Resumo
- É a partir desta amostra que se faz a leitura de toda uma geração — pelo menos, a leitura que circulou em todos os jornais do país.
- A ficha técnica indica que o estudo tem margem de erro de 4,4%, para um intervalo de confiança de 95%.
- O que não diz, com precisão, é se a IL ultrapassou o Livre por 2,5 pontos ou se está empatada.
Sondagens em segmentos jovens: porquê os números que fazem manchete merecem cautela
A queda do Chega entre os 18 e os 34 anos foi calculada em 111 entrevistas. Não em 500. A diferença é decisiva — e raramente explicada nos jornais.
A manchete do Diário de Notícias a 4 de maio era simples: o Chega passou de primeiro a quinto lugar entre os jovens em seis meses. A ficha técnica, como qualquer ficha técnica, vinha em letra mais miúda no fundo da página. Lá estava o número que importa: das 500 pessoas inquiridas pela Aximage, 111 tinham entre 18 e 34 anos.
Cento e onze. É a partir desta amostra que se faz a leitura de toda uma geração — pelo menos, a leitura que circulou em todos os jornais do país. Saber ler este número é literacia cívica. Saber explicá-lo é jornalismo.
A margem que não é a margem
A ficha técnica indica que o estudo tem margem de erro de 4,4%, para um intervalo de confiança de 95%. Esta margem aplica-se ao universo das 500 entrevistas. Não se aplica ao subsegmento dos 111 jovens.
A regra estatística é direta: a margem de erro aumenta à medida que a amostra diminui. Para um subsegmento com 111 inquiridos, a margem real ronda os 9 pontos percentuais. Quase o dobro da margem global.
A pergunta óbvia: então a sondagem está errada? Não. A sondagem está dentro das suas regras. O que está mal é a forma como muitas vezes é lida.
A queda do Chega, de 30,1% para 12,5%, é de 17,6 pontos. Mesmo com margem de erro de nove pontos, não cabe dentro do ruído estatístico. A magnitude diz alguma coisa. O que não diz, com precisão, é se a IL ultrapassou o Livre por 2,5 pontos ou se está empatada. Para diferenças pequenas, no subsegmento, o número não chega.
Cinco perguntas a fazer a qualquer sondagem
Antes de aceitar uma manchete sondagística, vale a pena testar:
Quem encomendou? Sondagens encomendadas por partidos políticos podem ter perguntas formuladas para favorecer respostas. Sondagens encomendadas por órgãos de informação são mais fiáveis na construção, embora estejam sujeitas à interpretação editorial.
Quando foi recolhida? Uma semana em política pode mudar tudo. Verificar a data de recolha — não a data de publicação — é o primeiro reflexo.
Quantas pessoas foram inquiridas? Para o todo nacional, abaixo de 500 começa a haver problemas. Para subsegmentos (jovens, mulheres, eleitores de uma região), é preciso multiplicar a margem de erro pelo factor de redução da amostra.
Qual o método? Telefónica, presencial, online (CAWI). O método CAWI, usado pela Aximage, recolhe respostas por painel online — eficiente, mas com viés conhecido para perfis com maior literacia digital. Não é melhor nem pior, é diferente.
Qual a margem de erro? Aparece sempre na ficha técnica. Aparece raramente na manchete.
O caso do Chega: o que se pode dizer com confiança
A magnitude da quebra é real. O sentido é claro: o Chega perde fortemente entre os jovens. Estes dois pontos sustentam-se com a margem de erro do subsegmento.
A ordenação fina dos restantes — IL em terceiro, Livre em quarto, com diferença de 2,5 pontos — está dentro da margem de erro. A leitura responsável é "IL e Livre em situação semelhante", não "IL ultrapassou Livre".
A direcção é fiável. A precisão de décimas, não. A diferença é a diferença entre informação útil e narrativa apertada.
O que a Entidade Reguladora exige
A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) obriga, em Portugal, à divulgação completa da ficha técnica de qualquer sondagem publicada. Universo, dimensão da amostra, método, taxa de resposta, margem de erro, datas de trabalho de campo, responsável técnico — tudo. As fichas são públicas. Em todos os barómetros referidos neste guia, são acessíveis no portal da ERC ou no rodapé das peças jornalísticas.
A literacia cívica começa aqui: ler a ficha técnica é ato de cidadão informado.
Glossário rápido
CAWI — Computer Assisted Web Interviewing. Inquérito online a painel de respondentes que cumprem quotas demográficas pré-definidas.
Quotas — Sistema de selecção da amostra para reflectir, proporcionalmente, a estrutura demográfica do universo (sexo, idade, região).
Intervalo de confiança — Probabilidade de o resultado real cair dentro da margem indicada. 95% significa que, em 100 sondagens equivalentes, 95 dariam resultado dentro da margem.
Margem de erro — Variação possível, para mais ou para menos, do número apresentado. Aumenta à medida que a amostra diminui.
A próxima sondagem chegará em algumas semanas. Será também publicada com manchete forte. O número 111, ou outro equivalente, estará outra vez no fundo da página. A diferença entre informação e ruído começa onde acaba a manchete.