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Resumo

  • A leitura atenta dos dados revela uma assimetria marcada entre plataformas, um défice crónico de transparência e, sobretudo, a crescente interferência governamental sobre o que o público pode — ou não — ver.
  • Desde outubro de 2023, o TikTok removeu 3,1 milhões de vídeos e 140 mil transmissões em direto na região Israel-Palestina, alegando violações que vão de discurso de ódio à “promoção do Hamas”.
  • Trata-se de quem tem o direito de contar a história — e de quem tem o poder de a silenciar.

Entre fevereiro e agosto de 2025, as redes sociais mais influentes do planeta — Facebook, Instagram, X e TikTok — tornaram-se palco de uma disputa silenciosa, mas decisiva: quem controla o fluxo de informação sobre a Palestina? Sob cada hashtag, vídeo ou partilha, esconde-se um campo de batalha algorítmico, onde milhões de publicações são amplificadas, removidas ou tornadas invisíveis. A leitura atenta dos dados revela uma assimetria marcada entre plataformas, um défice crónico de transparência e, sobretudo, a crescente interferência governamental sobre o que o público pode — ou não — ver.

TikTok: a voz amplificada

Os números são expressivos. Segundo um estudo da Northeastern University, no TikTok, a narrativa pró-Palestina não só resiste como lidera o espaço digital. Entre fevereiro e agosto de 2025, foram contabilizados 170.430 posts pró-Palestina, somando 236 milhões de visualizações, contra 8.843 pró-Israel (14 milhões de visualizações) e 101.706 neutros (492 milhões). Ao contrário do padrão habitual de “pico e queda” típico de crises mediáticas, o conteúdo pró-Palestina segue um padrão de movimento social: crescimento consistente, um auge prolongado e declínio gradual.

Contudo, esta visibilidade tem um custo. Desde outubro de 2023, o TikTok removeu 3,1 milhões de vídeos e 140 mil transmissões em direto na região Israel-Palestina, alegando violações que vão de discurso de ódio à “promoção do Hamas”. Globalmente, 24 milhões de contas falsas foram eliminadas. O dilema persiste: como proteger contra conteúdos nocivos sem comprometer o direito à expressão política?

Meta (Facebook e Instagram): o peso da censura

Se o TikTok concede palco, a Meta é acusada de reduzir o volume do microfone. Documentos internos apontam que 94% das solicitações de remoção feitas pelo governo israelita foram atendidas, resultando na eliminação de 38,8 milhões de posts adicionais desde o final de 2023. Mais de 90 mil publicações foram retiradas, em média, em 30 segundos — um ritmo só possível com moderação automatizada, frequentemente insensível ao contexto.

A disparidade é flagrante: anúncios pró-Palestina, mesmo de organismos como a ONU ou Médicos Sem Fronteiras, foram suprimidos mais rapidamente do que anúncios pró-Israel que também violavam as regras. O encerramento do CrowdTangle, ferramenta essencial para monitorização independente, reforçou a opacidade. Hoje, a moderação é um muro alto, sem janelas para o escrutínio da sociedade civil.

X: liberdade de expressão ou palco da desinformação?

No X (antigo Twitter), a questão não é a ausência de vozes pró-Palestina, mas o ruído que as abafa. Uma investigação conjunta da ProPublica e do Tow Center identificou 2.000 tweets de contas verificadas a difundir desinformação sobre o conflito, com um alcance total de 500 milhões de visualizações. O Community Notes, sistema de verificação colaborativa, falhou em 80% dos casos, deixando a maioria dos conteúdos incorretos sem anotação corretiva. E, mesmo quando a nota era publicada, alcançava apenas uma fração da audiência original.

O discurso de ódio também encontra espaço: 96% das publicações identificadas como tal permaneceram online. Paralelamente, cresce o número de pedidos governamentais atendidos para remoção de conteúdos. O resultado é um paradoxo: proclama-se liberdade de expressão, mas esta é moldada de forma seletiva.

Falta de números oficiais

Nenhuma das plataformas disponibiliza dados completos e segmentados sobre o volume de conteúdo pró-Palestina. Em vez disso, apresentam números agregados de moderação — métricas que, embora apresentadas como prova de eficácia, podem ocultar práticas discriminatórias. Sem padronização e auditoria independente, os chamados “relatórios de transparência” funcionam mais como instrumentos de relações públicas do que como mecanismos de responsabilização.

O que está em jogo

A disputa digital sobre a Palestina vai além de likes ou visualizações. Trata-se de quem tem o direito de contar a história — e de quem tem o poder de a silenciar. O retrato é desigual: um TikTok que amplifica movimentos de base, uma Meta acusada de censura sistemática, um X onde a desinformação prospera.

Enquanto governos moldam algoritmos e decisões de moderação, e as empresas evitam publicar métricas granulares, a batalha pela visibilidade mantém-se desigual. Sem reformas que imponham transparência real, auditorias independentes e barreiras contra interferência política, a narrativa pró-Palestina — e qualquer outra que desafie poderes estabelecidos — arrisca-se a ser escrita não pelo debate público, mas pelas engrenagens invisíveis do poder digital. 📊🕊️

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