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Resumo

  • Entre bombardeamentos, colapsos de edifícios e despedidas em directo, a sua presença nas plataformas digitais redefine a cobertura da guerra e confronta o conforto editorial da imprensa ocidental.
  • Fazem parte de uma geração nativa digital que domina a estética da rede, a dinâmica do algoritmo e o poder do storytelling em tempo real.
  • Os seus conteúdos ignoram o “equilíbrio editorial” e denunciam directamente a brutalidade dos ataques a Gaza, as falhas humanitárias e a cumplicidade do silêncio mediático.


“Se eu não mostrar, quem vai mostrar?”

Bisan Owda, influenciadora palestiniana, em vídeo gravado sob bombardeamento.

Num mundo saturado de desinformação e dependente dos média tradicionais para compreender conflitos complexos, um novo tipo de jornalista emergiu — espontâneo, jovem e implacavelmente directo. São os influenciadores palestinianos, oriundos da Faixa de Gaza, que arriscam a vida todos os dias para contar o que não aparece nos telejornais. Com um smartphone na mão e o terror à porta, criam contra-narrativas cruas que atravessam o mundo em segundos.

Neste artigo, traçamos o perfil de dois dos mais reconhecidos: Bisan Owda e Motaz Azaiza, cujos testemunhos tornaram-se virais e incontornáveis nas redes. Entre bombardeamentos, colapsos de edifícios e despedidas em directo, a sua presença nas plataformas digitais redefine a cobertura da guerra e confronta o conforto editorial da imprensa ocidental.

Vozes que não pedem licença

Bisan Owda, 25 anos, comunicadora visual e activista. Desde Outubro de 2023, tornou-se uma das principais vozes a documentar o dia-a-dia em Gaza. A sua conta de Instagram ultrapassa os 2 milhões de seguidores, mas o tom permanece íntimo e urgente: “Acabaram-se as pilhas. Acabou a comida. Continuo a filmar, porque morrer calada é morrer duas vezes.”

Motaz Azaiza, fotógrafo humanitário, ganhou visibilidade global com os seus vídeos em TikTok, onde combina sarcasmo, denúncia e resiliência. Aos 24 anos, já perdeu colegas, amigos e familiares — e foi forçado a sair de Gaza em Janeiro de 2024, após ameaças directas. Num dos seus vídeos mais partilhados, diz: “Não sou influencer, sou testemunha.”

Ambos recusam o rótulo de vítimas passivas. Fazem parte de uma geração nativa digital que domina a estética da rede, a dinâmica do algoritmo e o poder do storytelling em tempo real.

O que os diferencia dos média tradicionais?

Os vídeos de Bisan e Motaz não passam por editores, não seguem guião. O filtro é a urgência. O cenário é o caos. Os seus conteúdos ignoram o “equilíbrio editorial” e denunciam directamente a brutalidade dos ataques a Gaza, as falhas humanitárias e a cumplicidade do silêncio mediático.

Estes jovens são simultaneamente repórteres, protagonistas e operadores de câmara. A emoção não é retirada — é parte do conteúdo. O impacto? Centenas de milhares de partilhas, legendas em mais de 20 idiomas e pressão crescente sobre governos e agências noticiosas internacionais.

Em entrevista à Al Jazeera, um analista digital descreveu-os como “as únicas fontes credíveis para milhões de jovens que já não confiam na CNN ou na BBC”.

O algoritmo como arma (e escudo)

O alcance destes influenciadores deve-se, em grande parte, ao uso estratégico das plataformas. TikTok, Instagram e Twitter/X tornaram-se os campos de batalha informacional, onde hashtags como #GazaUnderAttack ou #CeasefireNow acumulam centenas de milhões de visualizações.

Segundo dados da SocialBlade e do Crowdtangle, entre Outubro de 2023 e Março de 2024:

  • Vídeos de Motaz Azaiza atingiram mais de 100 milhões de visualizações.
  • Postagens de Bisan Owda chegaram a 80 países e foram traduzidas por comunidades voluntárias.
  • O envolvimento de jovens entre os 18 e os 30 anos duplicou nas páginas que transmitiam conteúdos não mediados.

Este fenómeno inquieta governos e plataformas. Em Dezembro de 2023, TikTok foi acusado por senadores norte-americanos de “permitir a propagação de propaganda anti-Israel” — uma referência directa à popularidade destes criadores. A resposta das plataformas foi mista: algumas postagens foram desmonetizadas, outras apagadas sem justificação clara.

Os riscos são reais

Ser influencer palestiniano em Gaza é, literalmente, um acto de sobrevivência. Muitos destes criadores:

  • Operam sem segurança ou abrigo adequado;
  • Enfrentam ameaças diretas de exércitos e milícias;
  • Vêem os seus conteúdos removidos por censura algorítmica;
  • São perseguidos por associações de vigilância digital ligadas a lobbies internacionais.

Motaz Azaiza foi alvo de campanhas de difamação online e teve de abandonar Gaza com apoio de organizações humanitárias. Bisan Owda continua activa, mas com acessos intermitentes à internet, alimentação limitada e stress pós-traumático visível nos seus vídeos.

Segundo a Repórteres Sem Fronteiras, o novo paradigma dos “jornalistas cidadãos” obriga à criação de protocolos de segurança digital e protecção internacional — algo que ainda está por nascer.

O impacto na opinião pública

O conteúdo destes influencers alterou o panorama do consumo noticioso entre jovens. Um inquérito da Harvard Kennedy School, realizado em Fevereiro de 2024, revelou que:

  • 64 % dos inquiridos entre 18 e 29 anos confiam mais nas redes sociais para obter informações sobre Gaza do que em jornais tradicionais;
  • 71 % reconhecem Bisan Owda ou Motaz Azaiza como fontes informativas;
  • 82 % afirmam que mudaram de opinião sobre o conflito após contacto com conteúdo directo vindo de Gaza.

Para muitos, estas vozes não representam apenas resistência mediática — representam a humanização de uma população constantemente desumanizada pelos discursos políticos e jornalísticos do Ocidente.

Epílogo: a memória guardada na nuvem

Numa das últimas publicações antes de ser evacuado, Motaz Azaiza escreveu:
 “Levem as minhas imagens como prova. A história está nos nossos olhos, não nas vossas manchetes.”

A geração dos influencers palestinianos não pede espaço — ocupa-o com urgência, disruptivamente. Enquanto drones sobrevoam Gaza, drones digitais sobrevoam os ecrãs do mundo, com relatos crus, imperfeitos e insubstituíveis.

São a contra-narrativa em primeira pessoa. E não vão parar.

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