ONGs da secção sobre Israel é, para os especialistas, uma estratégia deliberada para controlar a narrativa.
Esta manipulação não é inofensiva. Tais relatórios são frequentemente usados como base em processos de asilo e decisões sobre ajuda externa. Ao distorcer a realidade, os EUA colocam em risco a vida de refugiados, enfraquecem os mecanismos internacionais de justiça e legitimam a impunidade.

Credibilidade em colapso
Historicamente, os relatórios do Departamento de Estado eram tidos como referência global — usados por juízes, académicos, diplomatas e defensores dos direitos humanos. A edição de 2025 ameaça destruir essa reputação. Ao abandonar a objetividade, ao apagar os mortos e ao silenciar os crimes, os EUA renunciam ao papel de defensores universais dos direitos humanos.
O relatório, antes um espelho da dignidade humana, tornou-se um véu da conveniência política.
Será possível resgatar a integridade deste instrumento? Ou os direitos humanos passaram a ser apenas mais uma arma na guerra das narrativas? A resposta, inquietante, já ecoa entre os escombros de Gaza.

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