Jovens e a direita radical na Europa: porque é que Portugal pode estar a ir contra a corrente - Sociedade Civil
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Resumo

  • O fenómeno foi documentado por institutos como o Ifop e o Cevipof, que descreveram o eleitorado RN como progressivamente mais jovem, mais masculino e mais radicado em territórios de baixa densidade.
  • Em Portugal, um eleitor jovem descontente com o status quo tem o Chega — mas tem também a Iniciativa Liberal, que oferece uma narrativa anti-sistémica de matriz liberal e não populista radical.
  • o autoritarismo do Chega — a defesa de Salazar, as referências à "castração química", o conservadorismo nos costumes — pode estar a colidir com uma geração socializada num Portugal democrático consolidado, sem memória directa da ditadura mas com normalização dos valores da liberdade individual.

Jovens e a direita radical na Europa: porque é que Portugal pode estar a ir contra a corrente

Em França, Alemanha, Itália e Áustria, a direita radical consolida ou aumenta o voto jovem. Em Portugal, o Chega caiu de 30,1% para 12,5% entre os 18 e os 34 anos em seis meses. A divergência é tentadora. Não está, ainda assim, confirmada.

O Chega passou de primeiro a quinto lugar entre os jovens portugueses entre outubro de 2025 e abril de 2026, segundo o Barómetro DN/Aximage. Em quase todos os países comparáveis da Europa Ocidental, a direita radical mantém ou expande a sua base juvenil. A diferença salta à vista. A leitura, todavia, exige cuidado.

O padrão europeu

Em França, o Rassemblement National, liderado por Jordan Bardella desde 2022, tornou-se o primeiro partido entre eleitores com menos de 35 anos nas eleições legislativas de 2024. O fenómeno foi documentado por institutos como o Ifop e o Cevipof, que descreveram o eleitorado RN como progressivamente mais jovem, mais masculino e mais radicado em territórios de baixa densidade.

Na Alemanha, a Alternative für Deutschland conquistou em 2025 a sua maior votação histórica entre eleitores entre os 18 e os 24 anos. Em algumas circunscrições do Leste, a AfD chegou aos 35% neste segmento. Estudos publicados pelo Friedrich Ebert Stiftung apontaram para a desconfiança nas instituições e na resposta às migrações como motores da adesão.

Na Itália, a Fratelli d'Italia de Giorgia Meloni mantém uma base juvenil sólida, embora menos marcada do que em França. Na Áustria, o FPÖ liderou as legislativas de 2024 com forte presença entre os mais novos. Na Holanda, o PVV de Geert Wilders também avançou neste escalão.

A excepção portuguesa, a confirmar-se, ficaria por explicar.

Hipóteses para a divergência

A primeira hipótese é estrutural: o sistema partidário português é mais fragmentado à direita do que em França ou Alemanha. Em Portugal, um eleitor jovem descontente com o status quo tem o Chega — mas tem também a Iniciativa Liberal, que oferece uma narrativa anti-sistémica de matriz liberal e não populista radical. Em França, o jovem descontente tem essencialmente o RN. A oferta condiciona a procura.

A segunda hipótese é conjuntural: a campanha presidencial de João Cotrim de Figueiredo, que liderou consistentemente o segmento jovem nas sondagens diárias da Pitagórica em janeiro, deu visibilidade a uma alternativa de direita não-Chega que outros países europeus não têm equivalente.

A terceira hipótese é demográfica: Portugal tem um problema migratório distinto. A imigração não está estruturada em redor de bairros periféricos com tensões securitárias agudas comparáveis às banlieues francesas, aos Plattenbau alemães ou às periferias austríacas. A retórica anti-imigração tem solo menos fértil quando o quotidiano não a confirma.

A quarta hipótese é cultural: o autoritarismo do Chega — a defesa de Salazar, as referências à "castração química", o conservadorismo nos costumes — pode estar a colidir com uma geração socializada num Portugal democrático consolidado, sem memória directa da ditadura mas com normalização dos valores da liberdade individual. É hipótese — não está testada com dados.

O risco da leitura precoce

Antes de decretar excepcionalismo português, valem três cautelas.

Primeira: uma sondagem com 111 jovens não chega para confirmar tendência estrutural. Será preciso ver os próximos três a quatro barómetros e comparar com sondagens não-Aximage para validar.

Segunda: o Chega continua segunda força nacional. A quebra é específica do segmento jovem. Pode tratar-se de redistribuição entre escalões etários, não de erosão geral.

Terceira: a volatilidade do eleitorado jovem é conhecida. O que parece consolidado em abril pode estar dissolvido em outubro. A propagação europeia da direita radical entre jovens demorou mais de uma década a estabilizar. A inversão portuguesa, se for real, não se confirma em seis meses.

O que a história diz

A literatura comparada — Cas Mudde, Pippa Norris, Daphne Halikiopoulou — converge num ponto: a direita radical tende a captar eleitores onde a oferta política tradicional falha em responder a ansiedades materiais e identitárias. Onde existe alternativa de protesto não-radical com tracção, a direita radical tem mais dificuldade em consolidar.

Portugal pode estar a viver esse cenário. Pode também não estar. A Iniciativa Liberal pode estar a absorver os descontentes do Chega — mas pode também perdê-los, em três anos, para uma quinta força que ainda não existe.

A direita radical europeia está, em maio de 2026, mais forte do que há cinco anos. A direita radical portuguesa, neste momento, está a perder o segmento que, em todos os outros países comparáveis, lhe estava a entregar o futuro.

Resta saber se Portugal está a divergir — ou se está apenas a chegar atrasado à mesma rota.

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