Resumo
- Num campo devastado de betão e pó nos arredores de Deir al-Balah, centenas de pessoas esperavam, como em tantas outras manhãs, pela chegada de camiões com farinha e enlatados.
- O comboio de ajuda humanitária pertencia à chamada Gaza Humanitarian Foundation (GHF) – uma entidade recentemente criada com o apoio dos governos de Israel e dos Estados Unidos, e apresentada como solução “segura e eficiente” para a crise de fome no enclave palestiniano.
- Criada no início de 2024, após uma vaga de ataques a armazéns da UNRWA e à recusa de Israel em colaborar com agências das Nações Unidas, a GHF surgiu como um instrumento “externo” e “tecnicamente neutro”.
Projecto apoiado por Israel e EUA substitui estruturas humanitárias por modelo militarizado e altamente letal. Número de mortos durante distribuições de alimentos levanta acusações de manipulação e repressão disfarçadas de assistência.
Num campo devastado de betão e pó nos arredores de Deir al-Balah, centenas de pessoas esperavam, como em tantas outras manhãs, pela chegada de camiões com farinha e enlatados. Em poucos minutos, os tiros disparados do ar e do solo transformaram a espera em massacre. Morreram 27 pessoas. Vinte e três estavam desarmadas. Entre elas, seis adolescentes. O comboio de ajuda humanitária pertencia à chamada Gaza Humanitarian Foundation (GHF) – uma entidade recentemente criada com o apoio dos governos de Israel e dos Estados Unidos, e apresentada como solução “segura e eficiente” para a crise de fome no enclave palestiniano.
Mas o que é, afinal, a GHF? E porque está a ser acusada por múltiplas organizações internacionais de transformar a distribuição de alimentos num mecanismo de controlo populacional?
Um modelo “alternativo” ao sistema humanitário internacional
Criada no início de 2024, após uma vaga de ataques a armazéns da UNRWA e à recusa de Israel em colaborar com agências das Nações Unidas, a GHF surgiu como um instrumento “externo” e “tecnicamente neutro”. Na prática, está sob supervisão militar israelita, opera com empresas de segurança privada norte-americanas, e tem acesso exclusivo a corredores de distribuição autorizados. A sua estrutura exclui as principais ONG presentes no terreno – Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, Save the Children – e rejeita qualquer parceria com o governo palestiniano.
As críticas não tardaram. A relatora especial da ONU para o Direito à Alimentação, Hilal Elver, declarou que “a GHF representa um retrocesso inaceitável no modelo de ajuda humanitária. Não é neutra, não é independente e os seus critérios de distribuição são opacos e discriminatórios”.
Distribuir ou vigiar?
Relatórios obtidos pela nossa redação, em colaboração com fontes do Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA), descrevem pontos de distribuição militarizados, com reconhecimento facial, drones de vigilância e controlos agressivos. Acesso condicionado a registos biométricos e, nalguns casos, a “declarações de não-afiliação ao Hamas” têm sido exigidos para receber ajuda. Em várias zonas, os civis são obrigados a deslocar-se até 10 km por estrada aberta sob drones armados, em busca de uma ração básica.
“O que está a ser feito não é ajuda. É um mecanismo de domesticação colectiva sob ameaça armada”, acusa o investigador Rami Qassis, da ONG Euro-Med Monitor. “E quem recusa, morre de fome. Literalmente.”
Mortes em distribuição: padrão ou exceção?
Desde fevereiro de 2024, contam-se pelo menos 17 episódios documentados em que civis foram mortos durante a distribuição de alimentos organizadas pela GHF. O caso mais conhecido, em março, envolveu mais de 100 mortos na estrada costeira de Gaza, após disparos de tanques israelitas sobre uma multidão desarmada. As imagens correram o mundo. Israel alegou “tentativa de pilhagem”. Mas testemunhas relataram uma armadilha: comboios anunciados, concentração forçada de multidões e abertura deliberada de fogo.
A Cruz Vermelha e o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos exigiram uma investigação independente. Mas até hoje, nenhum responsável da GHF ou das forças israelitas foi responsabilizado.
Censura e desinformação
Uma das críticas mais severas à GHF prende-se com o controlo informativo. Jornais e canais que denunciaram falhas ou abusos na sua operação viram-se bloqueados nos acessos a briefings. Jornalistas palestinianos foram detidos por “difusão de propaganda hostil”. A agência Ma’an News foi acusada de “colaboração com o inimigo” por ter divulgado um relatório do PAM que contradizia os dados fornecidos pela GHF.
“A GHF não presta contas a ninguém. E isso é tudo menos humanitário”, denuncia Lucía Aranda, coordenadora da Food Rights International. “A ausência de supervisão internacional torna este modelo um campo aberto para manipulação, chantagem e violência.”
Diplomacia cúmplice ou impotente?
Enquanto isso, a União Europeia hesita. Apesar das reservas expressas por alguns eurodeputados, Bruxelas continua a aceitar os relatórios da GHF como fontes credíveis. Portugal, por sua vez, tem mantido silêncio oficial sobre a iniciativa, embora vários diplomatas admitam “preocupações sérias sobre os princípios humanitários violados”.
A verdadeira ajuda continua impedida
ONG independentes denunciam que toneladas de ajuda vital continuam bloqueadas em armazéns no Egipto, à espera de autorização israelita. “Poderíamos alimentar metade da população de Gaza, mas a prioridade tem sido este modelo controlado, opaco e mortal”, afirma um oficial do Programa Alimentar Mundial sob anonimato.
O que está em jogo?
Na teoria, a GHF foi criada para salvar vidas. Na prática, funciona como um mecanismo de gestão securitária da miséria. A cada distribuição, há mais mortos, mais medo e menos liberdade. Em nome da segurança, transforma-se a assistência em obediência. O alimento deixa de ser um direito e passa a ser uma arma.