Remigração: o eufemismo limpo para uma política suja - Sociedade Civil
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Resumo

  • O evento foi anunciado para o Porto, mas a RTP noticiou a mudança de última hora para a Figueira da Foz.
  • O Institute for Strategic Dialogue associa a “remigração”, nos círculos da extrema-direita, à deportação forçada de comunidades migrantes para criar sociedades etnicamente ou culturalmente homogéneas, e liga-a à teoria conspirativa da “grande substituição”, usada por movimentos identitários para recrutar apoiantes através da ideia de que as identidades nacionais europeias estariam sob ameaça migratória.
  • Segundo o DN, é uma das figuras que popularizou o termo “remigração” na Europa, teve entrada negada nos Estados Unidos e no Reino Unido e foi expulso da Suíça em 2024.

A extrema-direita europeia trouxe a Portugal, a 30 de maio de 2026, uma cimeira dedicada à “remigração”: palavra de verniz administrativo para uma agenda de expulsão em massa de imigrantes, descendentes de imigrantes e pessoas naturalizadas vistas como “não assimiladas”. O evento foi anunciado para o Porto, mas a RTP noticiou a mudança de última hora para a Figueira da Foz. A própria página oficial continuava a apresentar o encontro como marcado para “Porto, Portugal”, entre as 10h30 e as 20h00. (Remigration Summit)

Não estamos perante um debate técnico sobre vistos, fronteiras ou capacidade administrativa. Estamos perante uma tentativa de deslocar a janela moral da democracia: fazer soar razoável aquilo que, dito sem disfarce, se chamaria perseguição coletiva.

A palavra foi escolhida para esconder a violência

Na página oficial da Remigration Summit, os organizadores definem “remigração” como um conjunto de políticas para inverter fluxos migratórios, defender a “especificidade etnocultural” dos países e atuar sobre três grupos: imigrantes em situação irregular, imigrantes legais considerados “nocivos” e migrantes naturalizados classificados como “não assimilados”. (Remigration Summit)

A linguagem é estudada. Não fala de expulsar vizinhos, colegas de trabalho, crianças nascidas cá ou famílias com vida feita em Portugal. Fala de “rearmonizar” a nação. Não fala de raça; fala de cultura. Não fala de limpeza; fala de ordem.

É assim que o racismo se moderniza: troca a bota pela gravata e o insulto pelo PowerPoint.

O Institute for Strategic Dialogue associa a “remigração”, nos círculos da extrema-direita, à deportação forçada de comunidades migrantes para criar sociedades etnicamente ou culturalmente homogéneas, e liga-a à teoria conspirativa da “grande substituição”, usada por movimentos identitários para recrutar apoiantes através da ideia de que as identidades nacionais europeias estariam sob ameaça migratória. (Institute for Strategic Dialogue)

Portugal entrou no roteiro

A cimeira foi promovida pelo movimento Reconquista, ligado a Afonso Gonçalves, e juntou figuras internacionais do circuito identitário e anti-imigração. O Diário de Notícias identificou, entre os nomes anunciados, Martin Sellner, Eva Vlaardingerbroek e Dries Van Langenhove; o mesmo jornal noticiou ainda Gregory Bovino, antigo responsável norte-americano de operações migratórias, como orador-surpresa. (Diário de Notícias)

Sellner não é um conferencista neutro sobre política pública. Segundo o DN, é uma das figuras que popularizou o termo “remigração” na Europa, teve entrada negada nos Estados Unidos e no Reino Unido e foi expulso da Suíça em 2024. Van Langenhove, também segundo o DN, viu confirmada na Bélgica uma pena suspensa e multa por violação de leis contra racismo e negacionismo do Holocausto. (Diário de Notícias)

A presença destas figuras em Portugal não transforma automaticamente o país num centro internacional da extrema-direita. Mas mostra uma coisa mais grave: Portugal deixou de ser periférico para estas redes. Serve-lhes de palco, de teste e de fotografia.

A objeção existe. E deve ser respondida

Há quem argumente que proibir ou contestar um evento destes abre uma porta perigosa contra a liberdade de expressão. A objeção não é frívola.

Numa democracia, a lei não pune ideias por serem repugnantes. A Constituição protege a liberdade de reunião. A fronteira penal exige atos, palavras, organização, propaganda e efeitos concretos. A zona cinzenta existe — e convém não fingir o contrário.

Mas liberdade de expressão não obriga a sociedade a tratar uma agenda de expulsão étnica como se fosse uma mesa-redonda sobre administração pública. O Diário da República lembra que o artigo 46.º da Constituição interdita organizações racistas ou que perfilhem ideologia fascista; e o artigo 240.º do Código Penal pune a discriminação e o incitamento ao ódio ou à violência por motivos como origem étnica, nacionalidade, religião ou cor.

Entre censurar opinião e normalizar desumanização há um dever democrático: escrutinar, nomear, responsabilizar.

Os dados desmontam a fábula da invasão

A narrativa da “remigração” vive de uma encenação: a de que os imigrantes são uma ameaça homogénea, coordenada, quase militar. Os números contam uma história mais concreta.

A AIMA registava 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes em Portugal a 31 de dezembro de 2024, num país onde a imigração cresceu de forma acentuada nos últimos anos. Esse dado exige políticas públicas sérias: habitação, trabalho, escola, serviços, fiscalização laboral, integração linguística e combate à exploração. (AIMA)

O que não exige é transformar pessoas em corpo estranho.

Em 2025, segundo relatório do Observatório das Migrações citado pela RTP/Lusa, os imigrantes representaram 14% das contribuições para a Segurança Social, com mais de 4,15 mil milhões de euros pagos ao sistema e um saldo líquido positivo de cerca de 3,33 mil milhões de euros entre contribuições e prestações. (RTP)

Estes números não fazem dos imigrantes santos nem escudos económicos. Fazem deles o que sempre foram: pessoas. Trabalham, pagam, adoecem, estudam, erram, criam filhos, envelhecem. A política democrática lida com pessoas. A extrema-direita lida com categorias.

O papel da sociedade civil

O SOS Racismo pediu a proibição do encontro e classificou-o como promoção da deportação em massa com base em critérios étnicos e raciais. A associação apelou também à mobilização da sociedade civil e criticou o silêncio institucional. (SOS Racismo)

Essa mobilização não se esgota num protesto à porta de uma cimeira. Tem de entrar nas escolas, nos locais de trabalho, nas autarquias, nos sindicatos, nas redações, nos tribunais e nas plataformas digitais.

A resposta antirracista não é repetir “somos todos iguais” até a frase perder sangue. É proteger quem está sob ataque. É desmontar a mentira antes de ela virar senso comum. É exigir que o Estado aplique a lei quando a propaganda organizada passa a incitamento. É recusar que crianças, trabalhadores e famílias sejam tratadas como resíduos demográficos.

Portugal não precisa de escolher entre fronteiras sem regras e fronteiras por raça. Essa escolha é falsa — e foi desenhada para nos empurrar para o medo.

A pergunta que fica não é se a extrema-direita tem direito a reunir-se. A pergunta é se a democracia portuguesa percebe que estes encontros não procuram entrar no debate: procuram mudar o significado de humanidade.

Quem desumaniza primeiro, legisla depois.


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