Resumo
- Um trabalho de André Freire, com dados do Portuguese National Election Study entre 2002 e 2022, mostra que as eleições se tornaram ideologicamente mais marcadas, sobretudo com a entrada de novos partidos à direita e à esquerda.
- Outro estudo, que criou um Discourse Polarization Index a partir de discursos parlamentares e mensagens no Twitter, conclui que a polarização discursiva em Portugal aumentou entre 2015 e 2021, tanto entre elites como entre utilizadores de redes, com um comportamento semelhante dos dois grupos.
- Um estudo desenvolvido na Escola Superior de Educação de Coimbra, com jovens eleitores, conclui que indivíduos com atitudes populistas têm 27% mais probabilidade de exibir polarização afetiva, e que o apoio a narrativas da direita radical, como discursos anti “ideologia de género”, aumenta em cerca de 28% os níveis de hostilidade face ao “outro lado”.
No telejornal, as discussões parecem cada vez mais ásperas. Nas redes sociais, os insultos voam. Em cafés e almoços de família, há temas proibidos “para evitar chatices”. Mas será que Portugal está mesmo a ficar polarizado, ou confundimos barulho com realidade?
A resposta curta é menos dramática do que os timelines sugerem: há sinais de polarização em crescimento em certos espaços – elites, redes sociais, alguns grupos mais jovens – mas o país continua, no conjunto, menos dividido do que muitas democracias vizinhas. ciencia.iscte-iul.pt+2Repositório Iscte+2
Ideias mais afastadas, partidos mais marcados – mas não em guerra civil
Vários estudos de ciência política analisam a polarização ideológica (distância entre esquerda e direita) com base em programas partidários e inquéritos eleitorais. Um trabalho de André Freire, com dados do Portuguese National Election Study entre 2002 e 2022, mostra que as eleições se tornaram ideologicamente mais marcadas, sobretudo com a entrada de novos partidos à direita e à esquerda; quando a oferta se diferencia, a ideologia pesa mais no voto. ciencia.iscte-iul.pt
Outro estudo, que criou um Discourse Polarization Index a partir de discursos parlamentares e mensagens no Twitter, conclui que a polarização discursiva em Portugal aumentou entre 2015 e 2021, tanto entre elites como entre utilizadores de redes, com um comportamento semelhante dos dois grupos. Repositório Iscte
Micro-história: Miguel, 24 anos, diz votar “sempre à esquerda” e segue sobretudo contas desse espectro no X e no Instagram. A sua melhor amiga, Sofia, 25, aproxima-se da direita radical e consome canais e páginas alinhadas com esse campo. No jantar de anos, evitam falar de política – não porque se odeiem, mas porque cada uma sente que a outra já vive num país diferente, construído por algoritmos diferentes.
Affective polarization: quando o problema não é discordar, é detestar
Mais preocupante do que afastamento ideológico é a chamada polarização afetiva – a hostilidade emocional em relação a quem pensa diferente.
Um estudo desenvolvido na Escola Superior de Educação de Coimbra, com jovens eleitores, conclui que indivíduos com atitudes populistas têm 27% mais probabilidade de exibir polarização afetiva, e que o apoio a narrativas da direita radical, como discursos anti “ideologia de género”, aumenta em cerca de 28% os níveis de hostilidade face ao “outro lado”. esec.pt
Outra dissertação, na Universidade Lusófona, sobre desinformação e polarização política entre estudantes, encontra um padrão conhecido: consumo intensivo de conteúdos conspirativos e de páginas altamente partidárias está associado a maior intolerância e erosão da confiança em media e instituições. recil.ulusofona.pt+1
Concessão honesta: estas investigações olham para segmentos específicos (jovens universitários, utilizadores intensivos de redes) e não permitem generalizar para todo o país. Mas funcionam como um sismógrafo: mostram onde o terreno começa a tremer primeiro.
E o resto do país? Entre a fadiga e o “não quero saber”
Ao mesmo tempo, sondagens interpartidárias do ICS/ISCTE e da imprensa internacional mostram outra face: percentagens recorde de indecisos, muitas pessoas que se declaram “sem simpatia partidária” e uma fatia não negligenciável que diz pura e simplesmente “não se interessa por política”. Reuters+1
É aqui que entra a objeção do leitor: “Se estamos tão polarizados, porque é que tanta gente diz que não sabe em quem votar?”
Precisamente porque, em Portugal, a polarização coexistem com cansaço. Em vez de dois blocos homogéneos em guerra permanente, temos:
- núcleos mais engajados, onde a hostilidade esquerda–direita é mais intensa;
- uma periferia larga de cidadãos que se afastam do debate, por saturação ou descrença. Iscte+2CIES-Iscte+2
Micro-história: Teresa, 50 anos, mudou de canal quando o debate político começou a aquecer. “São sempre os mesmos a gritar”, diz. Votou a vida toda, mas nas últimas legislativas ficou em casa – “não é por ser de esquerda ou direita, é porque já não vejo para quê”.
Há dados ou só perceções?
Se tivéssemos de resumir o que a investigação diz sobre polarização Portugal, seria algo assim:
- Não vivemos uma polarização à americana – não há duas metades irredutíveis a odiar-se em bloco, nem uma geografia política partida ao meio;
- Houve, sim, aumento de polarização discursiva e afetiva em certos espaços (parlamento, redes, alguns segmentos da juventude), muito ligada a novas forças populistas, retórica agressiva e câmaras de eco digitais; Repositório Iscte+2esec.pt+2
- Uma parte grande do país continua mais preocupada com salários, habitação e serviços públicos do que em travar guerras culturais – e é precisamente essa parte que corre risco de desistir da política. Iscte+2Reuters+2
Concessão honesta final: medir polarização é difícil. Diferentes estudos usam definições e indicadores variados; os dados portugueses ainda são escassos e dispersos. Não há hoje um “índice oficial de polarização” que possamos seguir todos os anos como seguimos o desemprego. ciencia.iscte-iul.pt+2Repositório Iscte+2
Ainda assim, há uma frase que talvez nos ajude a recentrar a discussão: o risco não é termos opiniões diferentes – é perdermos a capacidade de falar uns com os outros sem nos tratarmos como inimigos.
Quando o debate público se transforma em gritaria permanente e o resto do país se cala por exaustão, a polarização deixa de ser só perceção – torna-se, devagar, o novo normal.