Resumo
- Em média, uma mulher ou rapariga morre a cada hora sob os ataques e o cerco israelitas, segundo a ONU Mulheres, que contabiliza mais de 28 000 mulheres e meninas mortas desde Outubro de 2023 .
- O bloqueio de três semanas iniciado a 2 de Março reteve 54 ecógrafos, nove incubadoras e 350 kits de parteira — material vital para 15 000 grávidas que agora dão à luz quase sem vigilância médica.
- A Convenção de Genebra protege as parturientes, mas o que vale o papel quando faltam pinças para cortar o cordão umbilical.
A guerra que devasta a Faixa arranca vidas ainda antes de estas começarem: a mortalidade materna subiu de 19 para 43 mortes por 100 000 nados-vivos em apenas dois anos . Em média, uma mulher ou rapariga morre a cada hora sob os ataques e o cerco israelitas, segundo a ONU Mulheres, que contabiliza mais de 28 000 mulheres e meninas mortas desde Outubro de 2023 . Porquê este salto trágico? Porque partos acontecem em tendas, cesarianas são feitas à luz de telemóveis e incubadoras ficam paradas na fronteira por falta de combustível.
Hospitais mutilados, partos improvisados
Das 14 maternidades que existiam, apenas nove funcionam parcialmente; muitas tornaram-se alvos militares ou ficaram sem electricidade. No Al-Helal Al-Emirati, em Rafah, uma parteira relata “78 partos numa noite, cinco bebés por incubadora” . As bombas trepidam sobre o bloco cirúrgico; dentro, os médicos racionam oxitocina e anestesia. Quantas hemorragias se podem estancar com uma seringa partilhada?
O bloqueio de três semanas iniciado a 2 de Março reteve 54 ecógrafos, nove incubadoras e 350 kits de parteira — material vital para 15 000 grávidas que agora dão à luz quase sem vigilância médica. “Negar este acesso é negar-lhes humanidade”, denuncia Laila Baker, directora da UNFPA para o Médio Oriente . Que valor tem o direito à vida se a fronteira decide quem respira?
Fome, stress e gravidez: a tempestade perfeita
A desnutrição agrava cada contracção. Um em cada cinco fetos sofre de restrição de crescimento intra-uterino; 10 % a 20 % das grávidas estão já malnutridas . Relatórios médicos apontam para aumento de 20 % nos abortos espontâneos e pico de pré-eclâmpsia por falta de suplementos de cálcio. “Somos obrigadas a escolher entre comer e dar de mamar”, confessa Yasmine, 28 anos, que perdeu o primeiro filho numa marcha de evacuação descrita pela AP como “um corredor de morte” . Até quando o estômago vazio será mais letal do que o estilhaço?
A privação nutricional não atinge só o corpo; corrói a mente. Psicólogos de campo registam sintomas de stress tóxico em 67 % das gestantes, quadro que prefigura depressão pós-parto e atraso no desenvolvimento dos recém-nascidos. Que futuro pode germinar num útero cercado?
C-secções sem anestesia, bebés sem oxigénio
A Human Rights Watch descreve a cena: “cinco bebés numa incubadora, mães a sangrar sem analgesia” . O racionamento de ventiladores obriga equipas a revezar tubos de oxigénio entre prematuros. No início de Maio, a morte de Jinan, bebé de quatro meses, expôs crueldade adicional — morreu de subnutrição grave após três dias sem leite terapêutico . É possível falar em “danos colaterais” quando o alvo parece ser o acto de nascer?
Os números reforçam o alerta: apenas 20 % das unidades de saúde activas oferecem cuidados materno-infantis; logo, uma morte materna evitável ocorre a cada duas horas . A Convenção de Genebra protege as parturientes, mas o que vale o papel quando faltam pinças para cortar o cordão umbilical?!
Mulheres que partem, mulheres que partem-se
Rafah acolhe hoje mais de 180 000 grávidas e lactantes deslocadas . Dormem em tendas onde a privacidade é um lençol pendurado; partilham latrinas com cem pessoas; lavam bebés em bacias de plástico. Entre elas, Abeer, 32 anos, deu à luz gémeos prematuros entre sirenes de ataque. Teve alta quatro horas depois: “Precisavam da cama para outro caso.” Leva os filhos ao peito, mas não produz leite suficiente. “A culpa corrói-me mais do que a fome”, confessa. Haverá trauma maior do que falhar na única tarefa instintiva: alimentar a cria?
O paradoxo da transferência forçada
Israel justifica evacuações sucessivas como medida de protecção; contudo, cada deslocação interrompe o acompanhamento pré-natal. A taxa de partos domiciliares saltou de 7 % para 42 % em 18 meses, estima a OMS . Sem obstetra, cada contracção converte-se em roleta russa. Seria necessário lembrar que a lei humanitária impõe “acesso rápido e sem entraves” a cuidados obstétricos?
Custos para além da vida perdida
Economistas do Banco Mundial calculam que cada morte materna retira 3,2 M€ em produtividade futura; já se perderam cerca de 77 M€ só em 2024-25. Pior: órfãos de mãe têm o dobro da probabilidade de sofrer atraso escolar, perpetuando ciclos de pobreza. Que paz se reconstrói sobre este vazio de berço?
Reforçar, não apenas remendar
Especialistas propõem corredor humanitário de 96 horas dedicado a suprimentos obstétricos: 600 geradores portáteis, 1 000 kits de cesariana e 2 500 unidades de sangue. Defendem ainda tele-obstetria via satélite Starlink para monitorizar batimentos fetais à distância. Mas sem cessar-fogo, até um hospital de campanha vira alvo em horas. Serão as potências dispostas a blindar incubadoras como protegem oleodutos?
Vozes que insistem em parir esperança
Samira Qeshta, parteira de 41 anos, não aceita o colapso como destino. “As mulheres de Gaza pariram sob império otomano, sob mandato britânico, sob ocupação — e continuarão a parir”, garante. A sua crónica em áudio, que acompanha este artigo, dá rosto à estatística e lembra que cada grito de parto é também acto de resistência.