Resumo
- Apesar da narrativa oficial de neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, o regime salazarista manteve ligações ideológicas e práticas com a Alemanha nazi e a Itália fascista, especialmente no início da década de 1940.
- Após a queda de Hitler e Mussolini, foi o franquismo espanhol a herdar — e adaptar — modelos jurídicos portugueses de repressão e propaganda.
- Contudo, a ausência de acções afirmativas, a persistência de normas implícitas e a recusa em recolher dados étnico-raciais impediram a ruptura total com a herança colonial e racista.
Uma linha do tempo do preconceito legislado — de Lisboa a Nuremberga e para lá do colonialismo
O racismo não vive apenas em palavras ou gestos individuais. Vive também, e sobretudo, nas estruturas legais que normalizam a exclusão. Em Portugal — como noutras partes da Europa — houve um tempo em que a discriminação não era apenas tolerada: era mandatada por lei.
Ao longo de mais de um século, sucessivos regimes criaram normas que definiam, segregavam, puniam e hierarquizavam pessoas com base na sua raça, origem ou pertença cultural. Da legalização da escravatura à recusa da nacionalidade a povos colonizados, passando pela exportação ideológica para outros regimes fascistas, o direito foi frequentemente uma arma da opressão.
Neste artigo, traçamos uma linha do tempo do racismo legislado em Portugal — e das suas conexões internacionais.
Leis do império: o racismo codificado
Durante o período colonial, o sistema legal português criou um conjunto complexo de normas racistas. Os códigos do “indigenato”, em vigor em várias colónias africanas até 1961, estabeleciam duas categorias jurídicas de cidadãos: os “civilizados” e os “indígenas”.
Os “civilizados” eram, regra geral, brancos ou mestiços assimilados, com acesso a direitos políticos e civis. Os “indígenas”, por oposição, eram submetidos ao regime do trabalho forçado, impostos específicos e punições colectivas. A sua diferença era justificada por um suposto “atraso civilizacional” e inscrita na própria legislação.
Este regime foi directamente influenciado por sistemas coloniais racistas noutros países, mas teve em Portugal uma longevidade extraordinária. Só foi abolido formalmente com a pressão internacional e os ventos da autodeterminação africana nos anos 60.
“Era uma segregação legal em tudo semelhante ao apartheid”, afirma o historiador José Pedro Monteiro. “Mas com a particularidade de ser escondida sob uma linguagem paternalista, como a do ‘dever de civilizar’.”
Fascismo jurídico: o Estado Novo e a norma da obediência
Com o advento do Estado Novo em 1933, o racismo institucional não desapareceu — foi consolidado numa lógica corporativista, hierárquica e repressiva. O novo regime não via a desigualdade como um problema a corrigir, mas como uma expressão natural da ordem.
Embora não proclamasse leis racistas à maneira do nazismo, o Estado Novo integrou no seu corpus legal uma série de normas discriminatórias, particularmente nas colónias. O Código Penal previa punições mais duras para comportamentos “subversivos” nas províncias ultramarinas. A legislação sobre migração interna discriminava africanos dentro do próprio território nacional. A censura impedia qualquer contestação a estas práticas.
O uso da categoria de “indígena” ou “assimilado” tinha efeitos concretos: definia quem podia estudar, viajar, casar ou possuir terra.
“A cidadania plena era reservada a poucos — e altamente racializada”, nota o jurista e activista Arsénio Zamucha.
Influências mútuas com o nazismo e o franquismo
Apesar da narrativa oficial de neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, o regime salazarista manteve ligações ideológicas e práticas com a Alemanha nazi e a Itália fascista, especialmente no início da década de 1940.
Documentos históricos revelam que juristas portugueses trocaram correspondência com colegas alemães sobre sistemas de controlo social e legislação de segurança. Portugal não teve leis raciais explícitas como as Leis de Nuremberga, mas o sistema de vigilância política, repressão e segregação colonial foi citado por analistas nazis como exemplo funcional de dominação racial “eficaz”.
Após a queda de Hitler e Mussolini, foi o franquismo espanhol a herdar — e adaptar — modelos jurídicos portugueses de repressão e propaganda. A circulação de ideólogos, diplomatas e académicos entre Lisboa e Madrid foi intensa durante os anos 50 e 60.
O racismo após o fim do império: leis silenciosas
Com o 25 de Abril e a Constituição de 1976, Portugal aboliu a maioria das normas abertamente discriminatórias. A nova ordem democrática prometia igualdade e não-discriminação como princípios fundamentais. Contudo, a ausência de acções afirmativas, a persistência de normas implícitas e a recusa em recolher dados étnico-raciais impediram a ruptura total com a herança colonial e racista.
Exemplos? A lei da nacionalidade, revista em 2006 e novamente em 2020, continuou a criar obstáculos injustificados à cidadania plena de pessoas nascidas em Portugal de ascendência africana ou asiática. A legislação sobre habitação e arrendamento, supostamente neutra, produz efeitos discriminatórios visíveis contra minorias racializadas. E a lei de imigração ainda prevê detenções administrativas sem julgamento prévio.
“A forma como o Estado trata os imigrantes e os afrodescendentes continua a ser desigual”, diz a advogada Beatriz Gomes. “A legalidade do racismo hoje é mais subtil — mas não menos eficaz.”
Reescrever as leis, com justiça
Nos últimos anos, várias propostas de alteração legislativa têm tentado corrigir esta trajectória. A criação de um estatuto de igualdade racial, a inclusão de dados étnico-raciais nos censos, o reforço da autoridade da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) — todas estas medidas visam reconhecer e reparar os efeitos do racismo legal.
Mas a resistência é significativa. Partidos conservadores e de extrema-direita argumentam que estas propostas promovem “discriminação inversa” ou “dividem os portugueses”. A narrativa do “universalismo cego” — que recusa ver a raça para fingir igualdade — continua hegemónica.
“O maior obstáculo é o medo de admitir que fomos — e somos — um país com leis racistas”, resume a historiadora Inocência Mata. “Sem esse reconhecimento, não haverá justiça possível.”
A lição por aprender
O direito não é neutro. Pode ser ferramenta de opressão ou instrumento de emancipação. Em Portugal, a longa história de racismo legislado permanece em grande parte por contar — e por reparar.
Revisitar essa história não é apenas exercício académico. É passo essencial para impedir que novos projectos autoritários, hoje novamente em ascensão, legislem o preconceito com novos nomes e novas formas.
Porque quando o racismo se torna lei, o Estado deixa de ser de todos — e passa a ser arma contra alguns.