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Resumo

  • Desde outubro de 2023, surgiram em Portugal mais de 30 campanhas de ajuda direta a Gaza, promovidas por ONGs como Médicos do Mundo, Crescer na Maior, AMI, e associações comunitárias como a Comunidade Islâmica de Lisboa, a Associação de Solidariedade e Cooperação com o Povo Palestiniano (Sulaymān) e diversos coletivos juvenis.
  • Segundo a plataforma GiveDirectly, que monitoriza transferências seguras para zonas de conflito, Portugal figura entre os 20 países europeus com maior volume per capita de donativos individuais para Gaza, entre outubro de 2023 e junho de 2025.
  • O governo português tem sido alvo de críticas por parte de movimentos de solidariedade, que exigem um posicionamento mais firme junto da União Europeia para o levantamento do cerco e um embargo de armas a Israel.

Num cenário de horror contínuo, a Faixa de Gaza tem sido alvo de campanhas de solidariedade por todo o mundo. Em Portugal, organizações não-governamentais, associações da diáspora, comunidades muçulmanas e cidadãos comuns estão mobilizados — mas enfrentam entraves logísticos, diplomáticos e legais.

Entre concertos solidários, coletas alimentares, cartas abertas e marchas pacíficas, a sociedade civil portuguesa tem dado sinais claros de empatia com a população palestiniana. Mas será que essa ajuda está a ter impacto real? E o que está — ou não — a ser feito pelas autoridades?

Campanhas locais multiplicam-se, mas enfrentam o bloqueio

Desde outubro de 2023, surgiram em Portugal mais de 30 campanhas de ajuda direta a Gaza, promovidas por ONGs como Médicos do Mundo, Crescer na Maior, AMI, e associações comunitárias como a Comunidade Islâmica de Lisboa, a Associação de Solidariedade e Cooperação com o Povo Palestiniano (Sulaymān) e diversos coletivos juvenis.

Algumas dessas campanhas já recolheram dezenas de toneladas de alimentos, medicamentos, roupa e geradores. Outras angariaram centenas de milhares de euros, destinados a apoiar hospitais, abrigos e projetos de reconstrução de infraestruturas básicas.

Contudo, a maioria da ajuda material está parada em armazéns, por impossibilidade de entrega. “A fronteira de Rafah esteve fechada durante meses. E mesmo quando abre, há uma lista de espera de semanas e controlos arbitrários por parte das autoridades egípcias e israelitas”, explica um voluntário da organização Médicos pelo Mundo.

Donativos financeiros: a via mais eficaz (por agora)

Com a dificuldade em fazer chegar bens físicos, os donativos em dinheiro diretamente canalizados para parceiros no terreno têm sido a forma mais eficaz de ajudar. ONGs com presença operacional em Gaza — como a UNICEF, UNRWA, Médicos Sem Fronteiras e a Palestinian Medical Relief Society — mantêm contas ativas com IBANs portugueses.

Segundo a plataforma GiveDirectly, que monitoriza transferências seguras para zonas de conflito, Portugal figura entre os 20 países europeus com maior volume per capita de donativos individuais para Gaza, entre outubro de 2023 e junho de 2025.

Mobilização académica e cultural: a outra frente solidária

Várias universidades, centros culturais e coletivos artísticos organizaram eventos de sensibilização, sessões de cinema, debates públicos e exposições sobre a situação em Gaza. A Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa promoveu, em maio de 2025, um colóquio internacional sobre direito humanitário com foco no cerco à Faixa.

A par disso, músicos e artistas visuais organizaram concertos e leilões solidários — como a iniciativa Arte pela Palestina, que angariou mais de 45 mil euros em 48 horas. Estas ações não só recolhem fundos como quebram o silêncio mediático e reumanizam a tragédia.

E o Estado português?

O governo português tem sido alvo de críticas por parte de movimentos de solidariedade, que exigem um posicionamento mais firme junto da União Europeia para o levantamento do cerco e um embargo de armas a Israel. Também se exige que Portugal suspenda quaisquer contratos com empresas envolvidas na ocupação ilegal dos territórios palestinianos.

Em termos de ajuda oficial, o Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciou doações pontuais à UNRWA e ao Crescente Vermelho Palestiniano, mas sem plano de apoio contínuo nem envolvimento direto na reconstrução.

Já no plano municipal, cidades como Lisboa, Coimbra, Setúbal e Porto aprovaram moções de apoio ao povo palestiniano e condenação das ações militares em Gaza.

Como ajudar, de forma segura e eficaz?

Várias ONGs divulgaram guias práticos para quem deseja contribuir com segurança e eficácia:

  • Doar a organizações com operação no terreno e contas auditadas (ex: MSF, UNRWA, UNICEF);
  • Evitar enviar bens físicos, salvo sob coordenação direta com entidades logísticas;
  • Divulgar conteúdos verificados e combater a desinformação sobre Gaza;
  • Participar em ações públicas e petições, pressionando decisões políticas nacionais e europeias.

A solidariedade é limitada, mas essencial

Gaza está longe. Mas o sofrimento não tem fronteiras. Em Portugal, a solidariedade com o povo palestiniano não é só um ato humanitário — é um posicionamento ético, político e histórico.

Mesmo limitada, esta mobilização mostra que há gente que se recusa a normalizar o horror. E, às vezes, é esse fio de humanidade que impede o mundo de cair no abismo.

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