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Resumo

  • “Em vez de perder tempo em debates técnicos, é mais útil narrar o que está a acontecer em Gaza — civis a morrer indiscriminadamente” .
  • Nas redes sociais, multiplicaram-se críticas e uma petição pública pediu ao Governo português que reconheça formalmente o genocídio em Gaza e pressione Israel a abrir corredores humanitários .
  • A reação mostra como a opinião pública sente que a semântica, quando sobreposta à tragédia, se torna uma forma de silenciamento.

Numa rua de Rafah, no sul de Gaza, uma jovem mãe palestiniana segura um saco com os restos do que resta da sua vida: duas fotografias queimadas e o casaco do filho mais velho. Perdeu-o num bombardeamento que destruiu o prédio onde viviam. O marido está desaparecido desde que tentava atravessar o corredor humanitário para buscar água. O relato foi recolhido por uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras, que insiste: “As pessoas não estão apenas a morrer. Estão a ser apagadas das suas casas, do seu quotidiano, da sua dignidade”.

É este pano de fundo — casas em ruínas, escolas transformadas em morgues improvisadas, crianças sem acesso a tratamento médico — que confere peso humano à palavra genocídio. Contudo, João Miguel Tavares, colunista do Público e comentador de televisão, escolheu uma via diferente. Numa crónica, classificou de “estupidez” a ideia de que Israel está a cometer um genocídio contra os palestinianos. Foi mais longe: “Só um maluquinho pode acusar Israel de estar a ensaiar o assassinato metódico dos palestinianos” .

O choque moral da linguagem

O contraste é brutal. Enquanto famílias procuram restos de corpos nos escombros, o debate em Portugal é marcado por frases que reduzem essa dor a tecnicalidades. Ao usar expressões como “maluquinho” e “estupidez”, Tavares não só levanta a questão semântica, como cria um efeito de distanciamento. A sua retórica, apresentada como defesa da “precisão histórica”, obscurece a realidade imediata: milhares de mortos, bairros arrasados, fome crescente e deslocamentos forçados.

Este é o paradoxo que merece ser denunciado. Tavares acusa outros de atirar “palavras-bomba”, mas lança as suas próprias bombas retóricas, desvalorizando sentimentos de quem se vê representado pela palavra “genocídio”. Se a sua intenção não é desumanizar, o impacto público das suas palavras aproxima-se perigosamente disso. Afinal, que sente um leitor palestiniano em Portugal ao ouvir que o termo que melhor traduz a sua dor é “uma estupidez”?

Precisão vs. empatia: uma falsa dicotomia

O comentador recorreu ao dicionário Priberam para justificar a rejeição da palavra “genocídio” . Segundo ele, a destruição metódica — como o Holocausto ou o Ruanda — não se aplica ao caso palestiniano. Esta metodologia foi duramente criticada pela advogada Carmo Afonso: “Ir ao dicionário para saber o significado de um conceito legal é como ir ao horóscopo para saber da previsão meteorológica. O resultado foi um lamentável engano”. Mais do que uma questão académica, a jurista alerta: “Desdramatizar o que é dramático pode ser fatal”.

Ricardo Araújo Pereira reforçou a mesma crítica por outra via: “Em vez de perder tempo em debates técnicos, é mais útil narrar o que está a acontecer em Gaza — civis a morrer indiscriminadamente” . É uma posição que devolve ao centro aquilo que o debate semântico oculta: a vida e a morte de inocentes.

Não se trata de escolher entre rigor ou compaixão. A verdadeira precisão jornalística exige não apenas definição correta, mas também atenção plena ao impacto humano. É esta ligação que Tavares rompe, criando um hiato entre palavra e sofrimento.

O impacto social da retórica

O efeito das suas palavras não ficou confinado às páginas do Público. Dentro do próprio jornal houve contestação editorial. Nas redes sociais, multiplicaram-se críticas e uma petição pública pediu ao Governo português que reconheça formalmente o genocídio em Gaza e pressione Israel a abrir corredores humanitários . A reação mostra como a opinião pública sente que a semântica, quando sobreposta à tragédia, se torna uma forma de silenciamento.

A retórica de figuras mediáticas não é inocente. Comentadores como Tavares, com acesso privilegiado ao espaço público, moldam perceções coletivas. Ao insistirem numa leitura fria e tecnicista, podem contribuir para a normalização da violência, transformando mortes em estatísticas, debates em abstrações. Quando a palavra “genocídio” é desautorizada de antemão, o grito das vítimas arrisca-se a perder eco.

E não é precisamente esta a fronteira da desumanização? Reduzir rostos e lágrimas a meros objetos de disputa académica?

O preço da distância intelectual

João Miguel Tavares insiste que o papel do comentador é “furar bolhas” e não “fazer moral” . Mas, ao abdicar de qualquer dimensão ética, corre o risco de abdicar também da humanidade do discurso. O comentário que se refugia na frieza das definições acaba por falhar a sua principal missão: explicar o mundo às pessoas, e não apenas às palavras.

No coração desta controvérsia, fica uma verdade incómoda. Quando se fala de Gaza, não se fala apenas de geopolítica ou de história: fala-se de crianças mortas nos braços de médicos voluntários, de mães que cavam com as mãos em escombros, de jovens que nunca chegaram a conhecer a adolescência.

Por isso, a crítica a Tavares não é sobre terminologia. É sobre responsabilidade. Figuras públicas têm o dever de reconhecer que, em contextos de massacre, a linguagem não é neutra. Pode ferir tanto como armas, ou pode dar dignidade a quem perdeu tudo.

No fim, resta uma frase que ecoa mais forte do que qualquer definição: quando as palavras não reconhecem plenamente a dor, tornam-se parte da violência que fingem apenas descrever.

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