A Tentação do Altar: Como a Extrema-Direita Seduz os Crentes - Sociedade Civil
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Resumo

  • A sensação de que os partidos tradicionais abandonaram os valores “morais” e o receio de uma sociedade “sem Deus nem lei” alimentam o apelo da extrema-direita.
  • Questões como o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a identidade de género ou a educação sexual são exploradas pela extrema-direita como se fossem batalhas apocalípticas pela sobrevivência da civilização ocidental.
  • É o que o Papa Francisco chamou, em 2018, de “cristianismo ideológico”, onde a fé deixa de ser encontro com Deus e torna-se bandeira partidária.

Entre crucifixos e comícios, uma aliança ambígua ganha terreno político.


Os sinais são cada vez mais visíveis. Um terço com a bandeira nacional ao pescoço. Citações bíblicas em cartazes de campanha. O apelo à “ordem natural” e à “família tradicional” como pilares da regeneração nacional. Ao mesmo tempo que cresce a influência da extrema-direita no espaço político português, assiste-se a um fenómeno inquietante: a adesão de segmentos religiosos a discursos que contradizem frontalmente os valores fundadores da fé.

O partido Chega, em particular, tem capitalizado o descontentamento de muitos católicos e evangélicos com as transformações culturais das últimas décadas. A promessa de um regresso à “moral” parece sedutora. Mas até que ponto essa moral é compatível com a ética do Evangelho? E porque é que tantos fiéis aceitam esta aproximação?


A sedução simbólica

A estratégia é tão subtil quanto eficaz. André Ventura raramente cita directamente a Bíblia, mas invoca insistentemente “valores cristãos”, “raízes cristãs da nação” e a “defesa da família”. O imaginário religioso é convocado para conferir legitimidade a uma visão do mundo hierárquica, punitiva e nacionalista.

“É uma operação retórica clássica do populismo religioso”, explica a socióloga Isabel Reis, especialista em comunicação política. “Não se trata de teologia, mas de iconografia. O apelo ao sagrado serve para delimitar fronteiras entre os ‘bons portugueses’ e os ‘inimigos da civilização’.”

Esta linguagem ressoa com força em sectores conservadores da população crente, particularmente entre os católicos não praticantes e os evangélicos neopentecostais, mais permeáveis ao discurso securitário e anti-elitista.


Votos com a cruz ao peito

Ana, 42 anos, professora de religião num colégio privado em Leiria, admite ter votado no Chega nas últimas legislativas. “Não concordo com tudo, mas acho que é o único partido que ainda fala de família, autoridade, respeito. Os outros perderam a noção”, afirma.

Este tipo de discurso não é raro. A sensação de que os partidos tradicionais abandonaram os valores “morais” e o receio de uma sociedade “sem Deus nem lei” alimentam o apelo da extrema-direita. O medo do “islamismo”, da “ideologia de género”, do “politicamente correcto” aparece frequentemente nas conversas.

Para o pastor evangélico Samuel Teixeira, que lidera uma congregação em Vila Nova de Gaia, é um fenómeno preocupante: “Muitos irmãos confundem valores espirituais com política partidária. O discurso do Chega é uma caricatura da moral cristã, mas há quem o veja como salvação.”


A guerra cultural como palco de batalha

A chamada “guerra cultural” tornou-se um campo fértil para esta aproximação entre fé e radicalismo. Questões como o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a identidade de género ou a educação sexual são exploradas pela extrema-direita como se fossem batalhas apocalípticas pela sobrevivência da civilização ocidental.

Esta dramatização agrada a sectores religiosos que se sentem marginalizados no espaço público. “Há uma narrativa de ressentimento que funciona: os crentes são as vítimas de um sistema laicista, progressista, hostil”, resume o politólogo Miguel Franco. “O Chega oferece-lhes voz. Mas é uma voz que, paradoxalmente, amplifica o conflito e mina o espírito evangélico.”


Moral sem misericórdia?

Esta aliança entre conservadorismo moral e autoritarismo político tem antecedentes. Nos Estados Unidos, o apoio evangélico a Donald Trump segue a mesma lógica: não se trata de virtude pessoal, mas de combate simbólico contra um inimigo comum. A fé é instrumentalizada como marcador identitário, e não como compromisso ético.

“O problema”, alerta a teóloga Cristina Macedo, “é que se esvazia a mensagem cristã da sua força transformadora. O amor ao próximo, a compaixão, o acolhimento do estrangeiro – tudo isso desaparece. Fica uma caricatura de cristianismo sem Cristo.”

É o que o Papa Francisco chamou, em 2018, de “cristianismo ideológico”, onde a fé deixa de ser encontro com Deus e torna-se bandeira partidária. “É uma forma moderna de paganismo, que substitui a cruz pelo trono do poder”, advertiu o pontífice.


Quando os púlpitos se calam

Um dos factores que explica o sucesso desta sedução é o silêncio de muitas lideranças religiosas. Por receio de serem acusadas de fazer política, por comodismo ou por afinidade ideológica, muitas instituições evitam pronunciar-se sobre o avanço da extrema-direita.

“Temos medo de perder fiéis”, confessa um sacerdote que pediu anonimato. “Mas talvez estejamos a perder algo maior: a alma da Igreja.”

Há, contudo, sinais de resistência. Alguns bispos, pastores e imãs têm começado a alertar para os riscos desta conivência. Em 2024, o padre António Cartaxo publicou uma carta pastoral lida em várias paróquias do Alentejo, onde sublinhava: “Não é possível ser cristão e pactuar com a exclusão sistemática de quem sofre.”


Fé e discernimento

O voto é livre. A fé também. Mas quando os símbolos da religião são usados para justificar exclusões, alimentar ódios ou negar direitos, a fronteira entre devoção e manipulação torna-se ténue.

“Os crentes precisam de discernimento”, conclui a socióloga Isabel Reis. “Não basta invocar o nome de Deus. É preciso perguntar: que Deus? Um Deus que ama e liberta, ou um ídolo feito à imagem dos nossos medos?”

A tentação do altar é real. Mas a liberdade espiritual começa quando se reconhece que a fé não pode ser refém de nenhum palanque.


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