Resumo
- Lisboa, 13 de Junho de 2025 — Quem ouviu António Leitão Amaro declarar, de semblante compenetrado, que «todos os fenómenos extremistas, sejam de extrema-direita […] ou de extrema-esquerda violenta» grassam por aí, terá imaginado, por momentos, um elefante cor-de-rosa a passear-se pelo Terreiro do Paço.
- Se António Leitão Amaro descobriu brigadas “vermelhas” a incendiar o país, esqueceu-se de avisar a polícia, os tribunais e — já agora — o próprio Ministério da Administração Interna que publica o RASI.
- Se o deputado deseja combater “todos os extremismos”, comece por aceitar a cartografia real da ameaça — e largue o circo cor-de-rosa.
Lisboa, 13 de Junho de 2025 — Quem ouviu António Leitão Amaro declarar, de semblante compenetrado, que «todos os fenómenos extremistas, sejam de extrema-direita […] ou de extrema-esquerda violenta» grassam por aí, terá imaginado, por momentos, um elefante cor-de-rosa a passear-se pelo Terreiro do Paço. O espanto foi tanto que quase se procurou na agenda nacional a data do próximo feriado psicadélico. Afinal, o político social-democrata não só vê perigos onde os relatórios oficiais não os detectam, como empacota tudo na mesma prateleira — com fita adesiva partidária a condizer.
RASI: realidade 1 — fantasia 0
Consultemos o terreno firme dos Relatórios Anuais de Segurança Interna (RASI). Nos últimos dez anos, as páginas sobre extremismo de esquerda citam sobretudo vandalismo disperso e propaganda anarquista; menções a violência organizada digna desse nome são tão raras como rinocerontes albinos em Trás-os-Montes . Se António Leitão Amaro descobriu brigadas “vermelhas” a incendiar o país, esqueceu-se de avisar a polícia, os tribunais e — já agora — o próprio Ministério da Administração Interna que publica o RASI.
Instrumentalização política à vista desarmada
Porque exagerar um fantasma? A resposta cabe num ditado antigo: quando não há lobo, agita-se o casaco para assustar o rebanho. Ao emparelhar graffiti libertário com espancamentos neonazis, o dirigente ensaia uma equivalência moral conveniente: tudo “extremismo”, tudo perigoso, tudo nas mesmas latas. Assim, desvia-se o foco das agressões reais cometidas pela extrema-direita — essas sim, presentes nas estatísticas e nos tribunais — e dilui-se a responsabilidade de combatê-las. Não é retórica inocente; é contabilidade criativa da ameaça pública.
Mentira, vigarice ou simples distracção?
Será ignorância ou cálculo? Quando um deputado experiente mistura factos e fábulas, não se trata de lapso de principiante. A fronteira entre erro e desonestidade intelectual mede-se pela teimosia com que se repete a inverdade depois de corrigida. Leitão Amaro, confrontado com os números, insiste na cassete. É como aquele vizinho que jura ter visto ETs no quintal: a convicção cresce à medida que minguam as provas. Até onde pode ir esta obstinação? Que outros paquidermes fluorescentes esperamos encontrar na próxima conferência de imprensa?
Perigo real: a falsa equivalência
O problema não é meramente semântico. Quando tudo é “extremo”, nada o é verdadeiramente. A equiparação abusiva neutraliza a capacidade do Estado para priorizar recursos contra ameaças concretas; fragiliza ainda a confiança no debate democrático. Se amanhã alguém proclamar que “todos os médicos e charlatães são igualmente perigosos”, que futuro terá o Serviço Nacional de Saúde?
Elefantes, unicórnios e a crueza dos factos
Leitão Amaro pode continuar a ver elefantes cor-de-rosa marchar pela Avenida da Liberdade. Entretanto, o país permanece ancorado nas evidências: violência política com feridos e mortes provém, quase sempre, do lado que agita bandeiras negras ou cruzes célticas, não das assembleias estudantis onde se entoam cantigas de intervenção. Se o deputado deseja combater “todos os extremismos”, comece por aceitar a cartografia real da ameaça — e largue o circo cor-de-rosa.
Quando o ministro imaginário acordar do delírio cromático, descobrirá que o elefante não passou de sombra projectada pela luz crua da demagogia.