Resumo
- Quase meio século depois do 25 de Abril, os fantasmas do passado começam a reaparecer — não como espectros silenciosos, mas com voz de tribuna e estética de campanha.
- Durante décadas, o regime de António de Oliveira Salazar cultivou uma imagem de Portugal como “reserva moral da Europa”, assente nos pilares de Deus, Pátria e Família.
- Estas propostas ecoam a censura prévia e os licenciamentos controlados que marcaram a política cultural e mediática do Estado Novo.
Portugal ergueu a sua democracia sobre os escombros de uma ditadura. Quase meio século depois do 25 de Abril, os fantasmas do passado começam a reaparecer — não como espectros silenciosos, mas com voz de tribuna e estética de campanha. O Chega, liderado por André Ventura, tem reintroduzido no espaço público símbolos, discursos e práticas que recordam o autoritarismo do Estado Novo. A pergunta impõe-se: estamos a assistir a um ensaio de reabilitação do fascismo à portuguesa?
A análise comparativa entre a retórica actual da extrema-direita e os manuais do regime salazarista revela semelhanças preocupantes: culto da autoridade, desconfiança da imprensa, nostalgia do “tempo em que havia ordem”, linguagem securitária e apelos constantes à obediência, à moralidade pública e ao nacionalismo religioso.
Entre Salazar e Ventura: ecos de um modelo
Durante décadas, o regime de António de Oliveira Salazar cultivou uma imagem de Portugal como “reserva moral da Europa”, assente nos pilares de Deus, Pátria e Família. Essa tríade reaparece agora na linguagem do Chega, adaptada aos tempos da comunicação instantânea e das redes sociais.
Ventura invoca “os portugueses de bem”, ataca a “decadência moral” e exalta a disciplina. No Congresso do partido de 2024, chegou a citar Salazar de forma elogiosa, afirmando que “Portugal perdeu-se quando deixou de ter medo da autoridade”. Para o historiador Miguel Bandeira Jerónimo, esta estratégia não é inocente: “É uma operação de engenharia simbólica para reapresentar o autoritarismo como solução para a insegurança social.”
Estética autoritária: símbolos e cenários
A linguagem visual também conta. O Chega recorre a bandeiras gigantes, hinos personalizados, slogans unificadores e palanques com iluminação teatral. O ambiente dos comícios é cuidadosamente coreografado, recordando as encenações políticas de outros regimes populistas e autoritários.
Na campanha de 2025, a escolha de cores e tipografias aproximou-se da iconografia do Estado Novo. A omnipresença de Ventura nos cartazes, com poses firmes e expressões austera, reforça a imagem do líder como figura salvadora. “Isto é mais do que marketing — é construção de culto de personalidade”, alerta a semióloga Mariana Cardoso.
Os alvos de sempre: imprensa, intelectuais, minorias
Como em outros momentos da história, o autoritarismo começa por identificar inimigos internos. A imprensa “do sistema”, os professores que “doutrinam”, os artistas “decadentes”, os ciganos “que não querem integrar” — todos são transformados em ameaças ao “verdadeiro povo”.
No parlamento, Ventura afirmou que os jornalistas são “cúmplices do caos moral” e propôs cortes no financiamento público a órgãos de comunicação social que “atacassem valores nacionais”. Estas propostas ecoam a censura prévia e os licenciamentos controlados que marcaram a política cultural e mediática do Estado Novo.
Revisitar a História para não a repetir
É precisamente no esquecimento que o autoritarismo encontra terreno fértil. A geração nascida depois de 1990 cresceu sem memória directa da repressão. Para muitos, Salazar é apenas um nome nos manuais. É esse vazio que o Chega procura preencher com narrativas mitificadas de estabilidade, ordem e honra nacional.
A historiadora Irene Pimentel, especialista em fascismos, é clara: “Quando se reabilita o passado sem o confrontar, corre-se o risco de normalizar o inaceitável. Portugal deve lembrar-se de que liberdade, justiça e pluralismo não são dados adquiridos.”
Conclusão: a democracia precisa de vigilância — e de memória
O autoritarismo contemporâneo não chega de botas cardadas. Vem em fato e gravata, com promessas de eficiência e moralidade. O desafio da democracia portuguesa é reconhecer os sinais antes que seja tarde. Não se trata de alarmismo — trata-se de responsabilidade histórica.
Porque, como advertiu Primo Levi, “aconteceu, e pode voltar a acontecer”. E desta vez, talvez, com aplausos.