André Ventura concentra 85,7% da desinformação nas presidenciais - Sociedade Civil
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Resumo

  • O estudo abrange o período entre 17 de novembro de 2025, dia do primeiro debate entre André Ventura e António José Seguro, e meados de janeiro de 2026, na reta final para o voto de 18 de janeiro.
  • As campanhas de António José Seguro, Gouveia e Melo ou Luís Marques Mendes não surgem entre os casos analisados como desinformação estrutural, embora o relatório admita a existência de retórica agressiva ou enviesada.
  • dentro do “top 14” de casos de desinformação política com maior impacto, quase todos têm origem ou amplificação direta na campanha de André Ventura, enquanto os restantes se concentram em pré-candidatos excluídos, numa lógica mais defensiva, de queixa contra o sistema.

O candidato André Ventura é responsável por 85,7% dos casos de desinformação identificados nas eleições presidenciais de 2026. A conclusão é do LabCom – UBI, através do Observatório de Desinformação Política (ODEPOL), que em quatro semanas de monitorização encontrou 14 casos principais, dos quais 12 estão ligados diretamente ao líder do Chega.

Num ecossistema digital muitas vezes descrito como caótico e “incontrolável”, o retrato que emerge é quase o oposto: a desinformação política em Portugal não se dilui em milhares de contas anónimas, concentra-se num ator central com nome, rosto e estrutura partidária.

Da guerrilha anónima ao centro de campanha

O estudo abrange o período entre 17 de novembro de 2025, dia do primeiro debate entre André Ventura e António José Seguro, e meados de janeiro de 2026, na reta final para o voto de 18 de janeiro. Nesse intervalo, os investigadores contabilizaram 7,7 milhões de visualizações de conteúdos desinformativos nas principais redes sociais e mais de 400 mil interações.

Dentro desse universo, o peso de Ventura é esmagador: 12 em 14 casos, contra apenas 2 casos (14,3%) associados a pré-candidatos excluídos pelo Tribunal Constitucional, como Joana Amaral Dias. As campanhas de António José Seguro, Gouveia e Melo ou Luís Marques Mendes não surgem entre os casos analisados como desinformação estrutural, embora o relatório admita a existência de retórica agressiva ou enviesada.

Uma consultora em comunicação política resume, em conversa informal, o que os números sugerem: “Isto já não é um desvio ocasional; é uma linha de produção. Há guiões, há edição, há calendário. A mentira não entra por acaso, entra em grelha”. A frase é dura, mas encaixa na leitura dos investigadores, que descrevem uma profissionalização da mentira ao serviço da campanha.

Estratégia Ventura: “mangueira de incêndio” de falsidades

O dossiê fala em “firehosing”, conceito importado de estudos sobre propaganda russa: uma “mangueira de incêndio” de falsidades que inunda o espaço público com um volume tal de meias-verdades, manipulações e contextos falsos que o fact-checking nunca consegue acompanhar.

Na prática, a tática Ventura assenta em três pilares, repetidos com variações:

  • Ataques à comunicação social e jornalistas – 42,9% dos casos de desinformação têm como alvo direto os media, acusando-os de censura, manipulação ou conluio com o “sistema”.
  • Manipulação de imagens e vídeos – 71,4% dos casos usam vídeo, frequentemente com legendas enganosas ou associação a contextos falsos, como no vídeo de Milão ou no incêndio em Amesterdão.
  • Exploração de medos identitários – imigração, segurança, “islamização da Europa” e alegadas vantagens indevidas para imigrantes no SNS surgem como temas recorrentes.

Uma micro-história torna tudo mais concreto. No início de janeiro, um pequeno café em Viseu decidiu sintonizar o debate presidencial na televisão. Entre cafés e minis, alguém mostra no telemóvel o vídeo de Milão, com a legenda sobre “muçulmanos a invadir cerimónias cristãs”. Dois clientes abanam a cabeça – “isto está a ficar impossível” –, outro arrisca um “se calhar não é bem assim”. Ninguém vai verificar. O vídeo já cumpriu a sua função: semeou desconfiança, acendeu conversa indignada, colou mais uma imagem ao discurso do candidato.

E os outros não fazem desinformação?

A pergunta impõe-se: os outros candidatos não mentem? Não usam também manipulação ou exagero?

O estudo não diz que o resto do campo político é puro. O que afirma é algo mais delimitado: dentro do “top 14” de casos de desinformação política com maior impacto, quase todos têm origem ou amplificação direta na campanha de André Ventura, enquanto os restantes se concentram em pré-candidatos excluídos, numa lógica mais defensiva, de queixa contra o sistema.

Há limitações claras: não existe acesso público ao relatório científico completo, a lista integral dos 14 casos não foi divulgada e não sabemos em detalhe que conteúdos de outras campanhas ficaram de fora. Também há uma escolha metodológica – olhar para os casos de maior impacto, não para cada meme ou post agressivo que circulou.

Ainda assim, o padrão é difícil de relativizar: se a desinformação fosse uma indústria, Ventura seria o seu maior acionista.

O que revela esta centralização da desinformação

A centralização extrema da desinformação presidenciais 2026 num só candidato tem consequências que vão além das eleições de domingo:

  1. Normalização interna
    Quando 85,7% da desinformação mapeada parte de uma única campanha, a mensagem para militantes e apoiantes é clara: este é o modo normal de fazer política. A fronteira entre opinião dura e falsificação deliberada esbate-se.
  2. Assimetria no campo democrático
    Partidos que optam por não usar desinformação estrutural entram num jogo desigual: respondem a boatos com comunicados, a vídeos virais com notas de rodapé. A velocidade joga contra quem tenta corrigir.
  3. Ataque ao árbitro
    Ao colocar os media no centro da mira – “vendidos”, “censores”, “braço do sistema” – a estratégia corrói o único terreno onde os factos ainda podem ser discutidos com algum rigor. Quando o árbitro é destruído, o jogo passa a chamar-se caos.

Uma redação no Porto relatou a sequência típica dos últimos meses: peça de fact-checking sobre um vídeo de Ventura, reação organizada de insultos e acusações nos comentários, novos conteúdos da campanha a usar esses insultos como prova de que “o povo já não acredita nos jornalistas”. A desinformação alimenta o ataque aos media, que por sua vez legitima nova desinformação. Um circuito fechado.

Entre o voto e o feed

A esta altura, é legítimo que um leitor cético pergunte: isto mede impacto real nos votos ou apenas barulho online? A resposta honesta é: não sabemos ainda ao certo. O estudo do LabCom conta visualizações, interações, casos e autores; não mede, por enquanto, mudanças de voto concretas.

Mas uma coisa sabemos: quando a mentira se torna rotina de campanha, a democracia deixa de discutir políticas para discutir realidades paralelas. E nesse terreno, quem mais mente parte à frente.

André Ventura não é o único político portugués a testar os limites da verdade. É, nesta campanha, quem mais longe vai e quem mais domina o tabuleiro da desinformação. O dado bruto – 85,7% dos casos – não encerra o debate, mas coloca-o num outro patamar: a partir daqui, continuar a tratar estas estratégias como meros “excessos de linguagem” já não é ingenuidade, é negação da evidência.

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