Quem é Gonçalo Castel-Branco, o produtor que recebeu 75 mil euros - Sociedade Civil
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Resumo

  • Ou o promotor sabia para que precisava do dinheiro — e portanto sabe justificá‑lo — ou o valor foi proposto pela empresa municipal, com a LOHAD em posição de aceitar.
  • A consulta sistemática ao Portal BASE e ao Registo Comercial daria base concreta para perceber se a presença em contratação pública se concentra na LOHAD ou se distribui pelas várias entidades — e se há sobreposição de sócios, de moradas, de contas bancárias.
  • Foi enviado pedido formal de entrevista a Gonçalo Castel‑Branco para esta peça, com perguntas escritas sobre o percurso, o ecossistema empresarial, a relação com a campanha de Moedas e a fundamentação dos 75.

A fotografia é de 12 de Outubro de 2025, num hotel em Lisboa. Mostra Gonçalo Castel‑Branco em ambiente de produção, na noite em que Carlos Moedas foi reeleito presidente da Câmara. Cinco meses e dezanove dias depois, a empresa que dirige, a LOHAD, recebeu um ajuste directo de 75.000 euros da EGEAC para coproduzir um evento no Parque Eduardo VII.

O nome ficou conhecido fora dos circuitos do sector cultural. O percurso que o trouxe até aqui é mais longo do que essa fotografia sugere.

Da campanha de Obama ao Chefs on Fire

A biografia institucional disponível na página do IPAM, onde Castel‑Branco é docente, traça a trajectória. Em 2012, juntou‑se à equipa de comunicação da campanha eleitoral de Barack Obama nos Estados Unidos. Anos depois, regressou para a campanha de Hillary Clinton, onde — segundo a mesma biografia — foi responsável pela formação de 60 voluntários para acções porta‑a‑porta.
Trouxe a experiência para Portugal. Fundou a Action4. Fundou a Cherry Entertainment, integrada no Grupo Ativism. Fundou a T&M. Criou o Chefs on Fire, festival gastronómico que rapidamente se tornou referência no calendário lisboeta. Actualmente lidera a LOHAD — produtora de experiências responsável pelo “Um Domingo na Avenida”.
A descrição de si próprio que figura na biografia do IPAM é particular. Diz que “nada é formatado” no seu percurso. Que o seu trabalho passa por “transformar ideias visionárias em projectos que marcam a diferença”. É linguagem promocional, mas o sector reconhece‑lhe execução. Os eventos saem.

A presença mediática

Para além da actividade empresarial, Castel‑Branco é figura recorrente da televisão portuguesa como comentador político. A informação institucional disponível confirma “comentário político televisivo” como uma das suas áreas de actividade declaradas. Os comentários posicionam‑se à direita do espectro partidário.
A combinação não é, em si, problemática. Vários comentadores políticos portugueses têm actividades empresariais paralelas. Mas no caso concreto introduz um elemento adicional: Castel‑Branco fala publicamente sobre política enquanto a sua empresa concorre — ou recebe — contratos de entidades cuja tutela é política.

A relação com Moedas

Os factos verificáveis são poucos e específicos. Castel‑Branco esteve fotografado nos bastidores da noite eleitoral de Carlos Moedas em 12 de Outubro de 2025, em hotel de Lisboa, em funções técnicas e de produção. Confirmou à Sábado ter sido remunerado por esse trabalho. Recusou divulgar o valor recebido.
Tudo o que está documentado é isto. Não há, nas fontes disponíveis, registo de relação anterior à campanha — embora a relação anterior, se existisse, dificilmente surgiria em fontes públicas.
Sobre o contrato de 75.000 euros, Castel‑Branco afirmou à Sábado que “as duas coisas não têm ligação” e que pediu o apoio à EGEAC porque o evento “tem componente musical pública”. Disse, no entanto, “não saber justificar o valor atribuído”. A frase é estranha vinda de quem solicitou o financiamento. Ou o promotor sabia para que precisava do dinheiro — e portanto sabe justificá‑lo — ou o valor foi proposto pela empresa municipal, com a LOHAD em posição de aceitar.
A Sábado não esclareceu este ponto. A EGEAC, na sua nota oficial, também não.

O ecossistema empresarial

A rede de empresas associadas a Castel‑Branco merece mapeamento sistemático que ainda não foi feito publicamente. A LOHAD é a empresa que assinou o contrato dos 75.000 euros. Mas Action4, Cherry Entertainment e T&M são igualmente activas em produção de eventos e comunicação. A consulta sistemática ao Portal BASE e ao Registo Comercial daria base concreta para perceber se a presença em contratação pública se concentra na LOHAD ou se distribui pelas várias entidades — e se há sobreposição de sócios, de moradas, de contas bancárias.
Esse trabalho está por fazer. O que está feito é o registo de que existem múltiplas empresas, com Castel‑Branco como elemento comum, no sector da produção de eventos em Portugal.

A entrevista que falta

Foi enviado pedido formal de entrevista a Gonçalo Castel‑Branco para esta peça, com perguntas escritas sobre o percurso, o ecossistema empresarial, a relação com a campanha de Moedas e a fundamentação dos 75.000 euros. À hora de fecho, não houve resposta.
A falta de resposta é registada — não interpretada. Castel‑Branco já se pronunciou publicamente, à Sábado, e essas declarações estão integradas. Mas as perguntas específicas que esta peça lhe colocou continuam sem retorno.

O que a fotografia não mostra

Daquela imagem nos bastidores do hotel, em 12 de Outubro, sai uma das duas leituras possíveis. Ou Castel‑Branco é um produtor profissional que prestou serviço pago a uma campanha política, como teria prestado a qualquer outra; e que, meses depois, concorreu legitimamente a um financiamento público com base num projecto cultural.
Ou Castel‑Branco é um agente que, em cinco meses, transitou de prestador de campanha para adjudicatário de empresa municipal cuja tutela é o homem para quem trabalhou na campanha. As duas leituras coexistem com os mesmos factos. A diferença está no que ainda não foi apurado: a história anterior à fotografia.
Por agora, o que a fotografia mostra é apenas a noite. Da noite, fica a contagem dos votos. E, para uma das pessoas no enquadramento, fica também a fotografia do contrato.

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