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Resumo

  • O relatório das Nações Unidas From economy of occupation to economy of genocide denuncia de forma inequívoca a cumplicidade de empresas como Google, Amazon, Microsoft e Palantir num sistema que ultrapassa largamente os limites da ética tecnológica.
  • Supostamente destinado à “modernização digital do sector público”, o projecto inclui a oferta de ferramentas de inteligência artificial, machine learning, análise preditiva e armazenamento massivo de dados em servidores cloud localizados em território israelita — blindados a pedidos de acesso externo.
  • “Estamos a assistir a uma privatização do controlo territorial, em que o código informático substitui o checkpoint, e a decisão de vida ou morte pode ser tomada por uma linha de código”, denuncia Edward Azar, ex-engenheiro de segurança na região e consultor de ética tecnológica.

Gaza, hoje, é mais do que uma zona de guerra: é um laboratório distópico de vigilância massiva, onde a tecnologia da Big Tech serve de espinha dorsal a uma arquitectura de controlo racial e militar. O relatório das Nações Unidas From economy of occupation to economy of genocide denuncia de forma inequívoca a cumplicidade de empresas como Google, Amazon, Microsoft e Palantir num sistema que ultrapassa largamente os limites da ética tecnológica. Em vez de promoverem a conectividade e o progresso, estas corporações alimentam um modelo de apartheid digital.

Ao cruzar contratos públicos, projectos militares e testemunhos de peritos, a ONU traça um retrato perturbador: desde software de reconhecimento facial até algoritmos de inteligência artificial, passando por infraestrutura de cloud computing e data mining, a tecnologia é a nova artilharia da ocupação. Gaza é, neste cenário, simultaneamente campo de teste e vitrina comercial.


Nimbus: a nuvem da vigilância

No centro desta teia está o Project Nimbus, contrato multimilionário assinado entre o governo israelita e as gigantes Google e Amazon. Supostamente destinado à “modernização digital do sector público”, o projecto inclui a oferta de ferramentas de inteligência artificial, machine learning, análise preditiva e armazenamento massivo de dados em servidores cloud localizados em território israelita — blindados a pedidos de acesso externo.

Documentos obtidos por whistleblowers revelam que parte significativa dessa tecnologia é usada por agências de segurança e unidades militares, incluindo o Shin Bet e as Forças de Defesa de Israel (IDF). O relatório da ONU aponta que essas ferramentas têm sido empregues na identificação de “alvos” para operações letais em Gaza, muitas vezes com base em padrões algorítmicos opacos e não verificáveis.

“O que está em causa não é apenas vigilância — é vigilância dirigida por modelos discriminatórios, usados como justificação para bombardeamentos selectivos”, alerta a investigadora Rana Barakat, da Universidade de Birzeit.


Microsoft, Palantir e o poder do código

A Microsoft não fica de fora. Através da subsidiária Microsoft Israel, a empresa fornece serviços e plataformas que integram bases de dados biométricos da população palestiniana, cruzando informações de fronteiras, registos de residência e comportamento digital. Estas bases alimentam o sistema de autorização de circulação entre Gaza, Cisjordânia e Israel — um mecanismo burocrático de controlo étnico.

Já a Palantir, conhecida pelas suas ligações ao Pentágono, colabora com agências israelitas em sistemas de análise de grandes volumes de dados para fins de segurança e contra-insurreição. O seu software Gotham é descrito pela própria empresa como capaz de “identificar ameaças antes de estas se concretizarem”. Mas que ameaças? Com que critérios? Com que margem de erro?

“Estamos a assistir a uma privatização do controlo territorial, em que o código informático substitui o checkpoint, e a decisão de vida ou morte pode ser tomada por uma linha de código”, denuncia Edward Azar, ex-engenheiro de segurança na região e consultor de ética tecnológica.


Apartheid digital: uma nova fronteira da opressão

A Human Rights Watch e a Amnistia Internacional já denunciaram a existência de um apartheid digital imposto aos palestinianos. Em Gaza, as redes móveis estão severamente limitadas, os equipamentos electrónicos importados são sujeitos a restrições militares, e os acessos à internet são monitorizados em tempo real.

A empresa israelita AnyVision foi acusada de usar câmaras em Jerusalém Oriental para seguir movimentos de palestinianos com base em reconhecimento facial, num sistema semelhante ao aplicado na fronteira entre Gaza e Israel. Embora a Microsoft tenha investido na empresa, acabou por desinvestir após protestos internos.

“Quando uma criança em Gaza usa um telemóvel, esse acto pode ser registado, cruzado com outros dados, e integrado num perfil de risco. Isto é mais do que vigilância: é criminalização algorítmica de uma identidade”, afirma Leila Marshoud, activista digital palestiniana.


Tecnologia em vez de tanques

É tentador ver o Vale do Silício como um actor neutro, interessado apenas em inovação. Mas os contratos e parcerias revelam outra realidade: a tecnologia tornou-se um instrumento central de domínio colonial. O apartheid não é apenas físico — é digital, omnipresente, e automatizado.

Nos últimos três anos, diversas mobilizações internas em empresas como Google e Amazon tentaram travar estas parcerias. Campanhas como “No Tech for Apartheid” recolheram milhares de assinaturas, mas os contratos avançaram, amparados por cláusulas de sigilo e pela lógica implacável do lucro.

“Se não há accountability, o algoritmo transforma-se num agente do genocídio”, avisa o perito em direitos digitais Marwan Dabbagh.


Um apelo à resistência digital

Perante este cenário, cresce o apelo a um boicote ético às empresas tecnológicas cúmplices da repressão em Gaza. Mais do que slogans, exigem-se acções concretas: cancelamento de contratos, auditorias independentes, fim da opacidade nos algoritmos aplicados em zonas de conflito.

A ONU insta à criação de um tratado internacional sobre responsabilidade digital em contextos armados, que inclua sanções contra corporações que forneçam tecnologia letal ou discriminatória. “A inovação não pode ser desculpa para a desumanização”, conclui o relatório.


Conclusão: um futuro vigiado?

Quando a fronteira entre defesa e dominação se esbate no ecrã de um computador, o perigo deixa de ser apenas físico — torna-se estrutural. Gaza é o aviso: num mundo governado por dados, a justiça não pode ser deixada ao cuidado do código.


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