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Resumo

  • Com mais de 25 anos de carreira, o seu percurso é feito de rigor técnico, discrição institucional e uma paixão calma por aquilo que muitos consideram árido.
  • Uma nova geração de profissionais de arquivo em Portugal — maioritariamente mulheres, formadas nas décadas pós-25 de Abril — tem vindo a questionar o papel social do seu ofício.
  • A Associação Internacional de Arquivos manifestou apoio à sua postura e recomendou a Portugal a criação de uma política nacional de acesso a arquivos sensíveis sobre o colonialismo.

Paulo Tremoceiro não é historiador, político ou activista. É arquivista. Trabalha entre estantes, mapas, poeira e silêncio. E foi precisamente esse silêncio que decidiu interromper quando, no início deste ano, identificou uma série de caixas mal catalogadas nos fundos da Torre do Tombo. O que ali encontrou era explosivo: documentos originais da PIDE/DGS sobre a repressão colonial em Moçambique, esquecidos — ou ocultados — desde 1974.

Com um gesto aparentemente banal — abrir e descrever caixas — Tremoceiro devolveu ao país uma parte essencial da sua memória histórica. Neste perfil, exploramos o papel dos arquivistas como agentes activos da verdade, da justiça e da democracia.

O que vale um arquivo?

“Trabalho com papéis mortos. Mas às vezes os papéis respiram mais do que muitos vivos”, afirma Paulo Tremoceiro, sorrindo, no seu gabinete discretamente iluminado na Torre do Tombo. Com mais de 25 anos de carreira, o seu percurso é feito de rigor técnico, discrição institucional e uma paixão calma por aquilo que muitos consideram árido.

A redescoberta das doze caixas da PIDE em Moçambique não foi fruto do acaso. Foi o resultado de um processo meticuloso de reavaliação de fundos mal descritos e cruzamento de inventários. Tremoceiro seguiu um indício deixado num memorando datado de 1977, que mencionava “material PIDE/DGS recebido da província ultramarina” — nunca tratado formalmente.

“Era apenas uma referência perdida num índice auxiliar. Mas bastou isso para procurar melhor. E lá estavam: doze caixas, seladas, com siglas que ninguém revia há quase meio século”, conta.

O que se revela quando se descreve

Os documentos estavam intactos. Relatórios, fichas, ordens, fotografias, listas de detidos, instruções de vigilância. Tremoceiro notificou a direcção da DGLAB e iniciou o processo de descrição arquivística. A sua ficha técnica incluía o conteúdo, datas, tipologia e grau de sensibilidade. Foi essa descrição que, publicada no portal da Torre do Tombo, atraiu a atenção de investigadores, jornalistas e, mais tarde, do próprio Ministério da Cultura.

O impacto foi imediato. O país voltou a falar da PIDE. Da repressão. Da omissão. Da justiça adiada. E tudo isso começou com um trabalho de bastidores.

Arquivos são política

“Os arquivos não são neutros”, explica a historiadora Maria José Oliveira, que trabalha com documentação colonial desde os anos 90. “São construções institucionais. Decidir o que se guarda, como se guarda e quando se revela é um acto profundamente político.”

Durante décadas, os arquivos sobre o colonialismo foram marcados pela opacidade. Muitos foram mal catalogados, outros retidos por instituições militares ou diplomáticas. E mesmo os que estavam disponíveis, como se viu, eram difíceis de identificar sem o trabalho técnico dos arquivistas.

Tremoceiro não está sozinho. Uma nova geração de profissionais de arquivo em Portugal — maioritariamente mulheres, formadas nas décadas pós-25 de Abril — tem vindo a questionar o papel social do seu ofício. Vêem-se não como meros guardiões, mas como mediadores de memória. Como facilitadores da verdade.

A resistência subtil

Nem sempre é fácil. O arquivista lida com forças invisíveis: orçamentos curtos, resistências internas, burocracia lenta e, em alguns casos, pressão política. Há fundos que continuam inacessíveis sob pretextos vagos de “segurança nacional”. Há documentos que desaparecem. Há descrições que nunca foram feitas. “A melhor forma de esconder um documento é não o descrever”, dizem no meio.

Tremoceiro admite ter sentido “alguma estranheza” institucional quando tornou pública a redescoberta. “Não houve censura, mas houve cautela. Há sempre receio do impacto mediático. Mas não podemos arquivar a verdade.”

A sua acção motivou reacções internacionais. A Associação Internacional de Arquivos manifestou apoio à sua postura e recomendou a Portugal a criação de uma política nacional de acesso a arquivos sensíveis sobre o colonialismo.

Arquivistas e memória colectiva

A figura do arquivista raramente é celebrada. Mas o seu papel é fundamental numa democracia. Sem arquivo, não há prova. Sem prova, não há responsabilização. Sem responsabilização, não há justiça. O trabalho técnico, aparentemente invisível, tem consequências reais: para a história, para o direito, para a cidadania.

A filósofa Achille Mbembe escreveu que “a memória é o que resta quando o poder se esquece de esquecer”. O trabalho dos arquivistas é garantir que esse esquecimento nunca seja absoluto.

Hoje, Tremoceiro recebe pedidos de investigadores de universidades africanas, europeias e latino-americanas. Já foi convidado para conferências e debates. Mas mantém-se no seu gabinete, entre caixas e carimbos, descrevendo, pacientemente, o que a história tentou silenciar.

“Não sou herói. Apenas fiz o que devia ser feito. O arquivo é de todos. E todos têm o direito de saber.”

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