Resumo
- Três crianças relatam como a demolição de quase metade do Campo de Refugiados de Jenin lhes esfarelou a casa, o recreio e a confiança no futuro.
- Em apenas dez dias, o número de famílias a dormir fora do campo duplicou.
- Equipas móveis da Médecins Sans Frontières prestaram apoio psicológico a 576 deslocados de Jenin e Tulkarm só em Março.
Três crianças relatam como a demolição de quase metade do Campo de Refugiados de Jenin lhes esfarelou a casa, o recreio e a confiança no futuro.
Entre o pó e o silêncio
Amina espreita o pátio onde a avó plantava salsa. Resta um tapete de tijolo partido. “A noite cheira sempre a fumo”, sussurra, agarrada a um caderno escolar resgatado dos escombros. A criança vive agora num quarto emprestado na cidade vizinha; regressa ao campo apenas para procurar fotografias que o exército não levou. Quantas memórias cabem numa mochila?
Samer, coroado de poeira branca, brinca com pedaços de estuque como se fossem carros. “Este é o autocarro da escola”, explica. Mas a escola onde aprendeu a escrever foi usada como posto militar durante as incursões de Fevereiro. Yazan filma tudo com um telemóvel antigo: “Se ninguém mostrar, dizem que é mentira.” A vergonha muda de lado quando o silêncio cede ao vídeo.
Roupas penduradas entre paredes derrubadas, risos que soam ocos — pode uma infância sobreviver num cenário de guerra doméstica?
Um campo que encolheu 43 %
Imagens de satélite da UNOSAT confirmam 125 prédios destruídos, 101 severamente danificados e 322 com estragos moderados – 548 estruturas no total, 43 % da malha original do campounosat.org. O betão tombou a uma distância que, antes, se percorria num pontapé de bola. Estradas alargadas por bulldozers cortam quarteirões ao meio; árvores frutícolas viraram barricadas. Quem ousa chamar “alvo legítimo” a um bloco onde vivem 25 famílias?
Ao abrigo da noite, retroescavadoras continuam a trabalhar. “Cada manhã acordamos com menos vizinhos”, diz Abu Hassan, dirigente comunitário. Em apenas dez dias, o número de famílias a dormir fora do campo duplicou.
Escola em exílio
Desde 21 Janeiro, a operação “Iron Wall” empurrou mais de 40 000 refugiados palestinianos – metade crianças – para abrigos improvisados em Jenin, Tulkarm e localidades circundantesOCHA Território Palestiniano Ocupado. OCHA regista acesso «severamente interrompido» a escolas: checkpoints bloqueiam estradas, professores percorrem rotas secundárias ou desistem. Até Abril, seis escolas permaneciam encerradas; outras funcionam em regime remoto, dependentes de electricidade instável.
Yazan partilha um vídeo onde colegas recitam poesia em voz trémula, via telemóvel. “Falham ligações, mas pelo menos ouvimo-nos”, suspira. No entanto, 29 % dos alunos entrevistados por ONGs locais já não frequentam qualquer modalidade de ensino – muitos ajudam a família a procurar alojamento ou rendimentos temporários.
Que futuro cabe a uma geração que troca a mochila por pás de escombro?
Os fantasmas da noite
Equipas móveis da Médecins Sans Frontières prestaram apoio psicológico a 576 deslocados de Jenin e Tulkarm só em Março; 83 % revivem traumas herdados de 1948, agora agravados por demolições e recolher obrigatóriomsf.org. Nos registos clínicos multiplicam-se insónia, mutismo selectivo e dores sem causa orgânica.
Amina conta que acorda sempre às 2 h07 – “a hora em que a casa foi mordida pelo tanque”. Samer molha a almofada antes de adormecer para não ouvir «o barulho da parede a estalar». Psicólogos locais descrevem «paralisia do projecto de vida»: crianças incapazes de imaginar o próximo aniversário. Será possível reconstruir paredes sem antes colar sonhos?
Recomeçar ou partir?
As famílias dividem-se entre reconstruir no mesmo solo ou migrar para sempre. Abu Hassan exibe ordens de demolição adicionais: «Mesmo quem queira reconstruir não tem garantias de ficar.» Agências humanitárias avisam que materiais de construção não entram no campo desde Março. “Enviam tendas; nós precisamos de betão e cadernos”, protesta a mãe de Yazan.
Quantas vezes pode um lar ser varrido antes de desistirmos da palavra voltar?
Conclusão – Ruínas não contam tudo
Jenin é hoje uma cidade amputada, mas o maior rombo não se mede em metros cúbicos de entulho: mede-se em projectos de vida suspensos. Amina, Samer e Yazan continuam a inventar jogos no intervalo entre sirenes. Cada riso resiste como denúncia e esperança. A comunidade internacional tem outra oportunidade para agir; quantas faltas graves mais tolerará sobre a caderneta das crianças palestinianas?