Resumo
- As acusações abrem caminho a uma nova qualificação jurídica do conflito, podendo configurar crimes contra a humanidade, mais graves ainda do que os crimes de guerra — e com implicações profundas para o discurso internacional sobre Israel.
- Em abril de 2025, a equipa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) divulgou imagens de três valas comuns junto ao Hospital Nasser, em Khan Younis, e ao Hospital Al-Shifa, em Gaza City.
- Segundo a procuradoria do TPI, estas denúncias estão a ser analisadas em conjunto com outras evidências de ataques deliberados contra civis, destruição de hospitais e uso da fome como arma de guerra.
No meio dos escombros da Faixa de Gaza, entre hospitais bombardeados e bairros arrasados, surgem agora provas do que poderá ser o capítulo mais sombrio desta guerra: execuções sumárias de civis e valas comuns. A denúncia foi feita por organizações de direitos humanos palestinianas e confirmada por missões da ONU, com documentação fotográfica, testemunhos e imagens de satélite.
As acusações abrem caminho a uma nova qualificação jurídica do conflito, podendo configurar crimes contra a humanidade, mais graves ainda do que os crimes de guerra — e com implicações profundas para o discurso internacional sobre Israel.
Valas abertas às pressas, corpos sem nome
Em abril de 2025, a equipa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) divulgou imagens de três valas comuns junto ao Hospital Nasser, em Khan Younis, e ao Hospital Al-Shifa, em Gaza City. Em cada uma foram encontrados dezenas a centenas de corpos, muitos com as mãos atadas, olhos vendados ou ferimentos à queima-roupa.
O OHCHR considerou “credíveis e consistentes” os indícios de execuções extrajudiciais cometidas por forças israelitas em zonas temporariamente ocupadas.
Um relatório preliminar do grupo palestiniano Al-Haq acrescenta que alguns cadáveres apresentavam sinais de tortura ou execução sumária, e que as valas foram abertas rapidamente antes da retirada das tropas israelitas — uma tentativa, ao que tudo indica, de ocultar provas.
Israel nega, mas impede acesso
As Forças de Defesa de Israel (IDF) negaram categoricamente as acusações, classificando-as de “propaganda hostil”. No entanto, impediram repetidamente o acesso de equipas forenses independentes às zonas em causa, sob pretexto de segurança.
As imagens de satélite analisadas por peritos do Euro-Med Human Rights Monitor mostram claramente a presença de escavações recentes e movimento de veículos militares nos dias anteriores às descobertas. Fontes médicas palestinianas relatam que as tropas retiraram cadáveres de câmaras frigoríficas hospitalares para áreas abertas, onde os sepultaram sem identificação.
Qual a implicação legal?
As execuções extrajudiciais violam frontalmente as Convenções de Genebra, o Estatuto de Roma e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Quando praticadas de forma sistemática, podem configurar crime contra a humanidade, passível de julgamento no Tribunal Penal Internacional (TPI), independentemente do local ou nacionalidade dos autores.
Segundo a procuradoria do TPI, estas denúncias estão a ser analisadas em conjunto com outras evidências de ataques deliberados contra civis, destruição de hospitais e uso da fome como arma de guerra.
Juristas internacionais como Philippe Sands e Carla Del Ponte alertam que a acumulação de provas já ultrapassa o limiar para a abertura formal de novos processos.
Quem são as vítimas?
A maioria dos corpos encontrados nas valas não foi ainda identificada. Muitos não tinham documentos, estavam mutilados ou já em decomposição avançada. Há registos de famílias inteiras desaparecidas, cujos nomes constam de listas de desaparecidos compiladas por organizações locais.
Os sobreviventes relatam que, durante os períodos de ocupação temporária pelas IDF, pessoas foram levadas para interrogatórios e nunca mais regressaram. Em alguns casos, o desaparecimento foi precedido por denúncias anónimas ou acusações de colaboração com o Hamas.
Uma testemunha de Khan Younis relatou à Al Jazeera: “Vi três vizinhos levados do abrigo. Tinham as mãos atadas. Três dias depois, encontrámos os corpos junto ao muro do hospital.”
O silêncio das potências ocidentais
Apesar da gravidade das acusações, nenhum país da União Europeia exigiu ainda uma investigação formal e independente sobre as valas comuns. Os EUA reiteraram o “direito de Israel a defender-se”, mas pediram “transparência nas operações”.
A relutância em condenar abertamente estas práticas levanta suspeitas de cumplicidade política — ou, no mínimo, de tolerância seletiva para crimes inaceitáveis.
Memória e justiça: é possível reconstituir a verdade?
A prioridade agora, segundo os peritos da ONU, é proteger as provas, recolher ADN dos cadáveres e permitir acesso irrestrito a equipas forenses. O tempo é crucial. Cada dia que passa degrada os corpos, destrói vestígios e alimenta a impunidade.
Mas, mais do que provas, Gaza precisa de memória e verdade. Porque sepultar corpos em valas anónimas é uma forma de apagar. E o apagamento é a última violência.
Se as valas de Gaza forem esquecidas, serão repetidas.
E se o mundo não agir, estará a dizer — por omissão — que há vidas que valem menos.