Resumo
- Vozes de mães, de crianças, de médicos, de idosos, de jovens que saem todos os dias de manhã sem saber se regressam.
- Eu, a minha irmã pequena e a minha mãe.
- “Como se sobrevive a isto e se continua a amar o mundo.
Gaza, agosto de 2025 — No meio dos escombros e do silêncio da morte, ecoam vozes que resistem ao apagamento. Vozes de mães, de crianças, de médicos, de idosos, de jovens que saem todos os dias de manhã sem saber se regressam. Em Gaza, mesmo o gesto mais simples — procurar comida — pode ser o último.
As histórias recolhidas pela Médicos Sem Fronteiras (MSF) no seu mais recente relatório não são apenas testemunhos — são retratos de uma humanidade em colapso. Fragmentos reais, cravados em sofrimento. E cada um deles responde com um grito surdo à pergunta: Isto é ajuda?
“Ela só queria pão”
Rania, 10 anos
“Estávamos na fila. Eu, a minha irmã pequena e a minha mãe. Um homem começou a gritar. Depois vieram os tiros. A minha mãe caiu para o lado. Eu pensei que estava a brincar. Mas ela estava a sangrar da boca. A minha irmã começou a gritar. E depois fugimos.”
Rania foi tratada no centro da MSF em Rafah por ferimentos na perna. A bala passou a escassos centímetros do osso. A mãe morreu ainda no local. A família esperava por um pacote com farinha e bolachas.
“Ela só queria pão”, repete Rania, como se ainda não tivesse compreendido.
“Não sei se estou vivo ou morto”
Majed, 37 anos, ex-professor
“O meu filho foi baleado na cabeça quando corria com um saco de arroz. Os soldados acharam que era um explosivo. Ele tinha 12 anos. Morreu ali, de barriga para baixo, com o arroz espalhado no chão.”
Majed deixou de falar durante uma semana. Foi encontrado em estado de choque por voluntários e levado para o hospital da MSF. Recusou tratamento psiquiátrico. Hoje ajuda a organizar filas nos centros, mas não entra mais.
“Não sei se estou vivo ou morto. Só sei que ele tinha fome.”
“Fui mordida por um cão enquanto segurava a minha filha”
Amal, 29 anos
“Tinha a minha filha de três meses ao colo. Estávamos na fila há quatro horas. Quando os seguranças abriram o portão, houve empurrões. Um dos cães avançou sobre mim. Mordeu-me na perna. Caí. A minha filha caiu também. Comecei a gritar, mas ninguém ajudou.”
Amal ficou com ferimentos profundos. A filha teve apenas escoriações. A MSF tratou ambas.
“Como se sobrevive a isto e se continua a amar o mundo?”
“Somos médicos, não operários da morte”
Dr. Samer, 42 anos, cirurgião da MSF
“Já vi de tudo. Feridas abertas, amputações, queimaduras. Mas nunca vi corpos de crianças tão pequenos com buracos de bala tão grandes. E nunca senti tanto medo de não conseguir fazer mais.”
A equipa de Samer operou 14 crianças numa só noite. Quatro morreram. Três não tinham identificação.
“Às vezes, olho para as mãos e pergunto-me: quantas vidas não salvei?”
“Corri porque tinha fome. Agora não posso correr mais.”
Bashir, 15 anos
“Disseram que iam abrir um novo centro em Deir al-Balah. Fui a correr. Estava faminto. Alguém gritou. Depois ouvi um zumbido e depois nada. Acordei sem a perna.”
Bashir foi atingido por um drone. A MSF amputou-lhe a perna esquerda. Perguntaram-lhe se queria fisioterapia. Ele respondeu:
“Quero aprender a voar. Assim não preciso mais de filas.”
“Estamos a matar-nos por comida, mas morremos sem dignidade”
Yousef, 61 anos
“Era uma fila. Só isso. Milhares de pessoas. Uns tinham fome. Outros tinham medo. Todos tinham filhos. Um rapaz caiu. Depois caiu outro. Eu tentei ajudar. Pisaram-me. Pisaram todos. Foi como um terramoto feito de gente.”
Yousef sobreviveu com costelas partidas e o ombro deslocado. Recusa voltar a qualquer ponto de distribuição.
“Se vou morrer, que seja em casa, não com um saco de farinha nos braços.”