Resumo
- A narrativa dominante continua a ser a do lusotropicalismo, conceito forjado por Gilberto Freyre e apropriado pelo regime de Salazar para sustentar a ideia de que o colonialismo português foi “mais humano” do que o dos outros impérios europeus.
- A ausência de uma política de memória coerente e crítica permite que o espaço público continue a ser ocupado por homenagens a figuras coloniais, nomes de ruas dedicadas a governadores do ultramar e estátuas de navegadores sem contexto.
- A criação de um grupo de trabalho sobre o racismo e a discriminação (no âmbito da Assembleia da República), o reforço da CICDR (Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial), ou a proposta de um museu da história do colonialismo e da escravatura são passos relevantes….
Entre a negação e a memória, o debate nacional sobre o passado imperial continua por fazer
Mais de quatro décadas após o fim do império, Portugal ainda evita olhar de frente para o seu passado colonial. O país que durante séculos governou vastos territórios em África, Ásia e América do Sul — muitas vezes com violência, racismo e exploração — continua a apresentar essa história como epopeia, orgulho ou missão civilizadora. Pouco se fala das guerras coloniais, do trabalho forçado, da segregação legal, do saque de recursos e da destruição cultural.
Será possível construir uma democracia plena sem enfrentar esse legado?
Um silêncio institucional
Ao contrário de países como a Bélgica ou a Alemanha, que têm dado passos formais no reconhecimento dos seus crimes coloniais, Portugal mantém uma atitude ambígua. Não existe um pedido oficial de desculpas às ex-colónias, não houve reparações materiais, nem foi criada qualquer comissão de verdade ou reconciliação.
A narrativa dominante continua a ser a do lusotropicalismo, conceito forjado por Gilberto Freyre e apropriado pelo regime de Salazar para sustentar a ideia de que o colonialismo português foi “mais humano” do que o dos outros impérios europeus. Esta tese, desmentida por décadas de investigação académica, persiste nos discursos políticos, nos manuais escolares e nos museus.
“A reconciliação exige verdade — e nós ainda vivemos na negação”, afirma o historiador Bruno Sena Martins. “Portugal não fez o seu luto colonial.”
A memória em disputa
A ausência de uma política de memória coerente e crítica permite que o espaço público continue a ser ocupado por homenagens a figuras coloniais, nomes de ruas dedicadas a governadores do ultramar e estátuas de navegadores sem contexto.
Um dos casos mais paradigmáticos é o da estátua do padre António Vieira, em Lisboa. Alvo de protestos por representar a violência colonial e a imposição cultural, o monumento foi também defendido em nome da “tradição” e do “orgulho nacional”. Este conflito simbólico revelou a polarização em torno da memória.
“O problema não é ter estátuas — é não ter contrapontos”, diz Raquel Lima, poeta e investigadora. “Precisamos de contar a história de quem foi escravizado, expropriado, silenciado. De quem resistiu.”
O ensino da história: entre o eufemismo e o apagamento
A escola é, talvez, o lugar onde mais se sente a ausência de um olhar crítico sobre o colonialismo. Nos programas escolares, a colonização surge como expansão, a escravatura como comércio, as guerras como “ultramarinas”. A voz dos povos colonizados raramente é ouvida, e o sofrimento das populações africanas é diluído ou ignorado.
Apesar de existirem professores empenhados em desconstruir essa visão, o sistema educativo não promove uma pedagogia da memória crítica, nem integra conteúdos obrigatórios sobre os impactos do império — nem sobre o racismo que dele herdámos.
“Ensinar a verdade histórica é condição para combater o racismo estrutural”, defende Cristina Roldão, socióloga e docente. “Mas isso implica reescrever os manuais, formar os professores e aceitar desconfortos.”
Arte, activismo e contra-narrativas
Fora das instituições oficiais, a desconstrução do passado está a ser feita por artistas, activistas e académicos racializados. Projectos como o Museu Virtual da Lusofonia, as exposições do Hangar (Centro de Investigação Artística), as peças de teatro de Joana Craveiro ou os ensaios de Grada Kilomba têm desafiado a narrativa dominante.
Na literatura, na música e no cinema, novas gerações de afrodescendentes reivindicam espaço para contar a sua versão da história — não como vítimas passivas, mas como agentes de resistência e sobrevivência.
“O colonialismo não é um capítulo fechado — é um arquivo vivo nos corpos, nas línguas, nas leis, nas desigualdades”, afirma a escritora Djaimilia Pereira de Almeida. “Escrevê-lo é uma forma de existir.”
E o Estado?
Nos últimos anos, registaram-se tímidas iniciativas institucionais. A criação de um grupo de trabalho sobre o racismo e a discriminação (no âmbito da Assembleia da República), o reforço da CICDR (Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial), ou a proposta de um museu da história do colonialismo e da escravatura são passos relevantes — mas fragmentados e frágeis.
A proposta do chamado Museu da Descoberta, em Lisboa, tornou-se exemplo de como a tentativa de reconciliar passado e futuro pode fracassar quando não há escuta activa das comunidades racializadas. O projecto foi criticado por perpetuar uma visão eurocêntrica e triunfalista da história portuguesa, sem espaço para a dor e a resistência dos povos colonizados.
“O problema não é termos orgulho da história — é recusarmos ver as suas sombras”, alerta a investigadora Filipa Lowndes Vicente.
Um debate que não pode ser adiado
Num momento em que crescem em Portugal — como no resto da Europa — discursos de extrema-direita, revisionismo histórico e nostalgia autoritária, enfrentar o passado colonial não é apenas um exercício académico. É um imperativo democrático.
Reconciliar-se com a história implica reconhecimento, escuta e reparação. Implica aceitar que o colonialismo não foi apenas uma fase — foi um sistema de dominação com efeitos ainda visíveis nas desigualdades raciais, nos discursos mediáticos, na representação política e no acesso à cidadania plena.
Portugal terá de decidir se quer ser um país que honra o seu passado ou que aprende com ele.
Porque a verdadeira pátria não se constrói com mitos — constrói-se com memória.