Resumo
- Quando os herdeiros da memória apontam o dedoEm Junho de 2025, duas das mais prestigiadas organizações israelitas de direitos humanos — a B’Tselem e a PHRI — quebraram um tabu nacional.
- A Convenção da ONU sobre o Genocídio, de 1948, foi escrita com os ecos de Auschwitz ainda a pairar sobre a Europa.
- No ano passado, mais de 600 sobreviventes e descendentes assinaram uma carta a denunciar as atrocidades em Gaza, chamando-as “um crime contra a humanidade que trai o espírito do povo judeu”.
Há palavras que carregam o peso de séculos. Nenhuma, porém, tão densa, tão incontornável, tão sagrada como “genocídio” no imaginário colectivo israelita. Trata-se de um termo mais que jurídico: é existencial. Está gravado nos ossos da nação, nas pedras de Yad Vashem, nas preces dos sobreviventes, nos manuais escolares, nos alicerces do Estado.
Usar essa palavra contra o próprio Israel? Um acto quase impensável. Até agora.
Quando os herdeiros da memória apontam o dedo
Em Junho de 2025, duas das mais prestigiadas organizações israelitas de direitos humanos — a B’Tselem e a PHRI — quebraram um tabu nacional. Acusaram o Estado de Israel de cometer genocídio contra os palestinianos na Faixa de Gaza. A escolha do termo não foi retórica. Foi legal, factual e, acima de tudo, moral.
“O uso do termo ‘genocídio’ por organizações judaicas israelitas tem um impacto sísmico. Porque rompe o pacto de silêncio que a memória do Holocausto impôs à crítica interna”, explica o historiador e escritor Tom Segev.
Não se trata de comparar horrores, mas de aplicar uma definição que nasceu do próprio trauma judaico. A Convenção da ONU sobre o Genocídio, de 1948, foi escrita com os ecos de Auschwitz ainda a pairar sobre a Europa. O seu principal redactor, Raphael Lemkin, era um jurista judeu polaco.
A palavra sagrada: entre identidade e blindagem
Durante décadas, o termo “genocídio” foi usado por Israel sobretudo como ferramenta de identidade e sobrevivência. Serviu para justificar a criação do Estado, para cimentar a ideia de excepção histórica e para blindar as suas políticas externas. Criticar Israel tornou-se, muitas vezes, sinónimo de relativizar o Holocausto — uma manobra discursiva eficaz, mas eticamente controversa.
“A dor judaica transformou-se numa imunidade política. E isso é compreensível, mas perigoso”, observa Avraham Burg, ex-presidente da Knesset e activista pela paz.
Nos currículos escolares israelitas, o Holocausto é apresentado como o ponto zero da história moderna judaica. A sobrevivência colectiva tornou-se imperativo moral. Mas, com o tempo, essa pedagogia da dor foi convertida em doutrina defensiva — muitas vezes à custa da empatia pelo sofrimento alheio.
Gaza: a ruptura semântica
Ao usar o termo “genocídio” para descrever a situação em Gaza, as ONGs israelitas provocaram uma ruptura sísmica. Quebraram o monopólio histórico da palavra. Pela primeira vez, “genocídio” deixa de ser um espelho retrovisor e passa a ser um alerta presente — e interno.
“Não é o mundo a chamar-nos genocidas. Somos nós a reconhecer que cruzámos linhas morais”, afirmou Yael Stein, da B’Tselem.
Esta inversão é profundamente disruptiva. Obriga a sociedade israelita a confrontar a sua própria narrativa fundadora. A olhar-se ao espelho da história com honestidade brutal.
A ética do Nunca Mais
Durante décadas, o slogan “Nunca Mais” foi usado como promessa: nunca mais para os judeus. Mas há quem defenda que ele precisa de ser reescrito: “Nunca mais para ninguém.” Entre os sobreviventes do Holocausto ainda vivos, há vozes que ecoam essa reformulação.
No ano passado, mais de 600 sobreviventes e descendentes assinaram uma carta a denunciar as atrocidades em Gaza, chamando-as “um crime contra a humanidade que trai o espírito do povo judeu”.
“Fomos perseguidos por sermos desumanizados. Não podemos, agora, aceitar que em nosso nome outros sejam tratados como não-humanos”, dizia a carta.
Entre a negação e o despertar
A reacção do establishment israelita foi previsível: descredibilização das ONGs, acusação de auto-ódio, evocação de segurança nacional. Mas algo mudou. Nos media alternativos, nas universidades, em círculos da juventude secular, a discussão começou a abrir brechas. Pela primeira vez em décadas, falar de genocídio no presente deixou de ser blasfémia.
“O termo genocídio deixa de ser um exclusivo da memória e passa a ser uma ferramenta de crítica ética real”, afirma a filósofa política Eva Illouz.
Não é uma mudança superficial. É uma inflexão histórica. Porque mexe na fundação moral do Estado. Porque desafia o pacto intergeracional de silêncio. Porque questiona se a lição do Holocausto foi, de facto, aprendida — ou apenas instrumentalizada.
Um espelho estilhaçado
A palavra “genocídio” está agora no centro do debate israelita — não como ameaça externa, mas como diagnóstico interno. O que fazer com ela? Silenciá-la? Criminalizá-la? Reformulá-la?
Ou aceitá-la, com tudo o que ela implica: arrependimento, justiça, mudança?
“O Holocausto não nos deu um cheque em branco para sempre”, disse o escritor David Grossman. “Deu-nos, isso sim, a obrigação de sermos os primeiros a reconhecer quando estamos a falhar.”
Em tempos de barbárie, até as palavras precisam de coragem. E, talvez, entre os escombros de Gaza e as feridas de Israel, esteja a nascer uma nova gramática da consciência.
[Fontes e referências:]
Raphael Lemkin, “Axis Rule in Occupied Europe”
Entrevistas com Tom Segev, Eva Illouz e Avraham Burg
Relatórios da B’Tselem e PHRI
Carta de sobreviventes do Holocausto, agosto de 2024