Resumo
- Em dezembro de 2025, a assembleia-geral da UER aprovou novas regras de votação e decidiu não reabrir a questão da participação israelita.
- Em fevereiro de 2022, a UER excluiu a Rússia depois da invasão da Ucrânia, alegando que a presença russa colocaria o concurso em descrédito.
- A Amnistia Internacional, a 11 de maio de 2026, chamou à recusa da UER em suspender Israel um ato de cobardia e um duplo padrão flagrante.
A União Europeia de Radiodifusão excluiu a Rússia da Eurovisão depois da invasão da Ucrânia. Em 2026, manteve Israel em competição apesar das conclusões de organismos da ONU sobre Gaza. A diferença já não é possível esconder atrás da palavra “apolítico”.
Em dezembro de 2025, a assembleia-geral da UER aprovou novas regras de votação e decidiu não reabrir a questão da participação israelita. A consequência prática foi clara: Israel manteve-se na Eurovisão 2026, em Viena. Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia retiraram-se.
Portugal ficou. A RTP confirmou a participação e afirmou ter votado a favor das novas regras. Tecnicamente, não foi um voto direto “Israel sim” ou “Israel não”. Politicamente, a decisão produziu esse efeito.
A Rússia saiu em 72 horas
Em fevereiro de 2022, a UER excluiu a Rússia depois da invasão da Ucrânia, alegando que a presença russa colocaria o concurso em descrédito. A decisão foi rápida e inequívoca. O argumento não foi musical. Foi político.
É essa memória que torna 2026 tão incómodo. A UER insiste que a Eurovisão é cultural e neutra. Mas a própria instituição já mostrou que, perante determinada guerra e determinada pressão europeia, sabe agir politicamente.
A palavra que pesa
A 16 de setembro de 2025, a Comissão Independente de Inquérito da ONU sobre os Territórios Palestinianos Ocupados concluiu que Israel cometeu genocídio contra palestinianos em Gaza. Israel rejeita a acusação. O Tribunal Internacional de Justiça ainda não julgou o mérito da ação apresentada pela África do Sul. Mas o limiar político do debate mudou.
A Amnistia Internacional, a 11 de maio de 2026, chamou à recusa da UER em suspender Israel um ato de cobardia e um duplo padrão flagrante. A formulação é dura. O precedente russo torna-a difícil de descartar.
Portugal escolheu não romper
A decisão portuguesa abriu fratura interna. Dezassete artistas do Festival da Canção anunciaram que não representariam Portugal caso vencessem a seleção nacional. Trabalhadores da RTP voltaram a pedir boicote em maio, numa carta dirigida à administração e a responsáveis políticos.
A RTP pode invocar regras, contratos e neutralidade. Pode também dizer que a sua posição acompanhou a maioria da UER. Mas serviço público não é apenas seguir a maioria institucional. É também explicar ao público quando a neutralidade serve para evitar uma escolha moral.
O que está em causa não é uma canção. É a capacidade de uma instituição cultural europeia aplicar a mesma régua quando o custo político muda.
Fontes públicas consultadas
- Amnistia Internacional, 11 de maio de 2026
- ESC Portugal: RTP confirma participação em 2026
- EFE: Israel participa; emissoras retiram-se
- The Guardian: países retiram-se após Israel ser autorizado a competir
- ONU: Comissão de Inquérito conclui genocídio em Gaza
- RTP/Lusa: 17 artistas recusam representar Portugal
- El País: trabalhadores da RTP pedem boicote