Resumo
- Segundo dados da UNICEF actualizados a 15 de Julho de 2025, mais de 14 mil crianças palestinianas morreram desde o início da ofensiva israelita em Outubro de 2023.
- Histórias como a de Fátima al‑Kurd, professora primária do campo de Nuseirat que viu um mísil matar a filha de sete meses, Maryam, e a enterrou num cobertor porque não havia lençóis, repetem‑se por todo o enclave.
- A directora da UNICEF, Catherine Russell, considera Gaza o lugar mais perigoso do mundo para uma criança, e o secretário‑geral António Guterres fala de uma “catástrofe moral da nossa geração”.
Gaza tornou‑se num cemitério de crianças. Sob escombros, pais escrevem nomes de filhos em sacos de plástico e embalam bebés em tendas escuras. Segundo dados da UNICEF actualizados a 15 de Julho de 2025, mais de 14 mil crianças palestinianas morreram desde o início da ofensiva israelita em Outubro de 2023; dezenas de milhares ficaram feridas ou amputadas, e centenas continuam desaparecidas. As crianças representam cerca de 38 % das vítimas civis, um recorde negro na história dos conflitos modernos. Médicos e organizações humanitárias falam numa “guerra contra a infância” que não poupa sequer quem tenta salvar vidas – pelo menos 249 trabalhadores humanitários já foram mortos.
A violência destrói mais do que corpos. Histórias como a de Fátima al‑Kurd, professora primária do campo de Nuseirat que viu um mísil matar a filha de sete meses, Maryam, e a enterrou num cobertor porque não havia lençóis, repetem‑se por todo o enclave. Jornalistas locais registam dezenas de enterros infantis por dia e não há espaço para novas sepulturas. A mortalidade não resulta apenas dos bombardeamentos: a destruição de hospitais, a falta de combustível, vacinas e antibóticos e a desnutrição severa provocam um colapso sistémico. Gémeas recém‑nascidas morreram de hipotermia porque não havia aquecimento nem alimentos básicos.
Nos hospitais que restam, os médicos praticam uma “medicina do desespero”: operam sem oxigénio nem anestesia, desinfectam bisturis com vodka e diluem soro fisiológico para multiplicar o pouco que resta. O pediatra português Luís Sequeira, voluntário dos Médicos do Mundo, relata mães a pedir para morrer com os filhos e crianças que desenham os seus próprios funerais nas paredes das tendas. A UNICEF calcula que mais de 17 mil crianças ficaram órfãs; adolescentes cuidam de bebés e até os bebés aprenderam a não chorar para não atrair drones.
Além de matar crianças, a guerra alveja quem as socorre. Ataques deliberados destruíram ambulâncias, clínicas, escolas da ONU e centros de distribuição de alimentos; dezenas de trabalhadores humanitários foram mortos apesar de coordenarem previamente os seus movimentos com o exército israelita. A directora da UNICEF, Catherine Russell, considera Gaza o lugar mais perigoso do mundo para uma criança, e o secretário‑geral António Guterres fala de uma “catástrofe moral da nossa geração”. Contudo, as resoluções de protecção aprovadas por esmagadora maioria na Assembleia‑Geral da ONU esbarram no veto dos Estados Unidos e na inércia europeia no Conselho de Segurança. Em Portugal, multiplicam‑se vigílias e mensagens solidárias, mas continuam insuficientes face à magnitude da tragédia.
As consequências vão perdurar. Nos desenhos das crianças deslocadas aparecem tanques, casas destruídas e lágrimas; já não sonham com futebol ou bonecas, mas com janelas, arroz e silêncio. Psicólogos alertam para um trauma transgeracional que poderá marcar a Palestina e a relação do mundo com ela por décadas. Proteger as crianças de Gaza não é apenas uma urgência humanitária; é uma exigência civilizacional. Sem acção imediata, uma geração inteira crescerá entre o luto e a raiva, incapaz de acreditar na paz.